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A verdade não pode ter lado

Há algo que deveria estar acima de Lula, Bolsonaro, Nikolas, Walber, PT, PL ou qualquer outro partido: a verdade.

É por isso que o episódio envolvendo a fala de Lula sobre o “toque” merece uma reflexão que vai além da velha disputa entre esquerda e direita.

Lula disse, durante um discurso em Belém, ao falar sobre a resistência dos homens ao exame de próstata, que “as mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas”. A frase foi dita e está registrada. Pode ser considerada infeliz, inadequada ou de mau gosto. Isso faz parte do debate público.

Mas existe também o contexto.

Lula falava sobre câncer de próstata, exames preventivos e a realização de uma cirurgia robótica pelo SUS. A comparação apresentada por ele era com a relação de homens e mulheres com consultas e procedimentos médicos.

Isso não obriga ninguém a gostar da frase. Mas exige honestidade para apresentá-la como ela foi dita.

E é aqui que entra a responsabilidade de quem tem milhões de pessoas acompanhando suas redes.

Nikolas Ferreira tem o direito de criticar Lula. Walber Virgolino também. Qualquer cidadão pode considerar a declaração inadequada. O problema começa quando um recorte é apresentado de maneira a induzir uma interpretação que o contexto completo não sustenta.

Não é preciso defender Lula para defender a verdade.

E essa régua precisa valer para todos.

Quando Jair Bolsonaro protagonizou, em 2022, a declaração sobre meninas venezuelanas de 14 e 15 anos, dizendo que eram “bonitas”, “arrumadinhas” e que “pintou um clima”, também houve uma enorme discussão pública sobre o significado da expressão e sobre o contexto da fala. O próprio relato de Bolsonaro está registrado em vídeo. Em 2025, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal condenou o ex-presidente a pagar R$ 150 mil por danos morais coletivos em razão da declaração; a decisão ainda admitia recurso.

Não cabe aqui transformar aquela declaração em prova de algo que ela, por si só, não comprova. Mas também não cabe fingir que ela nunca aconteceu ou simplesmente descartá-la porque Bolsonaro é apoiado por determinado grupo.

A mesma régua vale para Lula. E vale para seus adversários.

Se uma frase de Lula pode ser analisada e criticada, que seja. Se uma fala de Bolsonaro pode ser questionada, que também seja. Se Nikolas ou Walber fizerem uma afirmação equivocada, o mesmo princípio deve valer.

O problema não é a crítica.

O problema é quando a verdade vira propriedade de uma torcida.

Vivemos em uma época em que um vídeo de poucos segundos pode alcançar milhões de pessoas antes que alguém tenha tempo — ou vontade — de assistir ao restante.

Por isso, antes de compartilhar, vale uma regra simples: procure a fonte original. Veja o vídeo completo. Leia além da manchete. Confira o contexto.

Principalmente quando o conteúdo confirma exatamente aquilo que você já queria acreditar.

Porque é muito fácil combater a mentira do adversário e fechar os olhos para a mentira do próprio lado.

Difícil é aplicar a mesma régua a todos.

Político nenhum merece um salvo-conduto para distorcer fatos porque pertence ao nosso campo. E nenhum adversário merece ser condenado por algo que não disse apenas porque o recorte viralizou.

Criticar é parte da democracia. Distorcer não.

Cada pessoa é livre para escolher seu candidato, seu partido e suas convicções.

Mas existe uma escolha que deveria vir antes de todas as outras: escolher a verdade.

Porque a verdade não é de esquerda nem de direita.

A verdade não tem lado.


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