O deputado Clodovil Hernandes, 71, que morreu na última terça-feira (17) após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC), conseguiu ser polêmico em toda sua vida, e até mesmo na hora da morte.

 

Seu último desejo está no testamento: criar uma fundação com o nome da mãe adotiva, Isabel Hernandes. A instituição administraria as chamadas “Casas Clô”, um projeto antigo, conhecido dos amigos.

 

“A casa do Clô, na cabeça dele, uma vez ele chegou até a fazer um desenho: era uma casa cor de rosa onde abrigaria meninas órfãs para dar uma educação básica. Desde aprender a pregar um botão, até ao estudo, o ensino, se possível, universitário”, disse a amiga e advogada de Clodovil, Maria Hebe Pereira de Queiroz.

 

Maria Hebe ficou incumbida no testamento de transformar esse sonho em realidade. Para isso, entretanto, terá de usar o dinheiro de ações que um dia ele ainda pode ganhar na Justiça.

Casa em Ubatuba

No litoral norte de São Paulo, em Ubatuba, Clodovil deixou uma casa onde costumava passar o fim de semana com os amigos, uma rotina que se repetiu nos últimos 30 anos.

 

No meio da Mata Atlântica, a casa está numa área onde Clodovil comprou apenas a permissão de uso.

 

Cada ambiente tem o dedo do estilista. No quarto, o limite é o mar. Clodovil pensou em cada detalhe. Até o lustre foi ele quem confeccionou. Mas tudo isso tem um alto custo.

 

Antes de cumprir sua principal missão deixada por Clodovil, Maria Hebe terá outros desafios, como pagar os cinco funcionários que cuidam da casa.

 

“É uma responsabilidade que eu ando até sem dormir. Como eu vou controlar tudo isso, sem ter verba para isso?”, questiona Maria Hebe.

Situação financeira

Maria Hebe conta que Clodovil, acostumado com o luxo, sempre gastou muito e nunca pensou em fazer economia: “Ele dizia: ‘o que eu ganhar é para gastar e era assim que funcionava a cabeça dele'”.

 

A amiga e advogada avalia que a eleição para deputado foi sua salvação financeira. “Sem dúvida. O Clodovil estava muito mal de vida”, afirmou. E assim, de estilista e apresentador de TV, Clodovil acabou virando parlamentar. Ele foi eleito o terceiro deputado mais votado do estado de São Paulo.

Quando assumiu, em 2007, Clodovil prometeu que Brasília nunca mais seria a mesma depois de sua passagem por lá. E sua primeira marca foi o gabinete.

 

“Ele quis dar muita brasilidade ao gabinete. Tudo muito verde e amarelo”, afirmou a assessora de imprensa de Clodovil, Berta Pellegrino.

 

Nas almofadas, o brasão da República, fotos e pinturas, algumas assinadas por ele próprio. Um painel com frutas e aves brasileiras dava um toque especial na parede do gabinete.

 

Até os seus desafetos estavam lá em forma de decoração. Com Marta Suplicy ele se desentendeu quando ela era prefeita de São Paulo. No Congresso, a briga foi com a deputada Cidinha Diogo.

Apartamento

Mas Clodovil Hernandes também fez amigos em Brasília. Depois de um ano vivendo em um quarto de hotel, Clodovil decidiu se mudar. Foi em um apartamento que ele passou seus últimos cinco meses de vida.

 

Pela primeira vez as portas foram abertas para uma filmagem. O deputado transformou o apartamento funcional da Câmara em um espaço personalizado. Trouxe seus móveis, algumas plantas, e foi na política que Clodovil começou a aprender a arte de ser político.

 

“Ele recebia pequenos grupos de parlamentares, ministros”, disse o chefe de gabinete de Clodovil, Maurício Petiz.

 

O deputado tinha um jantar programado para o dia em que morreu. Ele receberia o presidente da Câmara, Michel Temer. Alberto e Renata prepararam tudo junto com Clodovil. Cada quitute que seria servido naquela noite. Alberto foi quem encontrou Clodovil no quarto depois de sofrer o derrame.

 

Enquanto nossa equipe estava no apartamento, uma surpresa. A Polícia Legislativa da Câmara chegou. Foi um chamado de emergência. Pegou até mesmo o diretor de segurança desprevenido. O apartamento teve de ser desocupado depois de uma explicação não muito clara.

Herança

O fato é que Clodovil Hernandes não deixou herdeiros. Por enquanto, a Câmara é que vai guardar os bens do deputado. Uma dúvida de muita gente é se Clodovil não tinha mesmo nenhum parente. Sua assessora disse que, por telefone, ninguém apareceu até o momento.

 

“Acredito que tenha ligado na preocupação da herança dele. No entanto levou um susto com as dívidas e rapidamente desapareceu”, disse ela.

 

Se na família ninguém se pronuncia, entre os amigos há quase briga para saber quem vai ficar com os cachorros. Clodovil conquistou pessoas leais, funcionários que são fiéis escudeiros. No dia em que morreu, a casa de Ubatuba foi preparada do jeito que ele sempre gostou.

Busca pela paz

Clodovil tinha apenas um medo quando o assunto era morte. Medo de não encontrar a mãe no universo.

 

 

G1

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