Por pbagora.com.br

Os pianistas costumam chatear-se quando se diz isso, mas há certas obras que deveriam ser proibidas para menores de 50 anos. O Cravo Bem Temperado, talvez Mozart e as últimas sonatas de Beethoven estão entre elas. E, com certeza, a produção pianística de Claude Debussy (1862-1918). A razão é simples: não basta martelar as notas corretamente. A partitura, neste caso, é mero guia de navegação para águas profundas da criação artística. É esta a razão que faz do mais recente CD do pianista Nelson Freire um registro de exceção. Aos 64 anos, ocupa lugar especialíssimo entre os grandes do mundo em seu instrumento e vive um momento mágico em sua longa carreira. E, sobretudo, desfruta da plena forma física e uma total maturidade artística.
 

Não é de hoje a intimidade de Freire com Debussy, mas nesta gravação essa afinidade sobressai de modo mais notável. O compositor, que abominava o caráter percussivo do piano (“é preciso esquecer que o piano tem martelos”), não só equalizou melodia e harmonia, mas entronizou esta última como núcleo preferencial de sua escrita para o instrumento. E de modo libertário. Sua música recusa o melodismo fácil e explora padrões de ressonância. Não à toa, tinha um piano Blüthner com uma corda extra acima das convencionais, permitindo sonoridade mais rica.

Nelson, em estado de graça, recria a impressão que o próprio Claude Debussy provocou em Alfredo Casella, que tocou com ele e o viu interpretando estes prelúdios do Livro I que o pianista brasileiro acaba de gravar. Casella dizia que parecia que Debussy tocava diretamente nas cordas do instrumento, sem nenhum mecanismo intermediário. “O efeito era um milagre de poesia.” É o que deslumbra, por exemplo, no modo como Nelson toca Voiles, o prelúdio nº 2.

Já se repetiu à exaustão que o piano de Debussy é feito de meias-tintas, com refinadas gradações entre o pianíssimo e o forte com dois ff, no máximo. O próprio compositor preferia os pianos de armário, por sua potência sonora menor, e, quando tocava num de cauda, não abria a tampa. “É necessário afogar os sons”, recomendava. Este é outro mérito de Nelson: o balanço relativo das dinâmicas, a ênfase às vezes numa nota só dentro do acorde, o uso exato dos pedais. Ele praticamente realiza, para espanto de nossos ouvidos, a utopia da superação do mecanismo do piano, como queria Debussy. E isso, convenhamos, não é pouco. Ao realizar tal façanha, Nelson Freire posta-se na linha direta de sucessão de debussystas ilustres como Walter Gieseking e Arturo Benedetti Michelangeli.

Alfred Cortot, o célebre pianista francês, tocou alguns desses prelúdios para Chou-Chou, a filha querida de Debussy, um ano após sua morte, em 1919. Perguntou-lhe em seguida se era assim que seu pai os tocava. “Sim, mas papa ouvia mais…” Numa palavra, como Nelson sabe ouvir bem essa música de perfume tão específico e a recria com o seu recatado esplendor sonoro. O Livro I dos Prelúdios, de 1909, sucedeu a composição da deliciosa e bem-humorada suíte Children?s Corner, dedicada no ano anterior a Chou-Chou. Debussy desenhou a capa da primeira edição e pediu à filha “ternas desculpas pelo que vai se seguir”.

Não precisava. Esse homem irônico, ríspido e mal-humorado, mostra aqui que também sabia rir. Como, aliás, um amigo parisiense disse de seu contemporâneo Erik Satie, “desconfie das pessoas que jamais riem – elas não são sérias”. Essas seis peças interessantíssimas estão entre as criações mais conhecidas do compositor. A impecável execução de Nelson jamais resvala para a banalidade. Desde o Doctor Gradus ad Parnassum, ironizando Clementi, até a célebre Golliwogg?s Cake-Walk, em que ele encaixou uma caricatura dos primeiros compassos de Tristão e Isolda, de Wagner, seu desafeto maior.

É incrível como o emprego hipnótico do intervalo dissonante de segunda não machuca os ouvidos, só induz ao torpor. Porém, o mais interessante talvez sejam os paralelos entre ao menos dois prelúdios e duas peças de Children?s Corner. Debussy usa appogiaturas e staccatos típicos de violão tanto na La Sérénade Interrompue dos Prelúdios quando na Serenade for the Doll. Por outro lado, a sensação de imobilidade de Des Pas Sur la Neige reaparece em The Snow Is Dancing, apesar das semicolcheias nas mãos alternadas. Duas peças isoladas completam o CD, solitário lançamento clássico nacional de 2009: D?Un Cahier d?Esquisses, de 1903, feita de acordes livremente encadeados; e o hit Clair de Lune, da Suíte Bergamasque, de 1890, uma vinheta que condensa suas melhores qualidades. São pouco mais de 60 minutos de uma gravação excepcional, em que Nelson Freire recria o segredo do gênio de Debussy.
 

 

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