Desde que os caminhos de José Maranhão e Ricardo Coutinho se cruzaram, há alguns anos, o destino de ambos parecia já ter sido desenhado: poderiam até marchar lado a lado, por conveniências políticas, mas definitivamente jamais cumpririam seus karmas sob a orientação da mesma cartilha política de princípios e procedimentos. Entre eles apenas um grande ponto em comum: um profundo abismo, que nas circunstâncias atuais evidencia-se como uma incômoda constatação. São mutuamente excludentes, poder-se-ia dizer, sem  qualquer exagero.

Abismo parece mesmo ser a palavra mais objetiva para definir a distância estabelecida entre o atual governador do Estado e o prefeito da Capital. Na verdade, são duas almas bem parecidas em certos aspectos (centralizadores e ávidos pelo controle absoluto de seus governos), mas completamente diferentes, de mundos e valores distintos, que não se comportam dentro do mesmo espaço e o máximo esforço que fazem, como concessão mútua, é se tolerarem como duas inevitáveis face da mesma moeda na política paraibana atual.

Relativamente jovem e com uma biografia invejável a destacar sempre uma ascendência em seus eventuais encontros com as urnas, Ricardo Coutinho tem no momento uma ambição pública, uma verdadeira fixação: eleger-se governador do Estado, em 2010. Estabelecida essa prioridade dentro de seu projeto político-pessoal, o prefeito terminou por comprar uma briga com os planos do velho cacique do PMDB, que turbinou suas próprias ambições com uma dádiva perseguida desde o primeiro dia de governo de Cássio Cunha Lima, em 2003: voltou ao Palácio da Redenção, espaço de poder do qual ele se considera “dono”.

Revigorado com a vitória patrocinada pelo Tribunal Superior Eleitoral, no último dia 17, o governador José Maranhão parece ter até esquecido no últimos dias as diferenças com seu arquirrival Cássio Cunha Lima e passou a centrar fogo nos projetos de poder do prefeito Ricardo – potencialmente, o maior concorrente à sua permanência na Praça dos Três Poderes, caso não se confirme a possibilidade do próprio Cássio poder se candidatar ao Governo do Estado m 2010.

Pensado bem, não é pra menos. Bem avaliado em sua gestão, com pouca rejeição e precisando apenas “estadualizar” o próprio nome, Ricardo Coutinho sente-se pronto para concorrer ao Governo do Estado, com as credenciais de uma carreira política forjada nas lutas populares, em mandatos produtivos nos poderes legislativos municipal e estadual, uma reeleição bem sucedida e, principalmente, com uma imagem de “novo” no processo sucessório da Paraíba. Quebrou uma rotina eleitoral das últimas décadas em que apenas os representantes dos grande grupos políticos têm o direito de sentar na principal poltrona do “Redenção”.

Exatamente o oposto, José Maranhão ressurge com força no cenário sucessório, embalado pelas bênçãos do TSE, mas corre o risco de ser atropelado pelos próprios “defeitos”. Representa o conservadorismo da política paraibana, com um jeitão mal disfarçado do coronel que não se reciclou e um apego ao poder pelo poder; entende a atividade pública uma forma como se impor diante dos adversários, não como uma missão de servir ao povo; imagina-se sublime diante dos que dependem de sua caneta e tem ojeriza a qualquer iniciativa que signifique ameaça ao seu padrão de governar, principalmente se isso significar esvaziar sua autonomia.

Tudo isso está por trás dessa última briga provocada pela manobra do governador, tentando atingir o prefeito da Capital, ao movimentar pedras para que o deputado Guilherme Almeida (PSB) assumisse a Secretaria de Interiorização, promovendo ao mesmo tempo a ascensão da suplente Nadja Palitot – arquiadversária de Ricardo Coutinho a uma cadeira na Assembléia Legislativa. Coutinho reagiu com agressividade nos bastidores e, como uma trégua pouco convincente, Maranhão recuou e “desconvidou” Almeida.

Não vai demorar a haver o próximo embate, é só uma questão de tempo. O abismo entre essas duas forças antagônicas aumenta a cada dia em que 2010 é algo além de um ano a mais no calendário das eleições e das vaidades.

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