A declaração do deputado estadual Walber Virgolino (PL) contra policiais filiados a partidos de esquerda reacende um debate que vai além da disputa ideológica: o contraste entre discursos adotados no presente e os caminhos percorridos ao longo da trajetória pública.
Durante entrevista ao programa Ô Paraíba Boa, Walber afirmou que considera “vergonhoso” um policial integrar partidos de esquerda e defender pautas de direita, alegando que essas legendas teriam posições contrárias às forças de segurança. O parlamentar citou partidos como PSB, Rede e PSOL ao fazer suas críticas.
A fala, no entanto, ganha outra dimensão quando observada a própria trajetória do deputado. Em janeiro de 2013, Walber Virgolino foi nomeado pelo então governador Ricardo Coutinho (PSB) para comandar a Secretaria de Administração Penitenciária da Paraíba. Antes disso, também durante a gestão socialista, ocupou o cargo de corregedor do Detran-PB.
A relação política de Walber com integrantes do campo socialista também apareceu em outro momento recente. Durante as eleições municipais suplementares de Cabedelo, em 2025, o deputado participou de articulações envolvendo o ex-candidato a prefeito e ex-presidente da Companhia Docas da Paraíba, Ricardo Barbosa (PSB). Em vídeo divulgado na época, Walber admitiu a possibilidade de construção de uma união política com Barbosa e outros grupos para disputar o comando da cidade.

“Se preciso união for, conta com minha união”, afirmou Walber ao comentar a possibilidade de uma frente ampla com o objetivo de retirar o grupo político do então prefeito Vitor Hugo da Prefeitura de Cabedelo.
Os episódios mostram que a política, muitas vezes, é marcada por movimentos mais complexos do que as divisões ideológicas apresentadas nos discursos eleitorais.
A participação de um agente público em uma gestão de determinado partido não significa necessariamente concordância integral com todas as posições daquela legenda, assim como a filiação partidária de um policial não define automaticamente sua visão sobre segurança pública.
Como observa o sociólogo Zygmunt Bauman, “a identidade não é mais algo que possa ser definido de uma vez por todas; ela é uma tarefa a ser realizada”. A reflexão ajuda a compreender que trajetórias políticas também são construídas por mudanças, escolhas e reposicionamentos ao longo do tempo.
No caso de Walber Virgolino, a trajetória reúne diferentes momentos: de integrante de uma gestão comandada pelo PSB, passando por diálogos políticos com lideranças socialistas, até se tornar uma das principais vozes de oposição à esquerda no cenário paraibano.
A passagem pelo governo Ricardo Coutinho e a articulação política envolvendo lideranças socialistas em Cabedelo mostram que a relação entre agentes públicos e partidos nem sempre segue uma divisão rígida entre campos ideológicos. O ponto central do debate não é a possibilidade de mudança de opinião — algo comum na política —, mas o contraste entre uma experiência vivida no passado e a crítica feita no presente.
Assim a bagagem de Walber mostra que alianças e posições podem mudar conforme os contextos, disputas e objetivos de cada momento. A coerência de um político, portanto, não é analisada apenas pela sigla que ocupa ou pelas alianças que constrói, mas também pela forma como justifica suas mudanças de posição ao longo da carreira.
