A Paraíba o tempo todo  |

A sociedade do grito: quando a verdade deixa de importar

Vivemos uma época estranha. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil estabelecer uma conversa baseada em fatos, racionalidade e compreensão mútua. O problema já não é apenas a divergência de opiniões — algo natural e até saudável em qualquer sociedade livre. O problema é mais profundo: estamos perdendo a capacidade de compartilhar uma realidade comum.

Hoje, muitos não querem compreender; querem vencer. Não querem refletir; querem confirmar aquilo que já acreditam. A leitura paciente foi substituída pelo consumo instantâneo de frases curtas, vídeos rápidos e slogans emocionais. A dúvida, que deveria ser sinal de inteligência e prudência, passou a ser vista como fraqueza. Em seu lugar, prospera a certeza absoluta, mesmo quando construída sobre boatos, distorções ou absurdos evidentes.

A chamada “pós-verdade” não significa apenas a circulação de mentiras. Ela representa algo mais perigoso: a transformação da verdade em questão de preferência pessoal. O fato deixa de ter importância objetiva e passa a valer apenas se estiver alinhado à identidade emocional, política ou ideológica de cada grupo. Assim, cria-se um mundo em que evidências científicas, dados concretos e análises sérias perdem espaço para o “eu acredito”, “eu sinto”, “me disseram” ou “vi num vídeo”.

O resultado é uma sociedade emocionalmente fragmentada. Pessoas deixam de discutir ideias para defender tribos. O outro já não é alguém com quem se pode dialogar, mas um inimigo moral a ser derrotado. Redes sociais, algoritmos e plataformas digitais aprofundam esse processo ao recompensarem indignação, simplificação e conflito. Quanto mais extrema a mensagem, maior seu alcance. Quanto mais agressiva a opinião, maior a visibilidade.

Nesse ambiente, a leitura profunda perde terreno. Ler exige tempo, silêncio, concentração e disposição para confrontar complexidades. Já a lógica digital favorece impulsos rápidos e respostas automáticas. O pensamento crítico vai sendo substituído pela reação instantânea. E uma sociedade que abandona a leitura abandona, pouco a pouco, a própria capacidade de pensar com profundidade.

Talvez por isso vejamos tantas pessoas acreditando em teorias absurdas, práticas perigosas e narrativas delirantes. Não se trata apenas de ignorância. Muitas vezes, essas crenças oferecem algo emocionalmente poderoso: pertencimento, identidade, sensação de controle e conforto psicológico em meio ao caos. A mentira confortável torna-se mais atraente que a verdade difícil.

Há nisso uma dimensão quase espiritual. A metáfora bíblica dos quarenta anos no deserto ajuda a compreender esse momento histórico. Na narrativa do povo hebreu, o deserto não era apenas punição; era um processo de transformação. Uma geração marcada pela mentalidade da escravidão não conseguiria construir imediatamente uma nova terra. Era necessário atravessar um tempo de crise, purificação e amadurecimento coletivo.

Talvez estejamos vivendo algo semelhante. Um período em que a sociedade, embriagada por excesso de informação, velocidade e superficialidade, precise reaprender valores básicos: escuta, civilidade, humildade intelectual e responsabilidade coletiva. Nenhuma civilização se sustenta apenas com tecnologia e consumo. Ela depende de confiança social, respeito mútuo e compromisso com alguma noção compartilhada de verdade.

Isso não significa idealizar o passado. O ser humano sempre foi vulnerável à manipulação, ao fanatismo e ao pensamento tribal. A diferença é que hoje essas fragilidades são amplificadas por ferramentas tecnológicas capazes de atingir bilhões de pessoas em segundos. Nunca foi tão fácil espalhar medo, raiva e desinformação.

Ainda assim, desistir não é opção. A saída talvez não venha de grandes discursos ou debates virtuais intermináveis, mas de pequenos movimentos culturais e humanos: incentivar a leitura, valorizar a educação crítica, reconstruir comunidades reais, cultivar conversas honestas e reaprender a ouvir antes de reagir. A civilidade não será restaurada pela humilhação do outro, mas pela recuperação da capacidade de enxergar humanidade mesmo em quem pensa diferente.

O maior risco do nosso tempo talvez não seja a ignorância, mas a arrogância coletiva de acreditar que não precisamos mais aprender. Quando uma sociedade perde a disposição de buscar a verdade e passa a tratar toda opinião como equivalente aos fatos, ela começa lentamente a caminhar no escuro.

E nenhuma sociedade permanece muito tempo de pé no escuro.

Talvez o maior perigo do nosso tempo não seja a mentira espalhada pelos outros, mas a mentira que cada sociedade aprende a contar para si mesma. Como advertiu Dostoiévsk em “Os Irmãos Karamázov”i: “Acima de tudo, não minta para si mesmo.” Porque uma civilização que abandona a verdade talvez não perceba imediatamente sua decadência — mas inevitavelmente caminhará para ela.


    VEJA TAMBÉM

    Comunicar Erros!

    Preencha o formulário para comunicar à Redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta matéria do PBAgora.

      Utilizamos ferramentas e serviços de terceiros que utilizam cookies. Essas ferramentas nos ajudam a oferecer uma melhor experiência de navegação no site. Ao clicar no botão “PROSSEGUIR”, ou continuar a visualizar nosso site, você concorda com o uso de cookies em nosso site.
      Total
      0
      Compartilhe