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Entre a ilusão e o autoritarismo: quando a pós-verdade anestesia a sociedade

Há algo silencioso — e profundamente perigoso — acontecendo diante dos nossos olhos. Não se trata de tanques nas ruas ou de golpes clássicos, como os que marcaram o século passado. O que se vê hoje é mais sutil: a erosão da democracia por dentro, muitas vezes com o aplauso de quem será diretamente afetado por ela.

Como alertam Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, no livro Como as Democracias Morrem, o maior risco contemporâneo não é o rompimento abrupto da ordem democrática, mas sua corrosão gradual, conduzida por líderes eleitos e legitimada por parcelas da população.

E é aí que a falta de consciência de classe desempenha um papel decisivo. Pessoas que dependem diretamente de políticas públicas, de direitos trabalhistas e de estruturas sociais mínimas acabam aderindo — muitas vezes sem perceber — a discursos que, na prática, enfraquecem exatamente esses mecanismos. É como se votassem contra si mesmas, convencidas de que estão defendendo justiça, ordem ou moralidade.

A internet potencializou esse fenômeno. Nunca foi tão fácil consumir informações — e nunca foi tão difícil distinguir o que é fato do que é narrativa. Discursos prontos, simplificados e emocionalmente carregados circulam com velocidade impressionante. São ideias “mastigadas”, desenhadas para provocar reação imediata, não reflexão. Nesse ambiente, prospera a chamada pós-verdade: quando a emoção pesa mais que os fatos, e a crença pessoal se sobrepõe à realidade.

O problema é que esse tipo de discurso raramente se apresenta como autoritário. Pelo contrário: ele costuma vir disfarçado de justiça, combate à corrupção ou defesa de valores. Mas, por trás dessa aparência, pode esconder propostas que fragilizam instituições, desacreditam a imprensa e reduzem o espaço do contraditório — pilares essenciais de qualquer democracia.

Talvez o aspecto mais preocupante seja justamente esse: nem mesmo aqueles que serão prejudicados por essas mudanças percebem o risco. A adesão não acontece pela força, mas pela identificação emocional. Compra-se um discurso como se compra um produto — sem analisar sua composição, seus efeitos colaterais ou suas consequências a longo prazo.

A história já mostrou que a democracia não morre apenas pela imposição de poucos, mas também pela omissão — ou pelo engano — de muitos. Quando a crítica dá lugar à repetição, quando o debate é substituído por slogans e quando o pensamento é terceirizado, abre-se espaço para que o autoritarismo avance sem resistência.

Mais do que nunca, é preciso recuperar a capacidade de questionar, de duvidar e de compreender os próprios interesses. Consciência de classe não é um conceito ultrapassado — é uma ferramenta de sobrevivência democrática. Sem ela, continuaremos assistindo a um fenômeno inquietante: pessoas defendendo, com convicção, aquilo que mais cedo ou mais tarde irá prejudicá-las.

E talvez Nicolau Maquiavel já tivesse antecipado esse cenário em O Príncipe, ao observar que, na política, “os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, porque todos podem ver, mas poucos podem sentir”.

Em tempos de pós-verdade, ver — ou acreditar que se vê — tem sido suficiente. O problema é quando deixamos de sentir, compreender e questionar.



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