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O Brasil das paixões políticas e da razão abandonada

Existe uma frase atribuída a Tom Jobim que traduz uma das grandes contradições da vida: “Viver no exterior é bom, mas é uma merda; viver no Brasil é uma merda, mas é bom”. Por trás do humor, há uma reflexão sobre a dificuldade de encontrar perfeição em qualquer lugar. Tudo tem vantagens e desvantagens, qualidades e defeitos. O problema começa quando deixamos de reconhecer essa realidade.

Na política brasileira, essa contradição parece ter ganhado uma dimensão ainda maior. De um lado, há quem enxergue em Lula a solução para todos os problemas do país. Do outro, há quem veja em Bolsonaro — ou agora em Flávio Bolsonaro — a resposta para todas as frustrações nacionais. Entre os dois campos, o debate público vai sendo substituído por uma disputa de lealdades na qual reconhecer um acerto do adversário pode ser interpretado como traição.

E é justamente aí que mora o perigo.

Não há governos perfeitos, líderes infalíveis ou projetos políticos imunes a críticas. Lula tem uma trajetória política marcada por avanços sociais reconhecidos por seus apoiadores, mas também por decisões e contradições que precisam ser examinadas criticamente. Bolsonaro, por sua vez, mobilizou uma parcela expressiva da população em torno de suas ideias, mas seu governo e sua atuação política também precisam ser avaliados à luz de seus resultados, de suas escolhas e de seus conflitos institucionais.

O mesmo vale para seus herdeiros políticos. A escolha de um candidato não deveria funcionar como um salvo-conduto para ignorar seus erros, assim como a rejeição a um adversário não deveria impedir o reconhecimento de eventuais acertos.

Mas a polarização transformou a política em uma espécie de campeonato de torcida. O cidadão deixa de avaliar propostas, resultados e comportamentos para defender um personagem. As informações favoráveis ao seu grupo são compartilhadas sem questionamento; as desfavoráveis são descartadas como mentiras, perseguição ou manipulação. Quando os fatos contrariam a preferência política, muitas vezes são os fatos que passam a ser colocados em julgamento.

Nesse ambiente, a desinformação encontra terreno fértil. Uma notícia falsa sobre o adversário é recebida com entusiasmo, enquanto uma informação verdadeira sobre o próprio grupo é tratada como exagero ou conspiração. O compromisso com a verdade passa a depender de quem será beneficiado por ela.

E o mais preocupante é que essa lógica não prejudica apenas os políticos. Prejudica a sociedade inteira.

Enquanto brasileiros discutem como se a vitória de um candidato representasse a salvação definitiva do país e a vitória do outro significasse sua destruição inevitável, problemas concretos continuam exigindo respostas: saúde pública, educação, segurança, emprego, desigualdade, saneamento e qualidade dos serviços públicos. Essas questões não desaparecem porque alguém venceu uma eleição. Tampouco são resolvidas pela demonização de metade da população.

É perfeitamente legítimo preferir Lula a Bolsonaro, ou Bolsonaro a Lula. A democracia pressupõe divergência, liberdade de escolha e disputa de projetos. O problema não é ter lado. O problema é transformar o lado escolhido em uma verdade absoluta, acima de qualquer questionamento.

É possível defender políticas sociais de um governo e criticar seus erros. É possível concordar com determinada proposta da oposição sem aderir ao conjunto de suas ideias. É possível reconhecer a importância de uma instituição democrática mesmo quando ela toma decisões contrárias aos nossos interesses. Isso não é incoerência. É maturidade política.

Aliás, coerência não significa concordar sempre com as mesmas pessoas. Significa sustentar princípios mesmo quando isso nos obriga a contrariar aqueles de quem gostamos.

Talvez seja essa a grande dificuldade do nosso tempo: compreender que nenhum político merece uma fidelidade que nos obrigue a abandonar o senso crítico. Mandatos ainda são temporários, partidos mudam, alianças se desfazem e discursos se transformam. Já as consequências das decisões políticas recaem sobre a população, independentemente de quem ela tenha escolhido para governar.

O Brasil não precisa que todos pensem igual. Precisa que as pessoas consigam discordar sem perder a capacidade de raciocinar, questionar e reconhecer a realidade. Precisa de eleitores que cobrem resultados, e não apenas de torcedores que celebrem seus candidatos. Precisa de cidadãos que entendam que defender a democracia também significa aceitar o direito de o outro pensar diferente.

No fim das contas, talvez a frase atribuída a Tom Jobim nos ajude a compreender essa contradição: aquilo que amamos também pode nos decepcionar, e aquilo que rejeitamos pode, em determinadas circunstâncias, apresentar algo que mereça consideração.

Entre Lula e Bolsonaro, entre governo e oposição, entre direita e esquerda, o Brasil não precisa escolher entre a cegueira de um lado e a cegueira do outro. Pode escolher o olhar crítico.

Porque o verdadeiro compromisso de um cidadão não deveria ser com a infalibilidade de um político, mas com o futuro do país. E, quando a defesa de um candidato se torna mais importante do que a defesa dos próprios princípios, talvez seja hora de perguntar se ainda somos nós que escolhemos nossos representantes — ou se já permitimos que eles escolham por nós aquilo em que devemos acreditar.


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