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A oportunidade não basta: é preciso agarrá-la

Falar sobre educação costuma significar falar de números, índices, políticas públicas e estatísticas. Mas, para quem viveu a educação como possibilidade de transformar a própria trajetória, ela significa muito mais: significa ampliar horizontes, fazer escolhas e descobrir que o lugar onde nascemos não precisa determinar onde vamos chegar.

Minha história começou em Areia, no interior da Paraíba. Tive uma família presente e estruturada, que sempre acreditou que a educação poderia abrir caminhos. Morei com meus pais e minhas irmãs até sair de casa para cursar a faculdade. Durante parte do ensino fundamental e do ensino médio, estudei em escola particular porque meus pais acreditavam que aquele investimento valeria a pena. E eu sabia que precisava fazer a minha parte.

Desde cedo, procurava retribuir o esforço deles com boas notas, dedicação e compromisso com os estudos. Quando saí da escola pública e fui para a particular, houve quem achasse que eu não conseguiria acompanhar. Eu era a novata. Mas não demorou muito para que a percepção mudasse. “A novata é inteligente”, diziam. Eu pensava diferente. Inteligência é uma condição. Eu sou esforçada.

Essa talvez seja uma das frases que melhor definem minha trajetória. Nunca achei que bastasse ser considerada inteligente. Era preciso estudar, insistir, aprender com os erros e continuar. Para fixar um conteúdo seguia a máxima de que a repetição é a mãe de todas as habilidades.

Desde pequena, também sabia que, se quisesse ampliar minhas possibilidades, precisaria sair daquela cidade do interior. Não porque houvesse algo de errado com Areia, mas porque eu queria conhecer outros caminhos e buscar oportunidades que não estavam disponíveis ali. Foi o que fiz!

A aprovação na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa, foi uma dessas portas que se abriram. Mas entrar na universidade era apenas o começo. Durante a graduação, morei na casa de parentes, precisei economizar e aprendi a fazer escolhas. Algumas coisas precisavam esperar. Outras simplesmente não cabiam no orçamento.

Minhas irmãs também viveram suas próprias dificuldades para estudar e, em determinados momentos, utilizaram transporte cedido pela prefeitura. Mas essa não foi a minha experiência. No meu caso, havia a necessidade de administrar os recursos disponíveis e, principalmente, de não transformar as dificuldades em motivo para desistir.

Durante a graduação, busquei estágios remunerados. Queria aprender, adquirir experiência e me preparar para o mercado de trabalho, mas também queria ter uma fonte de renda que pudesse aliviar um pouco o esforço financeiro dos meus pais. Era uma forma de começar a construir minha autonomia.

Concluí duas graduações pela UFPB: Jornalismo e Relações Públicas. Depois, fui aprovada em concurso público para atuar na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), na Coordenadoria de Comunicação.

Mais tarde, continuei estudando. Fiz especialização em Comunicação Digital e Marketing de Dados na CesRei e posteriormente obtive o título de Mestre em Desenvolvimento Regional pela própria UEPB.

Hoje, sigo pensando na possibilidade de um doutorado, mas ainda é um sonho embrionários. Todavia, existe algo que aprendi ao longo desse caminho: não precisamos transformar a vida em uma competição permanente. Eu poderia ter feito mais? Talvez. Poderia ter alcançado algumas coisas que meus colegas alcançaram? Sim.

Talvez ainda possa fazer algumas delas. E talvez algumas experiências nunca façam parte da minha história. E está tudo bem. Não sou frustrada por aquilo que não fiz. Como escreveu Nietzsche, ‘torna-te quem tu és’. Talvez o verdadeiro sucesso esteja menos em alcançar tudo aquilo que poderíamos ser e mais em construir, com consciência, aquilo que escolhemos ser.

Hoje, trabalho com o que gosto. Tenho saúde, família e uma renda que, somada à do meu esposo, nos permite viver com dignidade e sem passar necessidades. Isso também é sucesso.

Talvez não seja o sucesso que aparece nas redes sociais ou nas comparações que fazemos com a vida dos outros. Mas é o sucesso que faz sentido para mim. Por isso, quando penso em educação, não consigo enxergá-la apenas como um caminho para conseguir um diploma ou um emprego. A educação amplia o campo de escolhas.

Mas é preciso reconhecer também que uma trajetória não é construída apenas pelo esforço individual. Eu tive pais que acreditaram em mim. Tive uma família que me apoiou. Tive oportunidades. Tive acesso à escola pública e à particular. Cheguei a uma universidade pública. Tive parentes que me acolheram quando precisei morar fora.

Reconhecer isso não diminui meu esforço. Ao contrário: ajuda a compreender que nossas histórias são construídas por uma combinação de oportunidades, apoio, escolhas e dedicação. E que mostra que o ponto de partida conta. É por isso que acredito que a oportunidade é fundamental, mas ela, sozinha, não transforma uma vida. É preciso agarrá-la.

A universidade abriu uma porta. Eu atravessei. O caminho não foi perfeito, nem fiz tudo o que poderia ter feito. Mas fiz escolhas, trabalhei, estudei e continuei caminhando. E talvez seja essa a maior lição que a educação me deixou: não precisamos viver todas as possibilidades para considerar nossa vida uma conquista. Precisamos reconhecer aquelas que escolhemos.

Eu escolhi estudar. Escolhi sair de Areia. Escolhi construir minha profissão. Escolhi continuar aprendendo. E continuo escolhendo os caminhos que fazem sentido para mim. A oportunidade não basta. É preciso agarrá-la. Porque a educação não torna você milionário, mas ela te dá o poder de escolha.


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