“Bandeira nazista tremulando ao lado da Brasileira. Sede distrital do governo de Santa Catarina em 1934.”

A polidez é a primeira virtude e, quem sabe, a origem de todas. É também a mais pobre, a mais superficial, a mais discutível. Será apenas uma virtude? Pequena virtude, em todo caso, como se diz das damas de mesmo nome. A polidez faz pouco caso da moral, e a moral da polidez. Um nazista polido em que altera o nazismo? Em que altera o horror? Em nada, é claro, e a polidez está bem caracterizada por esse “nada”. Virtude puramente formal, virtude de etiqueta, virtude de aparato! A aparência, pois, de uma virtude, e somente a aparência.

Se a polidez é um valor, o que não se pode negar, é um valor ambíguo, em si insuficiente – pode encobrir tanto o melhor, como o pior – e, como tal, quase suspeito. Esse trabalho sobre a forma deve ocultar alguma coisa, mas o quê? É um artifício, e desconfiamos dos artifícios. É um enfeite, e desconfiamos dos efeitos. Diderot evoca em algum lugar a “polidez insultante” dos grandes, e também deveríamos evocar aquela, obsequiosa ou servil, de muitos pequenos. Seriam preferíveis o desprezo sem frases e a obediência sem mesuras.

Há pior. Um canalha polido não é menos ignóbil que outro, talvez seja até mais. Por causa da hipocrisia? É duvidoso, porque a polidez não tem pretensões morais. O canalha polido poderia facilmente ser cínico, aliás, sem por isso faltar nem com a polidez nem com maldade. Mas. Então. Por que ele choca? Pelo contraste? Sem dúvida. Mas não há contraste entre a aparência de uma virtude e sua ausência (o que seria hipocrisia), pois nosso canalha, por hipótese, é efetivamente polido – de resto, quem o parece o é suficiente. Contraste, muito mais, entre a aparência de uma virtude (que também é, no caso da polidez, sua realidade: o ser da polidez se esgota inteiro em seu aparecer) e a ausência de todas as outras, entre a aparência de uma virtude e a presença de vícios, ou antes, do único real, que é a maldade.

Contudo, o contraste, considerado isoladamente, é mais estético do que moral; ele explicaria mais a surpresa do que o horror, mais o espanto do que a reprovação. A isso se acrescenta o seguinte, parece-me, que é de ordem ética: a polidez torna o mal mais odiável porque denota nele uma educação sem a qual sua maldade, de certa forma, seria desculpável. O canalha polido é o contrário de uma fera, e ninguém quer mal às feras. É o contrário de um selvagem, e os selvagens são desculpados. É o contrário de um bruto crasso, grosseiro, inculto, que deserto é assustador, mas cuja violência nativa e bitolada pelo menos poderia ser explicada pela incultura. O canalha polido não é uma fera, não é um selvagem, não é um bruto; ao contrário, é civilizado, educado, bem-criado e, com isso, dir-se-ia, não tem desculpa.

Quem pode saber se o grosseirão agressivo é mal-educado? No caso do torturador seleto, ao contrário, não há dúvida. Como o sangue se vê melhor nas luvas brancas, o horror se mostra melhor quando é cortês. Pelo que se relata, os nazistas, pelo menos alguns deles, distinguiam-se nesse papel. E todos compreendem que uma parte da ignomínia alemã esteve nisso, nessa mistura de barbárie e civilização,  de violência e civilidade, nessa crueldade ora polida, ora bestial, mas sempre cruel, e mais culpada talvez por ser polida, mais desumana por ser humana nas formas, mais bárbara por ser civilizada.

Um ser grosseiro, podemos acusar o seu lado animal, a ignorância, a inculta, pôr a culpa numa infância devastada ou no fracasso de uma sociedade. Um ser polido não. A polidez é, nesse sentido, como que uma circunstância agravante, que acusa diretamente o homem, o povo ou o indivíduo, e a sociedade, não em seus fracassos, que poderiam servir de desculpa, mas em seus sucessos. Bem-educado, diz-se – e, de fato, é dizer tudo. O nazismo como êxito da sociedade alemã (…), eis o que julga tanto o nazismo como a Alemanha, quero dizer, aquela Alemanha, que tocava Beethoven nos “lager” e assassinava criancinhas.

Estou digressando, porém, é mais por vigilância do que por descuido. Diante da polidez, o importante antes de mais nada é não se deixar enganar. A polidez não é uma virtude, e não poderia fazer as vezes de nenhuma.

Por que dizer então que ela é a primeira, e talvez a origem de todas? É menos contraditório do que parece. A origem das virtudes não poderia ser uma (pois, nesse caso, esta mesma suporia uma origem e origem não poderia ser), e talvez seja próprio da essência das virtudes a primeira delas não ser virtuosa (…)

(*) Fragmento de um texto extraído do meu atual livro de cabeceira, intitulado Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Da autoria de André Comte-Sponville, lançado pela Editora Martins Fontes. Super recomendo.

Tôrres

Perguntas que não querem calar: por que será que o jornalista Luís Torres deixou o cargo de secretário de Comunicação do Governo da Paraíba?

E quem será substituto?

Pelo menos até as 15h38 desta quarta-feira (31), quando a coluna estava sendo fechada, não havia definição.

Mas havia especulações de vários nomes: os jornalistas Nonato Bandeira, Naná Garcez, e até o de Heron Cid andou sendo citado.

Aguardemos!

 

Wellington Farias

PB Agora

 

 

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