Há uma ansiedade que parece ter tomado conta de parte da imprensa, sobretudo na Paraíba: a necessidade de chegar primeiro, publicar primeiro, anunciar primeiro, ostentar o “exclusivo” antes que qualquer outro veículo o faça.
É compreensível. O furo sempre fez parte do jornalismo. Descobrir antes, revelar uma informação de interesse público e oferecer ao leitor aquilo que ainda não foi publicado é, sim, uma das grandes virtudes da profissão.
Mas o jornalismo não vive apenas de furos.
O jornalismo vive, sobretudo, de informação.
E informação não é sinônimo de especulação.
Tenho acompanhado, com uma certa tristeza, a velocidade com que algumas notícias são transformadas em verdades antes mesmo de serem confirmadas por quem efetivamente tem autoridade para confirmá-las. É uma corrida contra o relógio em que, algumas vezes, a apuração parece ficar em segundo plano.
E isso é perigoso.
Aqui, já tivemos episódios que deveriam servir de alerta. Houve o caso de Arthur Cunha Lima, quando uma informação equivocada sobre sua morte chegou a ser anunciada publicamente antes de a própria família confirmar — e, ao contrário, a família precisou desmentir a notícia. O próprio TCE-PB posteriormente reconheceu o erro e pediu desculpas pela divulgação sem a devida verificação.
Em casos assim, não se trata apenas de “errar uma notícia”.
Quando alguém é declarado morto antes da hora, a imprensa não está apenas errando um dado. Está interferindo na vida de uma família, de amigos, de instituições e de toda uma sociedade.
É como se o jornalista, na ânsia de ser o primeiro, chegasse antes da própria realidade. Isso aconteceu em 2022 quando o próprio Aguinaldo Ribeiro (PP) já era dado como candidato ao Senado e ao final ele lançou Lucas Ribeiro (PP) para vice, mudando toda a informação ‘exclusiva’ que já era dada como certa.
E algo parecido volta a acontecer agora na política paraibana.
A escolha do vice de Lucas Ribeiro virou uma espécie de novela jornalística. Um dia surge um “exclusivo” apontando determinado nome. Depois, outro nome aparece como praticamente definido. Em seguida, vem uma nova informação, também apresentada como definitiva. Eduardo Carneiro chegou a ser apontado como escolhido; agora, a coronel Viviane Vieira aparece novamente como a escolhida.
E talvez, quando este artigo estiver sendo lido, tudo já tenha mudado outra vez.
Porque o jogo só termina quando acaba.
E é justamente aí que deveria entrar a prudência jornalística.
Uma coisa é informar: “segundo fontes ouvidas pelo portal, o nome mais cotado é este”.
Outra, completamente diferente, é transformar uma informação de bastidor em sentença definitiva.
“É o escolhido.”
“Está confirmado.”
“Exclusivo.”
São palavras fortes. E palavras fortes exigem apuração forte.
O jornalismo não pode se tornar uma competição de quem publica primeiro uma possibilidade. Precisa continuar sendo uma atividade de quem apura melhor aquilo que publica.
Mário Erbolato, um dos grandes estudiosos do jornalismo brasileiro, dedicou atenção justamente aos critérios da notícia, à captação da informação e aos cuidados necessários para transformá-la em conteúdo jornalístico. Em seus estudos sobre notícia, aparece uma ideia que continua absolutamente atual: aquilo que pode ser um grande fato jornalístico em determinado momento pode perder importância depois.
Isso nos leva a uma pergunta simples: qual é o sentido de ganhar um minuto e perder a credibilidade?
Um “furo” que se confirma é jornalismo.
Um “furo” que precisa ser desmentido pode virar apenas precipitação.
E existe uma diferença enorme entre ser o primeiro a informar e ser o primeiro a errar.
Não estou defendendo uma imprensa lenta, acomodada ou que espere o comunicado oficial para tudo. Muito pelo contrário. Jornalismo também é antecipação, investigação, busca por fontes, bastidores, documentos e informações que ainda não foram oficialmente divulgadas.
O bom repórter muitas vezes sabe antes.
O problema começa quando saber antes significa publicar antes de ter certeza.
O jornalista precisa ter fontes, mas também precisa ter método. Precisa ouvir mais de um lado. Precisa desconfiar da própria informação. Precisa fazer a pergunta incômoda: “E se não for verdade?”
Essa pergunta pode evitar uma manchete errada.
E pode preservar uma reputação.
Há uma frase atribuída a Enéas Carneiro que deveria estar permanentemente afixada nas redações: “A caneta de um mau jornalista pode fazer tanto dano quanto o bisturi de um mau médico.”
A frase é dura, mas a responsabilidade do jornalismo também é.
Uma informação errada sobre uma morte pode causar sofrimento. Uma informação errada sobre uma escolha política pode provocar crises, desmentidos, constrangimentos e até alterar a percepção pública sobre pessoas e grupos.
Hoje, a velocidade das redes sociais tornou tudo ainda mais delicado.
O leitor quer saber imediatamente. O clique vale dinheiro. O algoritmo premia o que chama atenção. O concorrente publicou? É preciso publicar também. O outro colocou “exclusivo”? O nosso precisa colocar “exclusivo” em letras ainda maiores.
E assim nasce uma espécie de ansiedade jornalística.
A notícia deixa de ser apenas uma informação a ser apurada e passa a ser uma corrida.
Mas jornalismo não deveria ser corrida de 100 metros.
Deveria ser, antes de tudo, compromisso com a verdade possível, com a apuração e com o interesse público.
Pierre Lévy, ao refletir sobre a comunicação em rede, chamou atenção para a transformação provocada pelas novas tecnologias e para a possibilidade de ampliar a inteligência coletiva por meio da circulação de informações.
A tecnologia nos deu velocidade.
Não deveria nos tirar o juízo.
Talvez o maior desafio do jornalismo contemporâneo seja justamente esse: como ser rápido sem ser irresponsável?
Como publicar antes sem publicar qualquer coisa?
Como conquistar o furo sem transformar a apuração em detalhe secundário?
Não tenho nada contra o “exclusivo”. Pelo contrário. Admiro o jornalista que trabalha, investiga, conversa com fontes, cruza informações e consegue descobrir aquilo que ninguém descobriu.
O furo é uma conquista.
Mas a confirmação é uma obrigação.
Entre uma coisa e outra está a essência da profissão.
Por isso, diante de mais uma sucessão de “escolhidos” para a vice de Lucas Ribeiro, talvez seja prudente lembrar uma velha lição da política e da vida: enquanto não houver anúncio definitivo, tudo pode mudar.
E, para o jornalismo, deveria valer uma lição ainda mais simples: antes de ser o primeiro, é preciso ser certo.
Porque o leitor não precisa de um veículo que apenas chegue primeiro.
Precisa de um veículo em que possa confiar.
No fim das contas, o jornalismo não existe para dizer “eu fui o primeiro”.
Existe para poder dizer:
“Eu apurei. Eu confirmei. Eu informei.”
E isso, talvez, seja muito mais importante do que qualquer selo de “exclusivo”.
