Ontem, recusei-me a assistir ao debate entre Lula e Flávio Bolsonaro. Conheço minhas reações psicossomáticas: quando me sinto de mãos atadas diante de situações que me provocam indignação, o corpo reage. Preferi assistir a um episódio de The Middle, uma família no meio do nada. Curiosamente, era exatamente assim que eu me sentia.
Hoje, depois de ler algumas análises sobre o famigerado embate, tive a confirmação de que fiz a escolha certa. O debate foi marcado por provocações, acusações e pouco espaço para propostas concretas. Flávio apostou no confronto, na provocação e no desgaste do adversário, numa estratégia que me lembrou o estilo de Donald Trump diante de Hillary Clinton.
Dialogar com quem parece mais interessado em atacar do que em responder é exaustivo. A tática de vencer pelo cansaço pode até funcionar com parte do público, mas não me conquista. Há quem confunda agressividade com firmeza e deboche com inteligência. Felizmente, não é o meu caso.
Lula está longe de ser a opção ideal. Não ignoro suas contradições nem considero que deva receber um cheque em branco. Mas, diante das alternativas que se apresentam, continuo enxergando nele a única escolha possível.
Talvez seja esse o exercício mais difícil em tempos de polarização: preservar a lucidez quando tudo ao redor parece feito para nos tirar do sério. Como ensinou Epicteto, “Não são as coisas que nos perturbam, mas a opinião que temos sobre elas”.
Eis o desconforto de uma democracia em que, às vezes, o voto não nasce do entusiasmo, mas da comparação entre caminhos. Enquanto isso, sigo tentando encontrar meu lugar — porque, na política brasileira, a sensação é mesmo a de estar no meio do nada.
