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Seria essa a verdadeira harmonia entre os Poderes?

“Não existe esquerda e direita. Existe quem está dentro e quem está fora. Quem está fora quer entrar e quem está dentro não quer sair.” A frase, atribuída ao ex-deputado Julian Lemos, pode até ter sido dita em outro contexto, mas ganha uma atualidade incômoda diante dos episódios que vêm revelando a proximidade entre empresários, políticos, advogados e integrantes das mais altas esferas da República.

A questão, portanto, não é saber se a frase pertence à esquerda ou à direita. Talvez justamente aí esteja o ponto. Quando se trata de poder, as diferenças ideológicas podem perder espaço para uma lógica muito mais antiga e pragmática: quem tem acesso, quem consegue chegar e quem consegue permanecer.

As recentes revelações envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e suas tentativas de aproximação com autoridades do Judiciário colocam essa discussão novamente sobre a mesa. Mensagens e áudios divulgados pela imprensa mostram articulações, intermediários, encontros e tentativas de estabelecer canais de diálogo com integrantes do Supremo Tribunal Federal.

É importante fazer uma distinção: ter acesso a uma autoridade não significa, por si só, ter influência sobre ela; um encontro não prova favorecimento; e uma relação institucional não equivale automaticamente a uma relação de troca. São as investigações e os fatos comprovados que devem determinar responsabilidades.

Mas a democracia também precisa fazer uma pergunta anterior: até que ponto é saudável para uma República que determinados grupos tenham facilidade para circular pelos corredores onde decisões capazes de afetar bilhões de reais são tomadas?

É aqui que a frase de Julian Lemos deixa de ser apenas uma provocação política e passa a funcionar como uma espécie de retrato do nosso tempo.

Porque a democracia pressupõe que as instituições sejam abertas ao cidadão, mas não pode permitir que o acesso privilegiado se transforme em uma espécie de moeda de poder. O problema não é uma autoridade receber alguém. O problema surge quando a sociedade começa a ter a impressão de que existem cidadãos que conseguem entrar pela porta da frente, enquanto outros sequer conseguem chegar ao prédio.

A Constituição fala em independência e harmonia entre os Poderes. E essa harmonia é essencial para o funcionamento da República. Mas harmonia não pode significar proximidade indistinta. Independência não é isolamento, mas também não pode ser confundida com intimidade entre quem decide e quem tem interesses diretamente envolvidos nas decisões.

Executivo, Legislativo e Judiciário precisam conversar. Precisam funcionar. Precisam, inclusive, manter canais institucionais de diálogo. O que não pode existir é uma zona cinzenta na qual relações pessoais, interesses econômicos e decisões públicas se confundam a ponto de produzir desconfiança.

E confiança é um patrimônio institucional.

Quando a população começa a enxergar a política como um clube restrito, no qual os mesmos personagens transitam entre diferentes espaços de poder, a consequência não é apenas a crítica a um ministro, a um empresário ou a um político específico. O desgaste atinge a própria ideia de República.

Talvez seja esse o aspecto mais preocupante.

A velha divisão entre esquerda e direita continua existindo no debate de ideias, nos programas de governo e nas escolhas eleitorais. Mas, nos bastidores do poder, há momentos em que essas fronteiras parecem muito menos importantes do que outra divisão: os que têm acesso e os que não têm.

Quem está dentro conhece os caminhos.

Quem está fora precisa encontrar uma porta.

E, em uma democracia saudável, essa porta não deveria ser aberta pela amizade, pelo dinheiro, pela influência ou pela proximidade com quem ocupa um cargo público. Deveria ser aberta pelas instituições, pelas regras e pela transparência.

É por isso que a pergunta permanece:

Seria essa a verdadeira harmonia entre os Poderes?

Ou a verdadeira harmonia republicana seria aquela em que Executivo, Legislativo e Judiciário conseguem conviver de maneira independente, respeitosa e institucional, sem que ninguém precise estar “dentro” para ter seus interesses ouvidos?

Talvez a diferença esteja justamente aí.

Uma coisa é ter acesso às instituições.

Outra, muito diferente, é ter acesso privilegiado ao poder.

E quando essa diferença deixa de ser clara, quem perde não é apenas um lado do espectro político. Perde a República.


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