Eu vi.
Eu me lembro.
Escrevo sobre Tarcísio de Miranda Burity não como mero observador distante da história, mas como alguém que viveu aquele tempo, acompanhou seus gestos, ouviu seus discursos e percebeu, ainda ali, que se tratava de um homem diferente no meio da política paraibana.
Burity governou a Paraíba por dois mandatos alternados: 1979–1982, por via indireta, e 1987–1991, pelo voto direto. Eu me lembro bem do ambiente político da época e posso afirmar: ele não se parecia com os demais. Era um gestor austero, intelectual, firme nos princípios e profundamente comprometido com o interesse público. Não buscava aplausos fáceis nem se rendia ao populismo.
Eu vi nele o jurista sério, o promotor de justiça respeitado, o professor universitário, o escritor e o homem público que levou para a política o rigor do Direito e a sensibilidade da cultura. Seu governo tinha método, planejamento e visão de futuro, qualidades que, mesmo naquele tempo, já começavam a rarear.
Lembro-me das estradas sendo abertas, das regiões sendo integradas. Foram mais de 1.500 quilômetros de rodovias, ligando o Estado de ponta a ponta. Vi nascerem e se consolidarem os terminais rodoviários de João Pessoa, Campina Grande, Guarabira, Patos e Cajazeiras. Acompanhei a ampliação do Porto de Cabedelo e o impacto do maior plano habitacional da história da Paraíba, com cerca de 50 mil casas, levando dignidade a milhares de famílias.
Recordo também uma iniciativa que marcou profundamente o cotidiano urbano: a SETUSA, concebida como um modelo de transporte coletivo mais confortável, organizado e com tarifa acessível. Os ônibus padronizados e mais modernos representaram, à época, um avanço real na mobilidade da população trabalhadora. Burity entendia que transporte público não é favor do Estado, mas instrumento de dignidade social e a SETUSA materializou essa visão.
Recordo que projetos como o Conjunto Residencial Mangabeira e o Valentina de Figueiredo foram concebidos em seu governo, mesmo que entregues depois. Obras estruturantes como o Espaço Cultural José Lins do Rego, o Hemocentro da Paraíba, o Hospital de Trauma de João Pessoa, o Mercado de Artesanato e o Centro Turístico trazem, até hoje, a marca de um governo que pensava o Estado para além do mandato.
Eu me lembro também de sua atenção à cultura. Burity entendia e isso sempre me marcou que desenvolvimento não se mede apenas por obras físicas, mas também pela valorização da identidade, da arte e da educação. Sua postura em relação à Orquestra Sinfônica da Paraíba é prova clara disso.
Na segurança pública, jamais esqueço a chamada “Manzuá”, as barreiras policiais nas rodovias. Um episódio, em especial, ficou gravado na memória coletiva e na minha: ao perceber que policiais deixaram de abordá-lo por reconhecê-lo como governador, Burity mandou o comboio retroceder e os confrontou. Disse, em essência: “E se eu estivesse sendo sequestrado?” Aquilo dizia tudo sobre o homem. Para ele, a lei era para todos.
Fluente em francês, inglês, espanhol e português, Burity era um intelectual de hábitos simples e postura altiva. Eu o vi passar pela política sem se confundir com ela, sem enriquecer, sem se deformar, sem perder a dignidade. Serviu ao poder, mas nunca foi escravo dele.
Nascido em 28 de novembro de 1938, em João Pessoa, faleceu em 8 de julho de 2003, aos 64 anos, em São Paulo. Sua trajetória política foi curta no tempo, mas profunda no impacto como acontece com os homens que deixam marcas verdadeiras.
Ao seu lado esteve sempre Glauce Maria Navarro Burity, professora universitária, historiadora e intelectual respeitada, nascida em 31 de maio de 1940, hoje com 85 anos. Mulher preparada, discreta e firme, preserva com dignidade o legado do esposo. Também ela faz parte dessa história que eu vi acontecer.
Por tudo isso, afirmo sem hesitação: Tarcísio de Miranda Burity foi madeira rara difícil de encontrar, resistente ao tempo e de valor inestimável.
E digo com convicção pessoal, não por retórica: foi o príncipe da política paraibana.
Elcio Nunes
Cidadão Paraibano
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