A Paraíba o tempo todo  |

O vale tudo da desonestidade intelectual

O que mais me incomoda no bolsonarismo não é a existência de uma direita que pensa diferente, defende outras ideias e disputa legitimamente o poder. A democracia pressupõe divergências, debates e alternância de governo. Não teria problema algum em ver a direita vencer uma eleição, desde que essa vitória fosse construída com propostas, argumentos e respeito à inteligência dos eleitores. O que me incomoda é outra coisa: a transformação da mentira, da manipulação e da desonestidade intelectual em instrumentos de disputa política.

O caso divulgado pelo g1, na checagem Fato ou Fake de 12 de outubro de 2026, é mais um exemplo preocupante dessa prática. Um vídeo de uma jovem aparentemente inalando um pó branco foi associado a uma manifestação pró-Lula na Avenida Paulista.

A publicação, porém, é falsa: o conteúdo já circulava nas redes sociais antes da realização do ato, sem que fosse possível determinar onde e quando as imagens foram gravadas, quem era a mulher ou qual substância aparecia no vídeo. Ainda assim, houve quem tentasse vincular aquelas imagens à manifestação para produzir uma associação negativa com seus participantes.

Percebam a gravidade disso. Não estamos falando simplesmente de alguém que compartilhou uma informação equivocada e depois corrigiu o erro. Estamos falando de um conteúdo cuja origem e circunstâncias são desconhecidas, mas que foi utilizado para construir uma narrativa política. Primeiro, apresenta-se uma imagem capaz de provocar repulsa ou indignação; depois, acrescenta-se a ela uma legenda que sugere uma conclusão conveniente. O público reage antes de verificar. A mentira cumpre seu papel mesmo quando, mais tarde, é desmentida.

E não é a primeira vez que vemos esse tipo de expediente. Basta recordar a polêmica em torno do exame de próstata, explorada politicamente por meio de interpretações e narrativas que merecem ser examinadas com cuidado. Ou lembrar o recorte de uma fala de Lula sobre os pobres e o trabalho, divulgado fora de contexto para transmitir a ideia de que ele teria afirmado que o pobre só serve para trabalhar. Há inúmeros outros episódios em que falas, imagens e acontecimentos são retirados de suas circunstâncias originais para alimentar uma interpretação previamente escolhida.

É justamente aí que entra a desonestidade intelectual: não necessariamente inventar tudo do zero, mas selecionar um pedaço da realidade, esconder o que lhe dá sentido e apresentá-lo de maneira a induzir as pessoas ao erro. Uma frase verdadeira pode se transformar em instrumento de mentira quando é retirada de contexto. Uma imagem real pode servir para sustentar uma acusação falsa quando é associada a um acontecimento com o qual não tem relação comprovada.

Isso não significa que toda crítica a Lula seja falsa, que toda denúncia contra a esquerda seja ilegítima ou que a direita tenha o monopólio da desinformação. Seria intelectualmente desonesto afirmar isso também. Políticos de qualquer campo devem ser cobrados, investigados e criticados. Mas existe uma diferença fundamental entre apontar fatos inconvenientes e fabricar associações para destruir reputações. A primeira atitude faz parte da democracia; a segunda corrói suas bases.

Agora, imagine se isso acontecesse com um de nós, alguns que sequer tem dinheiro para pagar um advogado para se defender.

Imagine acordar numa manhã qualquer e descobrir que um vídeo seu está circulando nas redes sociais, acompanhado de uma legenda mentirosa. Que pessoas que nunca o conheceram estão julgando seu caráter, sua conduta e sua história a partir de alguns segundos de imagens. Que seu nome está sendo associado a algo que você não fez, ou que uma frase sua foi recortada de tal maneira que passou a significar exatamente o contrário do que pretendia dizer.

Imagine tentar explicar, apresentar provas, contextualizar os fatos e pedir que as pessoas esperem antes de condená-lo. Enquanto isso, milhares já compartilharam o conteúdo. Outros tantos já formaram uma opinião. E muitos daqueles que receberam a mentira jamais terão contato com a correção.

O que acontece com a sua reputação? Quem vai reparar o dano? Quantas pessoas precisarão ler o desmentido para compensar aquelas que acreditaram na acusação? E, mesmo que a verdade apareça, será que todos os que acreditaram na mentira terão a mesma disposição para reconhecê-la e compartilhá-la?

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas partidária e se torna profundamente humana. A reputação de uma pessoa é construída ao longo de anos, por meio do trabalho, das relações, das escolhas e da convivência com os outros. Mas pode ser atacada em poucas horas. Uma mentira pode colocar em dúvida uma trajetória inteira, comprometer relações profissionais, abalar famílias e fazer com que alguém passe a ser visto por aquilo que nunca foi.

Na política, infelizmente, há quem pareça acreditar que se pode nascer e morrer várias vezes. Um adversário é transformado em herói, depois em inimigo; uma narrativa é criada, substituída por outra e, se necessário, abandonada quando deixa de ser útil. A disputa política tem seus próprios ciclos, e os personagens públicos frequentemente tentam se reinventar depois de cada crise.

Na vida cotidiana, porém, as consequências não funcionam assim. Uma pessoa comum não dispõe necessariamente de assessoria de imprensa, espaço nos grandes veículos, milhares de seguidores ou recursos para combater uma acusação viral. Não tem a mesma capacidade de fazer sua versão chegar a todos os que ouviram a mentira. Muitas vezes, o estrago permanece mesmo depois que os fatos são esclarecidos. A suspeita fica, o constrangimento permanece e a reputação nunca volta exatamente ao que era.

Por isso, é tão perigoso banalizar a mentira como estratégia política. Quem compartilha uma falsidade para prejudicar um adversário pode achar que está apenas participando de uma disputa ideológica. Mas está ajudando a normalizar um comportamento que, amanhã, poderá atingir qualquer pessoa: um professor, um servidor público, um comerciante, um profissional de saúde, um vizinho ou alguém da própria família.

E há uma contradição moral difícil de ignorar: muitos daqueles que exigem respeito, honra e reconhecimento para si mesmos não demonstram a mesma preocupação quando a dignidade atacada pertence ao adversário. A mentira parece aceitável quando favorece o próprio lado. A indignação só aparece quando a vítima é alguém de quem gostamos. É assim que a ética se torna seletiva e a verdade passa a ser tratada como uma questão de conveniência.

Não precisamos concordar com Lula para considerar inaceitável a divulgação de um vídeo falso associado a uma manifestação em seu apoio. Não precisamos ser de esquerda para reconhecer que adversários políticos também têm direito à verdade. Da mesma forma, não precisamos ser de direita para exigir que acusações contra seus representantes sejam sustentadas por fatos, e não por montagens, recortes maliciosos ou insinuações.

A pergunta que deveria orientar qualquer pessoa antes de compartilhar um conteúdo político é simples: eu divulgaria isso se a pessoa retratada fosse alguém de quem gosto, alguém da minha família ou eu mesmo? Se a resposta for não, talvez seja hora de rever os critérios com que julgamos os outros.

O debate democrático precisa de crítica, confronto de ideias e fiscalização permanente do poder. Não precisa de mentiras fabricadas para humilhar pessoas, destruir reputações ou mobilizar eleitores pelo ressentimento. Uma oposição forte não é aquela que consegue fazer o adversário parecer pior a qualquer custo, mas aquela que consegue demonstrar, com fatos e argumentos, por que suas ideias são melhores.

No fim, o problema não é simplesmente a existência de uma mentira nas redes sociais. O problema é a disposição de produzi-la, explorá-la ou compartilhá-la mesmo quando não há compromisso com sua veracidade. É aceitar que os fins justificam os meios, desde que o alvo seja o adversário.

A desonestidade intelectual não prejudica apenas quem é vítima de uma falsidade. Ela degrada o debate público, destrói a confiança entre as pessoas e nos empurra para uma sociedade em que ninguém acredita em ninguém, todos suspeitam de todos e os fatos perdem espaço para as narrativas mais convenientes.

A política passa. Os governos mudam. Os candidatos vencem, perdem, retornam e, às vezes, desaparecem do cenário público. Mas as pessoas continuam vivendo suas vidas, trabalhando, criando seus filhos e tentando preservar aquilo que levaram anos para construir.

Maquiavel compreendeu como poucos a força das aparências na política. O problema começa quando a construção de uma imagem passa a depender da destruição da reputação alheia e quando a mentira se torna um instrumento para conquistar apoio. Afinal, vencer uma disputa política não deveria significar perder qualquer compromisso com a verdade. Porque, no jogo do poder, os adversários podem se recuperar. Na vida real, porém, quem tem a reputação destruída por uma mentira talvez nunca consiga reconstruí-la por completo.

E uma sociedade que aceita isso como normal não está apenas perdendo o compromisso com a verdade. Está perdendo, também, o compromisso com a humanidade.

EM TEMPO

Segundo TMC, três países, três narrativas falsas

O rastreamento das imagens evidencia a reutilização do mesmo vídeo para disseminar acusações políticas diferentes. A tática consiste em descontextualizar imagens, atribuir vínculos políticos sem provas e provocar indignação.

O material foi utilizado em três frentes para desacreditar oponentes políticos:

  • Argentina: uma postagem em 10 de outubro associou o vídeo a pautas e jargões políticos locais.
  • Chile: em 11 de outubro, às 14h32, outra conta utilizou as mesmas imagens para acusar a mulher de ser militante da Frente Ampla. O perfil afirmou que ela participava de uma marcha pela Palestina e chegou a atribuir-lhe uma identidade sem apresentar provas.
  • Brasil: na noite de 11 de outubro, às 21h, uma conta brasileira divulgou a gravação com um carimbo do PT, afirmando que o vídeo havia sido feito na Avenida Paulista. A partir daí, milhares de eleitores pró-Bolsonaro compartilharam a alegação.

Ainda é necessário investigar se o caso representa publicações isoladas ou uma estratégia coordenada de desinformação para influenciar votações.


    VEJA TAMBÉM

    Comunicar Erros!

    Preencha o formulário para comunicar à Redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta matéria do PBAgora.

      Total
      0
      Compartilhe