Hoje, ao ouvir o comentário do jornalista Luís Torres, no programa Arapuan Verdade, me atentei para uma frase que resume bem o que parece ter acontecido nestas eleições: para ser eleito no campo bolsonarista, tem que vestir a camisa de força completa. E me dei conta de que foi exatamente isso que aconteceu aqui na Paraíba.
Não bastava ser de direita, defender pautas conservadoras ou se posicionar contra o governo Lula. Era preciso abraçar o pacote inteiro do bolsonarismo, sem ressalvas, sem ponderações e, sobretudo, sem demonstrar qualquer sinal de independência em relação ao movimento. Quanto mais incondicional a defesa, maior parecia ser a capacidade de mobilizar esse eleitorado.
O resultado foi que candidatos que, em outras circunstâncias, poderiam ser considerados azarões, sem grande protagonismo ou sem figurar entre os favoritos nas bolsas de apostas políticas, acabaram surpreendendo nas urnas. Não necessariamente por seus próprios voos, por uma trajetória política extraordinária ou por propostas capazes de diferenciá-los, mas porque conseguiram se apresentar como representantes fiéis de uma identidade política que continua mobilizando uma parcela expressiva do eleitorado.
Na Paraíba, a bancada do PL na Assembleia Legislativa parece ter entendido muito bem essa lógica. A legenda elegeu seis deputados, reunindo nomes com trajetórias distintas, de novatos como Nilvan Ferreira e Fábio Lopes a veteranos como Sargento Neto e Walber Virgolino. O que há de comum entre eles é a identificação com o bolsonarismo e a disposição de ocupar esse espaço político sem muitas concessões.
A camisa de força, nesse caso, não é apenas uma metáfora para o radicalismo do discurso. É também a representação de um comportamento eleitoral no qual a fidelidade cega ao grupo se sobrepõe à individualidade do candidato. O parlamentar não precisa, necessariamente, construir uma identidade própria para conquistar o eleitor bolsonarista. Precisa demonstrar que está do mesmo lado, que não vacila diante das controvérsias e que não abandonará o movimento quando surgirem dificuldades.
Na Câmara Federal, Cabo Gilberto Silva também se tornou uma expressão desse fenômeno na Paraíba. Ao alcançar a marca histórica de deputado federal mais votado do estado, consolidou sua posição como uma das principais lideranças do bolsonarismo paraibano. É evidente que sua votação não pode ser explicada por um único fator, mas seria ingênuo ignorar o peso de sua identificação com a família Bolsonaro e com as bandeiras defendidas por esse campo político.
O fenômeno se repete em outros estados. Em diferentes disputas, candidatos que abraçaram integralmente o discurso bolsonarista conseguiram transformar a fidelidade ideológica em capital eleitoral. Alguns chegaram às urnas sem o peso de grandes trajetórias, mas encontraram no alinhamento irrestrito com o movimento uma espécie de atalho para a competitividade.
Na outra ponta, há os que descobriram o preço de romper com o bolsonarismo. Julian Lemos, Joice Hasselmann e Otoni de Paula, embora tenham trajetórias e circunstâncias bastante diferentes, ajudam a ilustrar os dilemas de quem se distancia de um movimento político depois de ter construído parte de sua identidade pública dentro dele.
Quem rompe deixa de ser reconhecido por uma parcela do eleitorado que antes o considerava aliado. Passa a ser visto como traidor, alguém que abandonou a causa ou que não teve coragem de sustentar suas posições até o fim. E, quando tenta se aproximar do campo adversário, enfrenta outro obstáculo: a desconfiança de eleitores que não esquecem de onde veio nem o papel que desempenhou anteriormente.
É uma espécie de limbo político. O sujeito deixa de ser confiável para quem o acompanhava e nem sempre consegue conquistar a confiança de quem pretende alcançar. O eleitor pode até perdoar uma mudança de posição, mas não necessariamente acredita que ela seja sincera. Afinal, quem passou anos defendendo determinadas ideias não consegue simplesmente trocar de lado e esperar que todos considerem a mudança natural.
Isso não significa que todo político que rompe com Bolsonaro esteja condenado ao ostracismo, assim como não significa que toda vitória eleitoral seja resultado exclusivo da fidelidade ao ex-presidente. Há alianças, estruturas partidárias, recursos de campanha, características regionais e qualidades individuais que também pesam na decisão do eleitor. Mas existe um padrão que merece ser observado: dentro de determinados segmentos do bolsonarismo, a lealdade parece funcionar como um requisito de sobrevivência política.
E aqui está o ponto mais interessante dessa análise: o bolsonarismo não exige apenas concordância com algumas pautas. Em suas manifestações mais radicalizadas, exige pertencimento, demonstrações públicas de fidelidade e disposição para defender o grupo mesmo quando os fatos contrariam suas narrativas. As teorias da conspiração, os ataques às instituições e a desconfiança permanente em relação ao sistema político acabam funcionando como marcadores de identidade. Não se trata apenas de acreditar em determinadas ideias, mas de provar continuamente que se faz parte do grupo.
No campo bolsonarista, não basta vestir a camisa. É preciso vesti-la por inteiro, sem deixar aparecer qualquer parte do pensamento que possa ser interpretada como dissidência.
A pergunta que fica é até quando essa lógica será capaz de se sustentar e quais serão seus efeitos sobre a qualidade da representação política. Porque, se a camisa de força completa se tornou uniforme eleitoral, pensar por conta própria pode ser um risco, mudar de opinião pode custar a carreira e reconhecer o erro pode ser interpretado como deserção.
Porque, quando a camisa de força vira uniforme, a obediência pode render votos — mas a democracia perde espaço para o pensamento livre.
