O paraibano Carlos Antônio Vieira Fernandes, presidente da Caixa Econômica Federal, publicou em seu perfil no Facebook, uma reflexão que relaciona acontecimentos históricos, avanços tecnológicos e os desafios da sociedade contemporânea. No texto, ele resgata uma lembrança da infância envolvendo uma previsão feita pelo avô sobre a possibilidade de as pessoas se comunicarem por meio de telas.
A partir da experiência pessoal, Carlos Vieira estabelece uma reflexão sobre o papel da tecnologia na sociedade, os riscos da desinformação e a importância da consciência crítica para a democracia. Confira a publicação na íntegra:
Porque hoje é sábado!
1968: o ano que não terminou — uma lembrança pessoal
A frase “1968 foi o ano que não terminou” tornou-se célebre no Brasil com o livro 1968: O Ano que Não Terminou, publicado em 1988 pelo jornalista Zuenir Ventura. Ela expressa uma ideia poderosa: 1968 foi um ano tão intenso e transformador que seus conflitos, suas ideias e suas consequências ultrapassaram o calendário e continuaram presentes nas décadas seguintes.
Em diferentes países, estudantes, trabalhadores e movimentos sociais questionaram o autoritarismo, as hierarquias tradicionais, o racismo e as estruturas de poder.
Para mim, entretanto, 1968 tem um elemento adicional, de natureza pessoal.
Eu tinha apenas sete anos quando escutei do meu avô Pedro uma previsão que, no imaginário de uma criança que acabara de conhecer a televisão em preto e branco, soou como algo impossível.
— Meu neto, com certeza eu não estarei vivo para ver, mas você vai se comunicar com outras pessoas por uma tela de TV.
Não sei de onde seu Pedrinho tirou aquela previsão. Talvez fosse intuição, imaginação ou a capacidade de enxergar possibilidades que o presente ainda não permitia compreender.
Hoje, estando em João Pessoa, acabo de me comunicar com meus netos pela tela do celular. A previsão do meu avô, que parecia coisa de ficção, tornou-se parte da vida cotidiana.
E é justamente esse pequeno episódio familiar que me faz pensar no significado de 1968.
Será possível identificar uma relação entre poder, movimento de massa e tecnologia?
A tecnologia que hoje nos aproxima também carrega uma contradição. O mesmo celular que permite conversar com quem amamos, compartilhar conhecimento e ampliar nossa consciência pode se transformar em instrumento de desinformação, manipulação e disseminação de fake news.
Se 1968 simbolizou, entre tantas coisas, o questionamento das estruturas de poder e a busca por liberdade, nosso desafio contemporâneo é garantir que a tecnologia esteja a serviço da autonomia, do conhecimento e da democracia — e não da manipulação das consciências.
Afinal, a tecnologia abre caminhos, mas não determina o destino. Cabe a nós decidir como utilizá-la.
A escolha entre informação e desinformação, entre consciência crítica e manipulação, é também uma escolha democrática e soberana.
Meu avô talvez não soubesse explicar como aquela comunicação seria possível. Mas, de alguma forma, antecipou o futuro.
E eu, ao conversar hoje com meus netos, percebo que o futuro chegou. A questão que permanece é o que faremos com ele. Que futuro construiremos a partir do presente digital e interativo.
Fraterno abraço.
PB Agora
