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Paisagista Bia Campelo transforma casarão centenário abandonado em fenômeno cultural e digital na Paraíba

Foto: Joyce Ferreira

A arquiteta paisagista Beatriz Campelo transformou as ruínas de uma mansão centenária, no bairro do Tambiá, em João Pessoa, no projeto cultural mais aguardado da Paraíba. A série “Comprei uma Casa Abandonada”, que documenta o processo de recuperação do imóvel, já ultrapassou 13 milhões de visualizações nas redes sociais, sem investimento em mídia paga, e despertou uma onda de comoção em torno da preservação do patrimônio histórico.

Foto: Joyce Ferreira

O imóvel em questão é o Casarão D’Ávila Lins, localizado na Rua Monsenhor Walfredo Leal. Construída em 1916, a mansão guarda traços marcantes do estilo eclético do início do século passado, com colunas neoclássicas, ornamentos de estuque e uma escadaria monumental em arco. Após mais de cinco décadas de abandono, a construção foi tomada pela vegetação, incluindo uma figueira centenária que cresceu para dentro da estrutura e passou a fazer parte da paisagem do casarão.

Foi nesse cenário, entre a imponência arquitetônica e o abandono, que Bia Campelo enxergou uma oportunidade de resgate. Com mais de 15 anos de atuação em projetos de alto padrão, a paisagista decidiu transformar o espaço na Casa Campelo de Cultura, preservando não apenas a estrutura histórica, mas também a força simbólica da natureza que resistiu ao tempo.

“Quando entrei, vi 110 anos de história intactos embaixo da vegetação. Não era uma ruína — era um patrimônio esperando por alguém com coragem suficiente para ouvi-lo”, afirmou Beatriz Campelo.

Mas antes que o projeto ganhasse forma e viralizasse nas redes sociais, uma etapa silenciosa e decisiva precisou ser vencida. Casarões centenários, especialmente os que permaneceram abandonados por décadas, costumam carregar entraves jurídicos, herdeiros espalhados, pendências documentais e restrições administrativas que impedem qualquer intervenção. No caso do Casarão D’Ávila Lins, essa frente foi conduzida pelo advogado Marcos Souto Maior Filho, marido de Beatriz e responsável pela regularização jurídica e comercial do projeto.

Foto: Joyce Ferreira

Segundo Marcos, o primeiro desafio foi localizar e negociar com os proprietários legítimos do imóvel, além de resolver pendências de titularidade e destravar embargos que impediam o início das obras. Sem essa etapa, o projeto sequer teria saído do papel.

“Acreditei nesse sonho antes de existir um projeto para mostrar. Meu trabalho foi encontrar os proprietários, resolver o que estava impedindo qualquer avanço e abrir o caminho legal para que a Bia pudesse, enfim, transformar aquelas ruínas em Casa Campelo de Cultura”, destacou Marcos Souto Maior Filho.

Um dos pontos mais marcantes da restauração foi a decisão de preservar a figueira centenária que havia ocupado parte do casarão. Em reformas convencionais, vegetações invasivas costumam ser removidas. Bia, no entanto, optou por integrar a árvore ao projeto arquitetônico. A escolha gerou um dos episódios mais comentados da série, com 782 mil visualizações, e se tornou símbolo da proposta: restaurar sem apagar as marcas do tempo.

A solução prevista para o espaço será inédita no Brasil. O projeto inclui um teto de vidro que permitirá ao visitante observar, de dentro do casarão restaurado, a copa da figueira centenária contra o céu de João Pessoa. Para Bia Campelo, a árvore deixou de ser um obstáculo e passou a ser a alma do projeto.

“Será a primeira casa do Brasil com uma árvore centenária integrada à arquitetura. O vidro não vai separar o visitante da natureza — vai apresentá-los um ao outro”, explicou a arquiteta paisagista.

O fenômeno digital em torno da série revela algo maior do que curiosidade por uma reforma. Nos comentários, seguidores relatam que assistiram aos episódios várias vezes, que se emocionaram com a história e que passaram a procurar casarões abandonados em suas próprias cidades. O primeiro episódio chegou a 3,5 milhões de visualizações, desempenho repetido pelo terceiro. Ao todo, os seis episódios já somam mais de 13 milhões de visualizações.

“A série não é sobre uma reforma. É sobre o que acontece quando alguém decide que o passado vale o presente”, resumiu Beatriz Campelo.

A história do Casarão D’Ávila Lins também reacende o debate sobre a preservação do patrimônio arquitetônico de João Pessoa. Uma das cidades mais antigas do Brasil, a Capital paraibana possui um Centro Histórico tombado pelo IPHAN desde 2007, com edificações que vão do barroco colonial ao art déco das primeiras décadas do século XX. O Tambiá, onde o casarão está localizado, integra essa memória urbana, embora muitos imóveis históricos ainda enfrentem abandono, deterioração e entraves para recuperação.

Imagem: reprodução

No caso do D’Ávila Lins, a restauração representa mais do que a recuperação de uma mansão centenária. O projeto simboliza a possibilidade de transformar abandono em cultura, ruína em memória viva e patrimônio privado em experiência coletiva. Entre a arquitetura, o direito, o paisagismo e a força das redes sociais, a Casa Campelo de Cultura começa a nascer como um dos projetos mais emblemáticos da Paraíba.

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