Vocês já ouviram aquela frase atribuída a Garrincha, antes do jogo contra a União Soviética na Copa de 1958? Depois de ouvir as orientações táticas de Vicente Feola, ele teria perguntado: “Tá legal, seu Feola, mas já combinaram com os russos?”
A história nunca foi comprovada, mas a frase ficou porque traduz uma sabedoria simples: nem sempre a realidade obedece ao planejamento.
Lembrei dela ao observar as mobilizações que vêm acontecendo em meio à polarização das eleições presidenciais. Há quem pareça convencido de que a história já está decidida, de que basta esperar para ver confirmadas suas previsões. Mas a política, assim como o futebol, costuma surpreender quem se antecipa demais ao resultado.
A frase “combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer” expressa bem esse espírito de resistência. As mobilizações mostram que nem tudo acontece conforme o roteiro imaginado por quem subestima a capacidade de reação dos outros.
Maquiavel, em O Príncipe, lembra que a fortuna — aquilo que escapa ao nosso controle — influencia os acontecimentos, mas não determina tudo. Há também espaço para a ação humana, para a iniciativa e para a capacidade de enfrentar circunstâncias adversas.
Até o mito do Zero Killed — a explicação popular para a origem da expressão OK — serve aqui como provocação: há quem queira contabilizar as baixas antes mesmo do fim da batalha.
A história política está cheia de previsões que não se confirmaram. Por isso, convém não confundir expectativa com realidade, nem tratar como definitivo um resultado que ainda está em disputa.
Como escreveu Karl Marx, “os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem”. Talvez seja justamente esse o problema de quem acredita que já decidiu o resultado antes do fim do jogo.
No fim, o questionamento de Garrincha segue atual: já combinaram com os russos?
