Confesso que estou angustiada com o que estamos fazendo com a verdade.
Não é apenas sobre Lula. É sobre o modo como estamos fazendo política — e sobre o valor que estamos dando à verdade.
Não precisamos concordar com Lula para exigir honestidade sobre Lula.
Uma fala sobre os garis foi recortada, retirada do contexto e transformada em uma narrativa que fazia parecer que o presidente havia se colocado contra eles. A história viralizou, provocou indignação e foi usada politicamente.
Depois, veículos e agências de checagem recuperaram o contexto e mostraram que a realidade era outra.
A verdade estava disponível. Era só reconhecer o erro.
Errar é humano. Compartilhar uma informação falsa sem saber pode acontecer com qualquer pessoa. O problema começa quando, depois de desmentida, a mentira continua sendo sustentada porque ela interessa politicamente.
E confesso que o que mais me incomoda é ver políticos da Paraíba, estado onde moro, corroborando com esse tipo de narrativa mesmo depois dos esclarecimentos, aparentemente em busca de ganhos políticos — e sem a nobreza de voltar atrás quando os fatos são esclarecidos.
O que se espera de quem ocupa um cargo público não é infalibilidade. É responsabilidade.
Voltar atrás quando se erra não diminui ninguém. Pelo contrário: exige coragem, honestidade e grandeza.
Posso discordar de Lula, criticar seu governo e não votar nele. Nada disso, porém, me dá o direito de mentir sobre o que ele disse.
Democracia pressupõe oposição, crítica e confronto de ideias. Mas oposição não pode ser licença para distorcer fatos.
Porque, se aceitarmos que a verdade só vale quando favorece o nosso lado, amanhã a vítima pode ser qualquer pessoa — inclusive alguém de quem gostamos.
Talvez uma das maiores demonstrações de independência política seja justamente defender a verdade quando ela beneficia alguém de quem não gostamos.
Hoje é Lula. Amanhã pode ser qualquer um.
Por isso, corrigir importa. Pedir desculpas importa. Voltar atrás importa.
Cazuza cantou: “Mentiras sinceras me interessam.”
Mas, na política, quando a mentira deixa de ser poesia e passa a ser instrumento de manipulação, ela já não tem nada de sincera.
E talvez seja justamente aí que Maquiavel continue tão atual. Em O Príncipe, ele mostra como, na política, a aparência pode muitas vezes se sobrepor à realidade. O problema é quando nós, como sociedade, aceitamos essa lógica e passamos a tratar a mentira como estratégia legítima.
E a pergunta deveria ser simples, antes de qualquer compartilhamento: isso é verdade?
Se não for, nenhum partido, candidato, ideologia ou interesse político deveria ser capaz de transformar uma mentira em verdade só para ganhar ou se manter no poder.
