Em 1991, há 35 anos, Enéas Carneiro fez um alerta sobre os riscos que envolvem o exercício do jornalismo sem responsabilidade. Para ele, uma informação mal apurada ou distorcida poderia causar danos tão graves quanto um erro cometido por um médico. Era uma preocupação com o poder da palavra e, principalmente, com a responsabilidade de quem segura a “caneta”.
Naquele período, o exercício profissional do jornalismo ainda dependia da formação específica. Em 2009, porém, o Supremo Tribunal Federal derrubou a exigência do diploma para a profissão. Desde então, qualquer pessoa pode produzir conteúdo jornalístico sem necessariamente ter passado por uma formação específica em jornalismo.
Passados 17 anos daquela decisão, o próprio STF voltou a colocar o assunto em discussão. Os ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes defenderam uma nova reflexão sobre a regulamentação da atividade, especialmente diante das transformações provocadas pelas redes sociais.
E é justamente nesse ponto que o alerta de Enéas, feito há 35 anos, parece ainda mais atual.
Não se trata de dizer que diploma é sinônimo de competência ou que quem não possui formação acadêmica é necessariamente irresponsável. Há excelentes profissionais formados e também pessoas sem diploma que produzem conteúdo sério. O problema está na ausência de critérios, de compromisso e, sobretudo, de responsabilidade para quem exerce uma atividade capaz de interferir diretamente na vida das pessoas.
A diferença é que, em 1991, uma informação equivocada tinha um alcance muito mais limitado. Hoje, uma postagem pode alcançar milhares de pessoas em poucos minutos, ou até segundos. Uma acusação sem prova pode destruir uma reputação. Uma mentira pode ser compartilhada milhares de vezes antes que alguém consiga desmenti-la.
É sabido que mentira se espalha de forma instantânea, enquanto a verdade exige tempo, provas e profundidade para ser compreendida.
E talvez seja essa a parte mais preocupante: se Enéas já alertava para os riscos de uma informação irresponsável quando o jornalismo profissional tinha regras mais definidas, imagine o tamanho do problema em uma época em que qualquer pessoa pode se apresentar como jornalista, produzir conteúdo e alcançar uma multidão com um simples celular.
O debate sobre a exigência do diploma, portanto, não deveria ser reduzido à discussão entre “diplomados” e “não diplomados”. A questão mais importante é saber como garantir qualidade, ética, apuração e responsabilidade em uma atividade que exerce enorme influência sobre a sociedade.
Talvez seja exatamente por isso que a frase de 35 anos atrás tenha envelhecido tão pouco. Se uma caneta irresponsável já era perigosa quando a informação circulava em jornal, rádio e televisão, o desafio é ainda maior na era em que praticamente qualquer pessoa pode apertar “publicar” e alcançar uma multidão.
