Sergio Moro concedeu uma entrevista coletiva nesta sexta-feira (24) e falou por cerca de 40 minutos, explicando sua trajetória pessoal, o abandono da magistratura, a aceitação do convite para fazer parte do governo do presidente Jair Bolsonaro até culminar com o pedido de demissão. Em sua fala, Moro deixou claro que o estopim para o pedido foi a exoneração do diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo, sem seu aval. Confira os principais trechos dessa entrevista.

“O que foi conversado no dia 1º de novembro (quando foi convidado a assumir o ministério) é que iriamos combater a corrupção, o crime organizado e a criminalidade violenta. Foi me prometida carta branca para nomear todos os assessores, inclusives de órgãos como a Polícia Federal”.

“Na ocasião, foi divulgado equivocadamente que eu teria pedido uma nomeação para o STF, nunca houve isso. A única condição que coloquei, é que estava abandonado a magistratura (22 anos), e perdia essa previdência. Pedi que se algo acontecesse, minha família não ficasse desamparada, sem pensão”.

“Procuramos fortalecer a PF e PRF, empregamos massivamente a força nacional em todo o território. É uma instituição que, ao meu ver, precisa ser fortalecida. Quero torná-la uma instituição prevista na constituição. Ela tem sido bem demandada e atendeu a diversas ocorrências nesse período”.

“Presidedente me disse mais de uma vez que queria ter uma pessoa do contato pessoal dele (na PF), que pudesse ligar, colher informações, relatórios de inteligência, seja o diretor ou superintendente, e realmente não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informações, elas devem ser preservadas”.

“O foco deveria ser o combate a pandemia (de coronavírus), mas entendi que não podia deixar de lado esse meu compromisso com o estado de direito. E com relação à publicação (da demissão de Valeixo) fiquei sabendo pelo Diário Oficial, na madrugada” (referindo-se ao fato de não ter sido cunsultado).

“Em todo esse período tive apoio do presidente Bolsonaro em alguns projetos, mas a partir do segundo semestre, passou a haver uma insistência para troca do comando da PF. Ele queria trocar o superintendente da PF no Rio de Janeiro, e não via nenhum motivo para essa troca. Ele queria sair do cargo por motivos pessoais. Trocamos por isso, com substituição técnica, indicada pela Polícia. Eu não indico superintendente. Única pessoa que indiquei foi o Maurício, o ex-diretor. E assim tem sido no ministério todo. Tenho dado autonomia aos subordinados para eles fazerem as melhores escolhas e que sejam técnicas”.

Quando assumi o Ministério da Justiça, havia rumores que a PRF tinham superintendências políticas. Escolhi o diretor geral e disse para escolher tecnicamente. Ele (Bolsonaro) disse que era inaceitável que não fossem políticas. Mas quando se preenche com partido, não é bom para nada”.

“O grande problema era a violação de uma promessa de carta branca. O segundo, que não haveria uma causa (para troca na superientêndua). E estaria claro que estaria tendo uma interferência política na PF”

“Ontem (quinta) disse a ele (Bolsonaro) que seria um erro (troca na PF) e que seria uma mudança política. Para evitar uma crise durante uma pandemia, eu sinalizei que iríamos substituir o Valeixo por alguém que tenha perfil técnico. Até sinalizei com um nome, mas não obtive resposta. Ele tem preferência por alguns nomes, foi ventilado o de um delegado, do atual diretor da Abin, mas o grande problema é que não é quem colocar, mas porque trocar. E permitir que seja feita a interferência política na PF”.

“As investigações precisam ser preservadas. Imagina na Lava Jato se a ex-presidente )Dilma Rousseff) ficasse ligando para o ex-superintendente para colher informações. A autonomia da PF na aplicação da lei, seja a quem for, precisa ser preservada. Enfim, é algo que não é apropriado”.

“Não é verdadeiro que o Maurício queria sair. O ápice da carreira na PF é o cargo de diretor-geral. Claro que depois de tantas pressões, ele até manifestou a mim que talvez fosse melhor sair, se conseguiria sair com uma substituição adequada. Mas sempre devido à pressão, que ao meu ver, não seria apropriada”.

“A exoneração foi publicada e fiquei sabendo pelo Diário Oficial. Não assinei esse decreto. Em momento algum o diretor apresentou esse pedido. O pedido foi feito de maneira formal, fui surpreendido, e vi que se confirmou. Para mim é uma sinalização de que o presidente me quer fora do cargo”.

“Eu não tinha como aceitar essa substituição. Há uma questão envolvida da minha biografia, da impessoalidade. Não me senti confortável. Tenho que preservar minha biografia e meu compromisso com o próprio presidente que iria ser firme na luta contra o crime organizado. E o pressuposto é garantir o respeito à lei e autonomia da PF, contra interferências políticas”.

“Agradeço ao presidente a nomeação, fui fiel ao compromisso e estou sendo fiel a ele no momento em que me encontro no Ministério da Justiça. No futuro vou começar a empacotar minhas coisas e vou encaminhar minha carta de demissão. Não tenho como persistir com meu compromisso sem que tenha condições de continuar com autonomia na PF ou sendo forçado a assinar concordância com inteferência política na PF sendo que os resultados com isso são os mais imprevisíveis”.

“Meu futuro pessoal é que abandonei a magistratura, infelizmente é um caminho sem volta. Sabia dos riscos. Vou descansar um pouco. Esses 22 anos foram de muito trabalho, em especial na Lava Jato. Não enriqueci como magistrado e no serviço público, vou trabalhar em breve, mas garanto que sempre estarei à disposição do país para ajudá-lo. Mas, enfim, sempre respeitando o mandamento do Ministério da Justiça na minha gestão que é fazer a coisa certa”.

Fonte: O Tempo

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