Os fios que se cruzam nas mãos talentosas das artesãs, com os nós dados no ponto certo e com beleza artística, entrelaçam histórias de vida. São heranças antigas, que tecem negócios e suscitam o empreendedorismo feminino. As mãos que moldam o barro também traçam mais que o destino – criam uma teia econômica e transformam vidas.
Apesar de diferentes, essas duas técnicas têm muito em comum. Ambas reverenciam a memória dos ancestrais e, nesse percurso, entre o longínquo passado e o presente marcado pela modernidade, surgem uma infinidade de oportunidades. São elas que criam pequenos negócios de valor cultural inestimável. Lojas são abertas em casa. A renda do mês é garantida. Os pequenos negócios nessas duas áreas contribuem para consolidar o artesanato como um dos principais vetores de desenvolvimento econômico, turismo do estado e geração de renda com impacto na vida das pessoas.

Nesta primeira reportagem da série “A Arte nas mãos empreendedoras”, os leitores vão conhecer a história de artesãs que descobriram no macramê e na olaria um meio para criar os seus pequenos empreendimentos e ganhar protagonismo no mundo dos negócios. O trabalho exige mais que mãos talentosas: requer paciência, equilíbrio e cuidado. Transformar barro e fio de algodão em obra de arte, e as peças acabadas em uma fonte de renda, é um talento duplo de quem tem visão empreendedora.
A tradição dessas duas artes milenares têm transformado vidas das mulheres empreendedoras na Paraíba e mostrado porque empreender é mais que um desafio. Requer criatividade, planejamento, mãos habilidosas, capacitação, ousadia, cooperação técnica e um produto atrativo que favoreça os negócios. História de vidas entrelaçadas pelos nós da arte.
Na Paraíba, a atividade do macramê vem numa crescente. Com forte presença feminina em importantes polos, as mulheres empreendedoras que trabalham com essa tipologia estão espalhadas em cidades como Campina Grande, João Pessoa, Araruna, Cabaceiras, Monteiro, Sapé, Itabaiana, atuando especialmente na produção de redes, decoração e moda. Araruna é considerada a terra do macramê, contando com o Centro de Referência do Macramê e mestras artesãs conhecidas como Julieta Estevão e Mazé Jerônimo.

As louceiras não ficam atrás. São diversas artesãs de várias faixas etárias trabalhando com essa tipologia no Estado, em uma atividade artesanal que gera emprego e favorece o surgimento de pequenos e bons sucedidos negócios. As mãos dessas artesãs, espalhadas em cidades como Santa Luzia, Itabaiana, Cajazeiras e Serra Branca, produzem uma infinidade de peças, desde panelas de barro até outros utensílios domésticos que abastecem vários mercados.
Entre o barro e os fios de algodão, o macramê se destaca como uma arte feita só com linhas e as mãos da artesã tecendo os nós. Com ela é possível fazer inúmeras peças decorativas como painéis, bolsas, suporte para vasos de planta. Na Paraíba, o macramê carrega traços culturais e muda vidas, sendo responsável por estimular o surgimento de muitos pequenos negócios.
“O macramê é uma atividade crescente na Paraíba. São mulheres que fazem a diferença”, destaca Jucieux Palmeira, que este ano será o curador do 41 Salão do Artesanato que acontecerá em Campina Grande.
A relação do macramê com a artesã Julieta Estevão é antiga, atravessa gerações. Começou quando ela tinha nove anos. A macramista herdou a arte de sua mãe, dona Severina Ramos, uma filha de escravo que encontrou nos fios um meio de vida dá um nó no sofrimento. E ensinou à filha o ofício como forma de sobrevivência. Julieta Estevão aprendeu a lição. É uma das precursoras da arte na Paraíba e há mais de 50 anos dá os nós que o destino traçou.
Com a mesma habilidade de dona Severina Ramos, Julieta fez do macramê um meio de vida. Sabe traçar bem as peças. Cada nó tem que ser duplo, disse ao PB Agora. O ateliê de Julieta em Araruna é colorido com imensa variedade de peças. Muitas são vendidas para o mundo da moda. Atrai os olhares dos estilistas e integra importantes coleções. As peças variam de R$ 150 até R$ 800.
“Trabalhar com o macramê compensa muito. Principalmente agora, depois de muitos anos o valor do macramê foi descoberto. Muitos estilistas estão lançando coleções feitas com nossas peças. É gratificante ver nosso trabalho reconhecido e presentes em lojas famosas” afirmou.
Mais que montar o próprio negócio, Julieta também estimulou outras artesãs a fazer o mesmo. O micro empreendedorismo deu certo. A Associação fundada por ela tem 19 artesãs. Todas com mãos habilidosas. No ano passado elas foram protagonistas do 40° Salão de Artesanato da Paraíba. Este ano, devem mostrar a sua arte na 41ª edição do evento. As peças já estão prontas.

Na associação fundada por Julieta, Maria José Jerônimo, Mazeh como é conhecida, ocupa um papel estratégico e um cargo importante: é a atual presidente. E sabe da responsabilidade que é fortalecer o empreendedorismo entre essas mulheres de mãos talentosas. Ela mesmo é exemplo. Com 51 anos, ela trabalha com os fios desde os 13 anos. Ao longo desse tempo, já deu muitos nós. Garante que é realizada nessa área.
Com sorriso largo e uma simpatia que encanta como a sua arte, Mazeh Jerônimo contou que aprendeu a dar os primeiros nós com a sua cunhada. Com o passar do tempo, foi praticando, até montar o seu próprio negócio. Hoje o macramê é a principal fonte de renda de Mazé Jerônimo. As peças, com diversas variedades, desde roupas a chaveiros, custam entre R$ 10 até R$ 450.
“Hoje o macramê se tornou a minha principal fonte de renda. Passo o ano todo, tecendo os nós, fazendo as peças e procurando formas de venda” brincou.

As peças por ela confeccionadas são variadas. Vão desde objetos pequenos, como brinco e colares, até obras gigantes como rendas com três metros. E os clientes não faltam. E são de vários estados, desde a Paraíba, até São Paulo, Minas, Santa Catarina e outros.
“Temos clientes de vários estados do Brasil. E a cada dia a procura aumenta mais. Somente no Salão de Artesanato deste ano, em João Pessoa, vendemos quase 300 peças”, contou.
O trabalho de Mazeh e suas amigas de nós, ganhou dimensão após a participação delas no Salão de Artesanato da Paraíba, nas feiras solidárias e nas capacitações oferecidas pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e pelo Programa do Artesanato da Paraíba (PAP).
Como resultado dessas atividades, as macramistas ampliaram a participação no mercado, conquistaram novos clientes e estruturaram os seus pequenos negócios. Somente este ano elas receberam uma grande encomenda: mais de 1500 peças apenas para uma rede de hotel do Nordeste. Tiveram que dobrar a produção. Fazer hora extra. O trabalho durou três meses. As peças já estão decorando os apartamentos do hotel. Um deles fica em João Pessoa. No total, n macramistas deram conta da demanda.
No momento elas estão preparando uma coleção para o desfile de moda que será realizado em Fortaleza de 9 a 12 de junho deste ano. No ano passado, elas viram sua arte brilhar em um desfile realizado em Campina Grande.
Esta semana, enquanto preparavam o estoque para o próximo salão e as peças para o próximo desfile, Estefany Fernandes, Adelma Avelar, Maria Avelar, Conceição Ursolino, Dijanete Costa, Ysonete da Silva e Mazeh Jerônimo receberam outra encomenda – maior que a primeira. Na tarde de última quinta-feira (17), elas interromperam a produção no galpão da Associação apenas para falar com o PBAgora. Foram rápidas. Depois retomaram o entrelaces na confecção das peças. Uma infinidade de nós dando forma as peças. Apenas usando as mãos, com delicadeza e sensibilidade de artista, sem o uso de agulhas.

Mas tanto trabalho tem sido recompensado financeiramente. Somente no ano passado elas lucraram quase R$10 mil no Salão de Artesanato realizado em Campina Grande. Este ano esperam aumentar o faturamento.
Cortinas, mantras e outras peças decorativas produzidas apenas com o uso das mãos. A arte usada por Mazeh e as suas amigas artesã é a mesma que mudou a vida de Sara Medeiros. As mãos de Sara, artesã macramista natural de Campina Grande, são delicadas. Precisa ser para fazer obras tão belas. O trabalho que ela faz exige paciência. Sensibilidade.
Há 4 anos, Sara trabalha com o macramê, que se destaca das outras por não precisar de uma agulha específica. Sara começou a dar os primeiros nós em 2020. Antes era hobby. Depois virou um negócio lucrativo. Com orgulho, ela faz questão de se apresentar como artesã que produz peças de decoração e vestuário. Atualmente produz peças de decoração como os famosos painéis e a parte do vestuário. Algumas peças levam tempo para produzir. Os painéis gigantes, por exemplo, em que ela utiliza madeiras de poda, podem levar até 15 dias para ser feito.
Ao PB Agora, Sara Medeiros lembra que o macramê é uma técnica milenar de tecelagem manual que utiliza apenas nós atados às mãos para criar franjas, tramas, formas geométricas. Faz a sua arte apenas usando as mãos. Sem nada de agulha por perto. Ela conta que se encantou pela arte do macramê quando descobriu que podia fazer grandes peças usando apenas as mãos. Dando nós. Entrelaçando cordões. Uma arte que cruzou os tempos sem perder o fio da história.
“Isso me encanta. Hoje, utilizamos alguns utensílios que nos auxiliam a desenvolver o macramê, mas não há uma ferramenta específica, como é para o crochê ou para o tricô. Tornou-se uma fonte de renda para mim, para minha família, além de ser algo que me traz satisfação pessoal em cada obra que eu realizo. Também abriu várias portas. Hoje, eu transito dentro da decoração, do vestuário”, explica Sara.

Mais do que uma forma de expressão, o macramê pode ser uma maneira de mudar vidas e oferecer possibilidades. Também foi motor de mudanças na vida de Viviara Farias Sousa, que criou o próprio negócio após descobrir o valor da técnica.
Desde 2021 ela trabalha com macramê. Sua especialidade são peças de decoração: folhas, painéis, plantas, luminárias e prendedores de cortinas. Ela conta que o macramê oferece uma infinidade de oportunidades. Há cinco anos, montou a sua loja com uma infinita variedade de peças. De lá, tira a sua principal fonte de renda. E garante que não perde a oportunidade de capacitar e aprimorar a técnica.
“São muitas oportunidades para você empreender como vestuários, decoração e acessórios. É uma arte muito variada” revelou.
Bordado, crochê, tricô, todas as formas de artesanato passaram pelas mãos da macramista Benícia Henrique de Guimarães Teobaldo, também moradora de Campina Grande. Ela é outra que começou a dar os primeiros nós ainda na adolescência. Apenas por hobby. Pra valer, como fonte de renda, o macramê entrou em sua vida depois da pandemia. Diante do confinamento, ela passou a aprofundar as técnicas, por vídeos na internet. Deu certo. A arte floresceu de novo. O que era hobby e uma forma de fazer o “tempo passar”, se tornou fonte de renda. E uma terapia.
“Eu comecei a desenvolver peças e me apaixonei. O macramê virou uma fonte de renda e uma terapia. Hoje eu tenho o meu próprio negócio e muitos clientes. Com a renda do macramê, já realizei alguns sonhos. Não pretendo parar “, relatou.
Jucieux Palmeira, curador do próximo Salão de Artesanato da Paraíba, ressalta que o macramê hoje ocupa um papel relevante na geração de renda e estímulo do surgimento dos pequenos negócios, geralmente, geridos por mulheres.
O macramê, conforme destacou Jucieux, tem se consolidado como alternativa de baixo custo e agregando valores, possibilitando que muitas mulheres enveredam pelo empreendedorismo, montando as lojas em suas próprias casas.
“Esse trabalho bem familiar vem fortalecendo cada vez mais o empreendedorismo na área feminino. Estimula muito bem os pequenos negócios no território. Contribui bastante com a economia criativa e desenvolve bem todo esse setor local” destacou.
Entre o barro moldado e os fios que se entrelaçam, o artesanato paraibano prova que o talento manual é, acima de tudo, uma ferramenta de libertação. Cada nó dado por mãos como as de Julieta, Mazé, Sara, Viviara e Benícia não apenas cria uma peça de decoração; ele amarra o passado à modernidade e sustenta o futuro de famílias inteiras. Na Paraíba, o empreendedorismo feminino tem a textura do algodão e a força da terra, revelando que, quando uma mulher domina a arte de tecer sua própria história, o mercado se abre e a cultura floresce em cada detalhe.

Texto: Severino Lopes
Edição: Márcia Dias
