A Arte nas mãos empreendedoras: tradição que une gerações, gera renda e notabiliza o empreendedorismo feminino
A arte das louceiras é diferente do macramê, mas o talento e a entrega são os mesmos. As técnicas exigem mãos habilidosas, capacidade de gerenciar negócios, estratégias de venda e planejamento. Há cerca de oito mil anos, os primeiros oleiros deram início a essa jornada, desempenhando um papel crucial no desenvolvimento da humanidade.
Na Paraíba, o trabalho das louceiras há anos se tornou fonte de renda e patrimônio imaterial. O barro, tido como “ouro preto e vermelho”, já movimenta toda uma cadeia produtiva, tem mudado realidades e gerado perspectivas de bons negócios, ultrapassando, inclusive, as fronteiras da região.
Nesta segunda reportagem da série “A Arte nas mãos empreendedoras”, o PB Agora aprofunda a arte das louceiras na Paraíba e mostra como as mãos das artesãs têm impulsionado o empreendedorismo feminino. Mais que uma atividade que gera emprego e renda, a cerâmica preserva uma herança cultural nascida nos quilombos, fortalecendo laços familiares e toda uma cadeia econômica.
As peças feitas de forma artesanal, a partir da extração orgânica do barro, são consideradas algumas das melhores louças do Brasil — não só pelo produto em si, mas pela história de luta, resistência e sobrevivência da comunidade. No estado, são centenas de louceiras que têm na produção das peças sua principal fonte de renda. Muitas se uniram em cooperativas, criaram pequenos negócios e se tornaram empreendedoras de sucesso.

O trabalho é feito de forma artesanal. Usa técnicas milenares. E conservam tradições que ultrapassam o tempo. Mesmo com o advento da modernidade, resistem a era tecnológica e mantêm a qualidade do passado. É assim, trabalhando de forma associativa, que as ceramistas ganham a vida. O talento está nas mãos. O empreendedorismo no sangue.
Trabalhando de forma associativa, as artesãs de Serra Branca, no Cariri paraibano, de Chã da Pia, na zona rural de Areia, no Brejo do Estado e Santa Luzia, no Sertão, reencontram na fabricação de peças de barro uma alternativa de renda.
O trabalho das louceiras da comunidade quilombola localizada no Sítio Lagoinha, zona rural da cidade de Serra Branca, ajudou não apenas a garantir uma renda na comunidade, mas resgatar uma tradição que estava desaparecendo. O declínio econômico e social parecia inevitável, conforme a artesã Maria da Conceição e a saída foi partir para a criatividade e enveredar pelo empreendedorismo. E deu certo.
Em meio a uma grande quantidade de panelas e outras peças, ela revelou que recuperar a prática da atividade e a estima das ceramistas, foi um desafio. Isso porque houve resistência da comunidade para perceber que a atividade poderia gerar desenvolvimento local sustentável a partir do artesanato.
Maria da Conceição cultivou a arte de fazer panela de barro com a sua mãe Santana Ferreira Mota, falecida este ano aos 99 anos. São seis irmãs que trabalham com a arte, cujo principal segredo segundo Maria da Conceição, está na preparação do barro. Ela herdou a arte de sua mãe, que já aprendeu com a avó.
“Minha mãe foi uma guerreira. Ela vendia as peças nas feiras livres do Cariri. Hoje, a gente está dando continuidade ao seu trabalho. Já foi inclusive homenageada” destacou Conceição. Hoje, ela participa de feiras e salões divulgando a sua arte e conquistando novos clientes.
O barro que ajudou as louceiras de Serra Branca a enveredar pelo caminho do empreendedorismo é o mesmo que impulsionou a economia e os pequenos negócios das mulheres Louceiras de Chã da Pia, uma típica comunidade rural tradicional, localizada no município de Areia, Paraíba. Essas artesãs empreendedoras têm uma história de resistência à cultura ancestral.
Com herança quilombola, Chã da Pia é composta de aproximadamente 40 artesãs que produzem cerâmica utilitárias, como panelas, potes, fogareiros e outros utensílios domésticos. A atividade é realizada principalmente por mulheres com técnicas artesanais adquiridas de seus ancestrais, essas ceramistas são guardiãs de tradição multimilenar. Sentadas no chão, usando apenas as mãos e um caco de cerâmica, produzem objetos de argila de diversos tamanhos e para diferentes usos.

Marizete conta que antes costumava vender as peças sem muitas em feiras, mas depois expandiram as vendas e se tornaram empreendedoras. Mais uma vez o Sebrae e o Programa de Artesanato Paraibano foram decisivos para estimular as artesãs empreendedoras.
A louceira Marizete Evaristo da Silva deu detalhes da arte e como ela e os demais artesãos decidiram tornar a produção uma fonte de renda, criando um pequeno mas lucrativo negócio. As ferramentas são simples. Usadas no cotidiano. Sem sofisticação. Tudo manual.
Marizete Evaristo trabalha com a arte de fabricar panelas de barro, jarros, tigelas, potes, fogareiro, desde os 9 anos, tendo herdado o talento de sua mãe. Ela garante que não tem muito segredo em fabricar peças com qualidade, mas o trabalho requer paciência para fazer toda limpeza da matéria-prima.
“Esse é um trabalho que aprendemos com nossos avôs. Começou com a minha avó, e depois passou para a minha mãe, e ela repassou para mim. E eu pretendo passar para as minhas filhas” contou.

A produção de cada uma dessas peças constitui uma prática ancestral da comunidade e representa uma importante via de expressão cultural. A transmissão dos saberes relativos à arte do barro, praticados pelas louceiras, durante a produção de louça e utensílios de barro, tem se dado ao longo das várias gerações, e o estilo das peças imprimem em si a assinatura daquelas que as fazem.
Marizete Evaristo não esconde o orgulho pelo trabalho. Ela participa de feiras, salões e outros eventos, sempre divulgando a arte. E faz questão de enaltecer a cultura de seus antepassados que se transformou em uma fonte de renda de valor cultural inestimável.
Louceiras de Santa Luzia resgatam tradição quilombola
Tradição, resistência e empreendedorismo. Há 40 anos atrás, a artesã Rita Maria, mais conhecida como Rita Preta, aos 80 anos, já tinha uma visão empreendedora na Comunidade do Talhado, zona rural de Santa Luzia, no Sertão da Paraíba. Na época, ela queria não apenas manter uma tradição que herdou dos seus antepassados, mas criar um meio de sobrevivência para os membros da comunidade que iriam suceder o seu trabalho. Deu certo.
Cada peça, cada panela, ponte, feitos de forma minuciosa pelas artesãs da Comunidade do Talhado, traz a marca do povo negro de Santa Luzia, da cultura negra, do movimento negro, da arte negra e da história de uma cidade, muitas vezes esquecida e silenciada.
O trabalho iniciado pela louceira descendente de africanos, já falecida, prosperou e o seu legado não ficou esquecido, sendo perpetuado pelas mãos hábeis de sua neta Gileide Ferreira. Trata-se de uma tradição passada de geração de mães para filhas, netas, sobrinhas e noras.

Gileide Ferreira reuniu um grupo de mulheres e formou uma Associação para,unidas, aumentar a produção das peças de barros. O trabalho, feito com muita paciência e de forma artesanal, requer tempo. Com “espírito” empreendedor de “Rita Preta” elas criaram um negócio próprio e passaram a vender as peças em feiras, eventos e Salões de artesanato.
Gileide Ferreira destacou o ofício herdado de sua mãe Rita Preta e depois por sua mãe, Maria Rita. A emoção e o orgulho eram perceptíveis em suas palavras.
As louceiras empreendedoras produzem principalmente peças decorativas, mantendo a tradição. Cada peça, cada panela, ponte, feitos de forma minuciosa pelas artesãs da Comunidade do Talhado, traz a marca do povo negro de Santa Luzia, da cultura negra, do movimento negro, da arte negra e da história de uma cidade, muitas vezes esquecida e silenciada.
Gileide Ferreira contou que para manter a tradição, as mulheres de Serra do Talhado exercem o ofício de produzir peças de uso doméstico e passam toda a semana na confecção e comercialização de seus produtos.
A produção de cerâmica, um dos símbolos da cultura do Talhado, tem reflexos sociais e econômicos. Gileide Ferreira explicou que, embora a comunidade esteja em área urbana, tem a proposta de preservar a cultura que foi passada de geração em geração. E, para a artesã, as mulheres da Serra do Talhado têm um papel importante nesse processo de fortalecimento, em especial a irmã dela, Maria do Céu, e a avó, Rita Preta.
A arte que brota do solo nas mãos de Nevinha da Cerâmica
O torno de oleiro, popularizado pela cena icônica do filme “Gost, Do outro lado da Vida”, é o instrumento que ajuda a dar vida ao trabalho da artesã Maria das Neves Paiva, de 71 anos, conhecida como Nevinha das Cerâmicas e o seu esposo Antônio Teixeira de Paiva, de 74 anos. A técnica é sempre a mesma. Sem segredo. Eles colocam a argila no centro do torno e com as mãos vai modelando enquanto o dispositivo manual vai girando criando a forma desejada pelo artesão. A diferença é que o seu Antônio faz as peças no torno, enquanto que Nevinha das Cerâmicas, molda. Dá o toque final. E se encarrega das estratégias de venda.
Nascida em Itabaiana — terra do mestre Sivuca —, Dona Nevinha moldou desafios em uma trajetória de reconhecimento internacional. Hoje, sua famosa cerâmica preta, 100% natural, abastece redes de restaurantes no Brasil e no exterior.
Símbolo de perseverança e resistência, a artesã teve a sua vida transformada e mudou de rumo aos 18 anos, quando conheceu o marido, Antônio Teixeira de Paiva. Foi ele, um habilidoso artesão de Itabaiana, o responsável por apresentá-la ao universo da cerâmica.

As peças, talhadas por Seu Antônio e finalizadas com a arte de Dona Nevinha, primam pela sustentabilidade. “Não abro mão de cuidar do planeta. Não agredimos o meio ambiente; usamos apenas madeira legal e em pouca quantidade”, garante ela. O diferencial da cor preta surgiu de um acaso: um erro na temperatura do forno (700°C) que acabou mudando o rumo da produção e da vida do casal.
”É um trabalho que tem que ter paciência. Uma peça pode ser feita em até cinco minutos. Depois de pronta, a peça vai para um cantinho, ainda molinha, para depois receber o acabamento. Após essa etapa, é preciso esperar mais um dia para fazer o polimento. Depois a panela vai para a secagem, manuseamos cada peça de barro de seis a oito vezes até que ela esteja pronta para ser entregue ao cliente. Uma peça leva, em média, cinco dias para ficar pronta. A queima, nós realizamos uma vez por mês” descreveu.

Foto: Severino Lopes
As peças de Dona Maria das Neves, fabricadas nos diversos tamanhos e variedades, custam entre R$20 a R$ 250 e são muito procuradas. A produção é 100% artesanal. Por mês, Nevinha e Antônio Ferreira chegam a fabricar, através da modelagem manual, cerca de 400 peças, entre panelas e jarros e outros pelas utilitárias.
Graças ao senso de oportunidade, as peças ganharam o mundo. Recentemente, um contêiner foi enviado para uma rede de restaurantes no Reino Unido. “Temos peças na Europa, Dubai e em vários estados do Brasil”, conta orgulhosa. Para atender à demanda externa, que chega a 7 mil peças, ela contrata ajudantes temporários, gerando ainda mais empregos locais.
O talento ganhou notoriedade graças ao Programa do Artesanato Paraibano (PAP) e de instituições como o Sebrae. Todos os anos ela é presença certa no Salão de Artesanato da Paraíba. Com orgulho indisfarçável, ela conta que já participou de todos os Salões de Artesanato da Paraíba que este ano chega a 40º edição, e é grata ao Sebrae e ao PAP por dar visibilidade ao seu trabalho.

Para Jucieux Palmeira, curador do Salão de Artesanato, o trabalho dessas mulheres é a própria identidade do estado. “A cerâmica carrega saberes ancestrais que transcendem o tempo. É uma arte rica, com uma identidade muito forte na Paraíba”, enfatiza.
O sucesso das peças que hoje chegam ao Reino Unido e a Dubai é o reflexo de um setor que aprendeu a aliar saberes milenares à gestão moderna. Com o suporte de parcerias estratégicas e a resiliência nata da mulher paraibana, a cerâmica se consolida como um dos motores mais vibrantes da economia criativa do estado. Esta série ‘A Arte nas mãos empreendedoras’ revela que, seja no macramê ou na olaria, o segredo da Paraíba reside na capacidade de transformar elementos simples da natureza em negócios de valor inestimável e impacto social profundo.

Texto: Severino Lopes
Edição: Márcia Dias
