Estamos vivendo tempos estranhos — e assustadores — em que, para muita gente, a verdade deixou de ser aquilo que pode ser comprovado e passou a ser aquilo que confirma o que ela já queria acreditar.
O caso da bandeira é um exemplo disso. Mesmo depois de o ministro André Mendonça determinar a remoção de publicações que afirmavam falsamente que Lula havia jogado a bandeira do Brasil no chão, e mesmo com as imagens completas mostrando que ele a enrolou e a entregou a outra pessoa, há quem prefira continuar acreditando na primeira narrativa.
E, quando confrontado com a decisão, a resposta é: “O STF é comprado”. Ou seja: se a prova contradiz a minha crença, então a prova é manipulada, a Justiça é comprada e a mentira passa a ser verdade.
Isso é o que mais me estarrece na pós-verdade: não importa mais o que aconteceu. Se a informação prejudica o candidato de quem eu gosto, é manipulação. Se favorece minha narrativa ou prejudica o candidato de quem não gosto, é verdade.
Que desonestidade intelectual é essa?
O caso Escola Base, em 1994, já havia mostrado o estrago que uma acusação sem a devida apuração pode provocar: reputações destruídas e vidas profundamente afetadas. Hoje, com as redes sociais, uma mentira pode alcançar milhões de pessoas em minutos — e a correção quase nunca consegue alcançar a mesma velocidade.
O mais triste é perceber que, para quem já escolheu no que acreditar, nenhuma prova parece suficiente. A verdade pode bater à porta, mas, se não combina com a narrativa escolhida, simplesmente não é recebida.
São tempos sombrios.
