Entre uma nota sanfona, o toque do triângulo e a batida do zabumba, uma tradição antiga se mantém no São João de Campina Grande. Os toques dos instrumentos são inconfundíveis. E convidativo para o arrasta-pé. No centro do forró tradicional, também conhecido como forró pé de serra, está uma formação musical que sobrevive há décadas sem perder sua essência.
Com três instrumentos que é o retrato da cultura nordestina, os trios de forró estão em toda parte na terra do Maior São João do Mundo e formam o núcleo principal de um gênero que, mesmo diante de modismos e pressões comerciais, mantém viva sua identidade. E quando o mês de junho chega, o som desses instrumentos ecoam nas ruas de Campina Grande, não apenas no Parque do Povo, epicentro da festa, mas nas lojas comerciais e outros ambientes.

Em Campina Grande, os trios de forró são a alma das festividades juninas e da cultura pé de serra. A cidade conta com mais de 100 trios tocando o São João. Vestidos a caráter, eles se apresentam em palcos culturais, no Parque do Povo e na Ilha Seu Vavá, na Pirâmide. Entre tantos trios, destaques para o Trio Forró de Boa, Trio Agrestino, Trio Forró do Léo, e o Trio Forró Nordestinado .
Essa tradição nordestina gera renda, atrai turistas e uma identidade cultural singular brasileira. É no tempo de São João que os trios de forró pé de serra se tornam protagonistas das festas populares.
A tradição do gênero segue sendo passada entre gerações de músicos, muitas vezes dentro das próprias famílias.
“É muito gratificante para quem faz forró pé-de-serra. São oportunidades que trazem uma alegria enorme pra gente”, celebrou Edenir dos Santos, do Trio Forrozeando.
Os músicos João Paulo, Emerson da Silva e Israel Santos tem profissões diferentes. Dois deles são promotores de venda e representantes comerciais. No mês de junho, eles se juntam para tocar forró. João Paulo é o sanfoneiro, Emerson é o zabumbeiro enquanto que Israel é o triagista. Eles integram o Trio Rapotaxo.
O Trio de Forró existe há cinco anos, e se apresenta durante todo o ano, sendo que o período de mais trabalho é o junino. O produtor do trio, Emanoel Carvalho de Lima, que também é músico, disse que junho é o melhor mês para divulgar a música nordestina. O foco do grupo, segundo ele, é defender a tradição, os costumes e as raízes da região. Este ano, o trio prestou uma homenagem a literatura de cordel.
“O nosso trio também representa a literatura de cordel. É muito importante mantermos essa tradição. Os trios de forró fazem parte da história do povo nordestino” disse Emanoel Carvalho.
Com a sua inseparável sanfona, puxando acordes conhecidos do Nordestino, o sanfoneiro João Paulo disse ao PB Agora que se sente feliz e defende o legado de Luiz Gonzaga. Para ele, tocar na terra do Maior São João do Mundo é uma honra.
“Fazer parte dessa festa mantendo a nossa tradição é muito bom” disse.

Com 35 anos de carreira, tocando o forró pé-de-serra, Rildo Albuquerque já comandou vários tios de forró como os Almirantes do Forró e os Agrestinos do Forró e Aventureiros do Forró. Os grupos, lijá se apresentou várias vezes nas palhoças do Parque do Povo.
Rildo Sanfoneiro garante que o grupo mantém a autêntica formação clássica nordestina, executando clássicos do xote, baião e arrasta-pé. A temporada 2026 para ele, foi uma das melhores com diversos shows realizados ao longo do mês.
“Eu tenho 35 anos de carreira tocando o forró pé-de-serra O São João está muito bom. Sempre gostei de tocar o forró tradicional. A cultura nordestina é minha vida. Gosto muito” disse Rildo.
O trio de forró tradicional é um formato consagrado por Luiz Gonzaga, que popularizou o gênero pelo Brasil, contando histórias do nortista, como era conhecida parte da atual região nordeste. Para muitos músicos, integrar um trio de forró não é apenas uma escolha artística, mas uma profissão que garante o sustento de diversas famílias, além da identidade que integra gerações de pessoas pela luta e reconhecimento da sua identidade.

A história dos trios de forró começa com o rei do baião, Luiz Gonzaga. Exímio tocador de sanfona, Gonzaga sentiu a necessidade de um acompanhamento que marcasse o ritmo da música em suas apresentações. Inspirado pelas bandas de pífano que havia no sertão e nos instrumentos de couro utilizados no Rio de Janeiro.
Gonzagão incluiu a zabumba em sua performance. Mas faltava algo que fosse de encontro àquele som “abafado” produzido pelo couro. E a solução veio do “ting-ling” que um menino fazia com um triângulo pelas ruas do Recife chamando atenção para os biscoitos que vendia, ele encontrou o instrumento para acompanhar a sanfona e a zabumba!”.

Desde então, o trio passou a fazer parte da identidade cultural da música nordestina. Alguns trios de forró conseguiram alcançar a fama, como o Trio Nordestino, os Três do Nordeste, Trio Mossoró entre tantos outros que fizeram sucesso em todo o Brasil e ainda mantêm um grande número de fãs.
Neste penúltimo final de semana do São João de Campina Grande, alguns Trios de Forró, estarão se apresentando na Pirâmide e nas Palhoças Zé Lagoa e Zé Bezerra. Com a sanfona, o triângulo e o zabumba, se apresentarão, os Trios, Forró Bom Gosto, Trio Triângulo de Ouro, Trio Serrano, Trio Pimenta Com Mel, Trio Só Xote, Trio Farinha Com Rapadura, Trio Forró Borborema, Trio Arara do Forró, Trio Palmeira, Trio Forro Bom Gosto, Trio Triângulo de Ouro e Trio Magnatas do Forró.

Entre uma nota sanfona e outra apresentação, o forró segue firme, enchendo as ruas de som, suor e memória. E os trios, mesmo sob sol forte ou ao cair da noite, seguem tocando e valorizando não apenas uma sonoridade, mas todo um modo de vida típico do povo nordestino.
Severino Lopes
PB Agora
