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Do constrangimento à morte: dois casos mostram o perigo de acusar sem ter certeza

Idosa foi constrangida em público ao ser acusada falsamente de roubo, em João Pessoa — Foto: TV Cabo Branco/Reprodução

Dois episódios recentes, um em João Pessoa e outro no Rio de Janeiro, têm algo em comum que deveria servir de alerta: pessoas foram tratadas como criminosas antes que houvesse certeza de que haviam cometido qualquer crime.

Em João Pessoa, uma idosa, Jacira Gomes, foi abordada por funcionárias de uma loja de enxovais após ser apontada como suspeita de roubo. Segundo o relato publicado pelo Jornal da Paraíba, ela sequer havia entrado no estabelecimento e apenas passou pela lateral enquanto colocava uma sacola de compras na bolsa. Ao ser levada de volta à loja, mostrou o conteúdo que carregava e ficou constatado que não havia nenhum produto do estabelecimento. As funcionárias pediram desculpas.

O episódio terminou sem violência física grave, mas não sem consequência. A idosa foi exposta a uma situação humilhante e precisou provar que não havia feito aquilo de que estava sendo acusada.

No Rio de Janeiro, o desfecho foi muito mais trágico. Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, foi abordado em Copacabana por causa da bicicleta que utilizava. Segundo a família, o veículo pertencia a uma de suas irmãs. O segurança que o abordou admitiu ter dado um soco durante a discussão, e, segundo os relatos que estão sendo investigados, outros homens teriam levado Cláudio para outra rua, onde ele foi agredido. Ele morreu no hospital no dia seguinte. A Polícia Civil investiga o caso.

São histórias diferentes, com gravidades completamente diferentes, mas que partem de um mesmo erro: transformar uma suspeita em certeza e a certeza presumida em condenação.

É preciso ter cuidado com as palavras. Ninguém está dizendo que comerciantes, funcionários ou cidadãos não devam reagir diante de uma suspeita de crime. O que se defende é que suspeita deve ser comunicada às autoridades, não transformada em julgamento particular.

No caso da idosa, bastou uma interpretação equivocada para provocar constrangimento. No caso de Cláudio, uma suspeita ainda sob investigação terminou em morte.

E esse talvez seja o ponto mais assustador: quando alguém é apontado como ladrão sem que os fatos tenham sido apurados, abre-se uma porta perigosa. A partir dali, a pessoa deixa de ser vista como alguém que pode estar sendo confundido e passa a ser tratada como alguém que “merece” ser detido, exposto ou até agredido.

Em tempos de redes sociais, câmeras, grupos de WhatsApp e julgamentos instantâneos, esse risco aumenta. Uma acusação pode se espalhar antes mesmo de os fatos serem conhecidos. E, depois que uma reputação é destruída — ou uma agressão acontece — não existe botão de desfazer.

O caso de João Pessoa mostra o constrangimento que uma acusação equivocada pode causar. O caso de Copacabana mostra até onde essa lógica pode chegar.

Entre suspeitar e condenar existe uma diferença fundamental: a prova. É justamente essa diferença que uma sociedade civilizada não pode abandonar.

Márcia Dias

PB Agora

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