Eu não entendo como, em um mundo onde a maioria das pessoas vive com o mínimo, tanta gente consegue defender medidas que podem prejudicar a si mesma ou pessoas que conhece.
E não se trata de acreditar que quem nasce pobre deve permanecer pobre. É justamente o contrário. Consciência de classe é entender que uma pessoa pode mudar de vida — mas que essa possibilidade não está igualmente disponível para todos.
Sempre haverá histórias de quem saiu da pobreza e ficou rico. O problema é transformar essas exceções em regra. Uma sociedade não oferece oportunidades reais só porque algumas pessoas conseguem vencer. Se milhões começam a corrida em condições completamente diferentes, dizer que “basta trabalhar duro” é ignorar a própria realidade. O ponto de partida importa.
A internet piorou essa distorção. Todos os dias somos bombardeados por pessoas viajando, enriquecendo, comprando casas, abrindo empresas e “vencendo na vida”. Parece que todo mundo está prosperando. E a gente se pergunta: com que dinheiro? Mas é válido ressaltar que essa é uma amostra cuidadosamente selecionada da realidade. Os milhões que trabalham muito e continuam lutando para pagar as contas não aparecem no algoritmo.
E talvez uma das maiores armadilhas seja fazer o trabalhador acreditar que ele pertence à classe dos ricos apenas porque sonha um dia chegar lá. Assim, ele passa a defender hoje os privilégios de uma posição social que talvez nunca ocupe.
Também me incomoda a nostalgia de uma época em que “as coisas eram como deveriam ser”. Como deveriam ser para quem? Porque muitas dessas sociedades eram organizadas para que poucos mandassem e muitos obedecessem. Havia estabilidade para alguns e submissão para outros.
Não precisamos desejar que todos tenham o mesmo dinheiro. Não precisamos condenar quem prosperou. Precisamos apenas reconhecer que riqueza e oportunidade não são distribuídas igualmente.
O problema não é alguém conseguir sair da pobreza. O problema é uma sociedade precisar de histórias extraordinárias de superação para provar que funciona.
Talvez consciência de classe seja justamente parar de perguntar apenas “como eu posso ser a exceção?” e começar a perguntar:
“Por que tão poucas pessoas conseguem ser?”
Desde cedo, aprendemos que não se pode abraçar o mundo com as pernas nem dar um passo maior que a própria perna. Isso nos ensina que reconhecer nossos limites não é falta de ambição, mas uma forma de respeitar aquilo que somos capazes de realizar — porque, quando tentamos alcançar o que está além do nosso alcance, muitas vezes transformamos desejo em frustração.
Seria justamente aqui que Nietzsche ainda nos incomode quando alertava: “A moral na Europa é hoje uma moral de animal de rebanho.” E quando Nietzsche fala em “moral de animal de rebanho”, ele não está apenas criticando quem segue a maioria por preguiça de pensar, mas atacando a forma como assimilamos a moralidade sem questionar suas origens.
O problema não é simplesmente seguir uma maioria, mas deixar que valores produzidos por uma determinada estrutura social passem a ser percebidos como se fossem naturalmente nossos.
