A política vive de coerência. Ou, pelo menos, deveria viver. O problema surge quando um mesmo argumento muda de peso conforme a posição ocupada por quem o defende.
Nos últimos dias, o deputado Hervázio Bezerra tem defendido que o PSB seja coerente com relação a gestão do correligionoáro Léo Bezerra (PSB) em João Pessoa, sob o argumento de que o partido precisa demonstrar unidade. O discurso parte da ideia de que, por ser o nome do PSB, Léo deve, ou pelo menos deveria, receber o apoio da bancada socialista na Câmara de João Pessoa.
A tese parece razoável. Mas ela esbarra em uma pergunta inevitável: essa fidelidade vale para todos ou apenas em determinadas circunstâncias?
O próprio grupo político de Léo Bezerra admite discutir voto cruzado para o Senado e rejeitar o pré-candidato do PSB. Hervázio já declarou que a definição sobre esse apoio será tomada em conjunto com Léo, inclusive com a possibilidade de apoiar um nome que não pertence ao partido de Léo. Já o prefeito Léo Bezerra afirmou que a decisão sobre o segundo voto ao Senado será construída com aliados e não ficará restrita ao núcleo familiar ou partidário.
Se a lógica é permitir que cada grupo faça suas composições eleitorais conforme sua realidade política, por que essa mesma liberdade desaparece quando o assunto é a gestão municipal?
A política brasileira sempre conviveu com alianças heterogêneas. Partidos apoiam candidatos diferentes em municípios distintos, dividem palanques, fazem composições locais e, muitas vezes, convivem com o chamado voto cruzado. Isso nunca foi novidade.
O que causa estranheza é transformar essa flexibilidade em regra durante a campanha e exigir alinhamento absoluto quando chega a hora de definir um projeto majoritário.
Em outras palavras: se um partido pode divergir para escolher seus candidatos ao Senado, por que não poderia ter autonomia na hora de avaliar a gestão? Se a independência é legítima para compor alianças, por que deixa de ser aceitável quando o tema é governabilidade?
Não se trata de defender este ou aquele grupo político. Trata-se de cobrar coerência no discurso.
Fidelidade partidária não pode ser um argumento utilizado apenas quando favorece determinado projeto político. Ou ela é um princípio permanente, aplicado a todos os partidos e em todas as circunstâncias, ou passa a ser apenas uma justificativa conveniente para pressionar aliados.
No fim das contas, a pergunta permanece: na eleição, partidos e lideranças podem se dividir, apoiar candidatos diferentes e construir alianças distintas. Mas, na hora de governar, essa diversidade deixa de ser aceita? Se o voto pode ser cruzado nas urnas, por que a independência política não pode existir na gestão? Essa é a coerência que precisa ser explicada.
