A democracia não sobrevive apenas de eleições. Ela depende de algo menos visível, porém muito mais importante: a aceitação coletiva de que existem regras válidas para todos, inclusive para aqueles que estão no poder ou se dizem representantes “do povo”. Quando grupos políticos passam a agir como se estivessem acima dessas regras, inicia-se um processo perigoso de erosão institucional.
Nos últimos anos, o Brasil passou a conviver com um fenômeno inquietante: a naturalização da incoerência política em nome da fidelidade ideológica. O que antes seria considerado contradição passou a ser tratado como estratégia legítima. Se um aliado tenta escapar de uma intimação judicial, fala-se em perseguição. Se o adversário questiona um procedimento, chama-se de afronta à Justiça. Se há benefício político ou pessoal, flexibilizam-se princípios; se o outro lado faz o mesmo, exige-se punição exemplar.
Não se trata apenas de hipocrisia — algo antigo na política. O problema atual é mais profundo: a tentativa deliberada de desmoralizar qualquer regra que imponha limites ao grupo dominante dentro de determinada bolha ideológica. Nesse ambiente, instituições deixam de ser vistas como pilares da República e passam a ser tratadas como obstáculos a serem destruídos quando contrariam interesses políticos imediatos.
Esse processo é alimentado por um mecanismo estudado por pesquisadores da comunicação e da ciência política: a agnotologia, ou seja, a produção intencional da ignorância. Diferentemente da simples mentira, a agnotologia cria um ambiente de confusão permanente. O objetivo não é convencer a sociedade de uma única verdade, mas desgastar a própria ideia de verdade objetiva.
A consequência é grave. Quando tudo vira narrativa, nada mais precisa ser coerente. O cidadão é bombardeado diariamente por escândalos, frases de efeito, conflitos artificiais e disputas performáticas. A política deixa de ser debate racional sobre prioridades públicas e passa a funcionar como uma guerra emocional de torcidas organizadas.
Nesse contexto, decisões absurdas começam a ser tratadas como normais. Gastos milionários sem explicações plausíveis, benefícios voltados a nichos privilegiados vendidos como “defesa da liberdade”, alianças contraditórias justificadas em nome de uma suposta guerra cultural. O símbolo importa mais do que o impacto real na vida da população.
Talvez o aspecto mais preocupante seja a inversão moral que acompanha esse processo. O “combate à corrupção” deixa de ser princípio universal e vira ferramenta seletiva. O “respeito à lei” vale apenas para os adversários. O “patriotismo” passa a significar lealdade a líderes específicos, e não às instituições do país.
Quando isso acontece, a democracia começa a adoecer silenciosamente. Porque regimes democráticos raramente morrem de uma vez. Eles se desgastam aos poucos, pela repetição contínua de exceções, pela normalização do absurdo e pela corrosão da confiança coletiva nas regras comuns.
Nenhuma sociedade consegue permanecer democrática por muito tempo quando parte significativa da população acredita que seu grupo político possui autorização moral para desrespeitar normas que exige dos outros. Sem reciprocidade institucional, sobra apenas força, propaganda e ressentimento.
E é justamente aí que reside o maior risco: quando a política abandona o compromisso com a realidade compartilhada e transforma a confusão em método de poder, o debate público deixa de buscar soluções e passa apenas a administrar paixões. O cidadão deixa de ser tratado como sujeito crítico e passa a ser reduzido a consumidor de indignação.
No fim, talvez caiba lembrar um ensinamento clássico de O Príncipe. Nicolau Maquiavel advertia que o governante poderia até recorrer à astúcia e à força para manter o poder, mas jamais deveria permitir que o Estado mergulhasse no desprezo e na perda de legitimidade diante do povo. Quando a esperteza política destrói a confiança nas regras comuns, o príncipe até pode conservar o poder por algum tempo — mas corrói as bases que sustentam a própria estabilidade do reino.
A erosão democrática começa exatamente nesse ponto: quando a exceção vira regra e a coerência deixa de importar.
