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Entre notas e versos: violinista mineira e poeta da PB unem artes para encantar a infância em livro lançado neste domingo, em MG

Em ‘Poesia Orquestrada’, Jairo Cézar e Mara Toffolo transformam instrumentos em personagens e aproximam música e literatura em parceria que atravessa fronteiras regionais
Foto: Divulgação

Há instrumentos que parecem guardar histórias dentro de si à espera de alguém que saiba escutá-las e contá-las. É desse lugar, onde a música encontra a palavra e o conhecimento cede espaço ao encantamento, que nasce o livro ‘Poesia Orquestrada’, escrito pela violinista e poeta mineira Mara Toffolo e pelo poeta e professor paraibano Jairo Cézar, com ilustrações de Anna Cunha.

Na obra o maestro ganha novos poderes, o violino ri quando o arco faz cócegas, a viola faz serenata para a lua e o contrabaixo aparece como um gigante gentil de madeira. A orquestra, antes de ser apresentada por suas notas, partituras e técnicas, abre as portas para a imaginação.

O livro será lançado neste domingo (11), em Belo Horizonte e Ouro Preto, acompanhando os concertos da Orquestra Ouro Preto e terá lançamento em João Pessoa no dia 12 de novembro, com a participação da Orquestra Infantil da Paraíba.

A ideia nasceu de uma vontade de Mara que depois de mais de duas décadas subindo aos palcos com um violino nas mãos, desejou experimentar outro lugar na relação com a música. Em vez de apenas tocá-la, quis contá-la. E encontrou na poesia um caminho para apresentar às crianças o universo de uma orquestra sem exigir que elas já conhecessem seus instrumentos, seus sons ou seus códigos.

“Antes de explicar, encantar. Antes de ensinar, despertar a curiosidade. Um convite para conhecer, pesquisar e assistir Orquestras.”, resume a violinista ao falar com a reportagem do PB Agora sobre a proposta do livro.

A mudança de perspectiva também exigiu que ela revisse o próprio olhar. Acostumada a conhecer a orquestra por dentro, Mara se propôs a reencontrá-la pela liberdade da imaginação. Para isso, convidou alguém cuja escrita já admirava: Jairo Cézar, escritor paraibano que construiu uma trajetória dedicada à poesia, à literatura infantil e à formação de leitores.

Os dois se conheceram no Cearte (Centro Estadual de Arte da Paraíba), durante um curso de escrita criativa em poesia e a amizade cresceu entre afinidades que, mais tarde, ajudariam a dar forma ao projeto, entre elas o amor pela música, o interesse pela educação e a atenção ao universo das crianças.

“Eu sou leitora do Jairo, sua sensibilidade, sua poesia em falar com as crianças, em falar de literatura. Sua pessoa ímpar. Eu tinha certeza que seria uma parceria muito feliz”, conta Mara.

Para Jairo, o convite chegou pelas mãos de uma amiga querida e encontrou terreno fértil em sua própria relação com a música. O poeta também tem uma ligação afetiva com o violino, instrumento que sua filha, Beatriz, também toca. Quando Mara apresentou a ideia, a possibilidade de escrever sobre esse universo foi, segundo ele, irresistível.

Mara Toffolo com a Orquestra Ouro Preto na Eurotour 2025 – Foto: Rapha Garcia

Versos, sons e descobertas

A criação, no entanto, não se resumiu à soma de duas experiências individuais. Mara, que conhece os instrumentos a partir da prática musical e Jairo que chega a eles pela literatura, escreveram os poemas conjuntamente. A ilustradora Anna Cunha completou o encontro, dando forma visual ao universo imaginado pelos autores.

“Nessa construção não tivemos nenhuma separação de contribuição. Os poemas foram escritos conjuntamente. O ponto especial desse livro é que a palavra diferença não se apresentou, claro, que ambos saímos com mais conhecimentos, nutritos de experiências e do olhar um do outro”, explica Mara.

Segundo ela, a diferença entre as experiências dos dois não se tornou uma barreira, mas uma oportunidade de ampliar o olhar. O processo foi conduzido pelo encantamento, pela discussão de cada verso e pela surpresa diante das perspectivas que surgiam.

Houve também espaço para o riso. Ao revisitar a orquestra sem o compromisso de explicá-la tecnicamente, a violinista descobriu outras possibilidades de relação com aquilo que conhece há tantos anos. Jairo, por sua vez, trouxe o olhar de quem observa esse universo de fora, mas se aproxima dele pela sensibilidade.

“Houve momentos de muitas risadas entre eu e o Jairo, de surpresas do olhar do outro e de consciência: Eu de dentro da orquestra, ele de fora e ambos intensamente abraçados ao projeto”, descreve Mara.

Jairo resume a experiência como um desafio que se revelou leve e harmonioso. Tão harmonioso que os autores já pensam em novos livros.

“Escrever um livro a quatro mãos foi um desafio e tanto, na verdade, a seis mãos, já que a talentosissima Anna Cunha também está no time. Todavia, foi tão suave e harmônico que já estamos pensando em outros livros. Mara é mineira, o povo mineiro é tão maravilhoso que tudo com eles fica fácil, e ainda tem pão de queijo e doce de leite” frisou.

A leveza do processo, entretanto, não diminui a ambição artística da obra. Para Jairo, escrever para crianças exige rigor, cuidado e respeito à inteligência dos leitores. A literatura infantil, defende, não deve ser tratada como uma versão simplificada da literatura destinada aos adultos.

“Crianças são muito mais transparentes, exigentes e verdadeiras”, afirma. Ao citar a escritora Ana Maria Machado, ele reforça que a literatura feita para crianças continua sendo, antes de tudo, literatura e merece o mesmo tratamento estético dedicado à palavra em qualquer outra obra.

Em ‘Poesia Orquestrada’, a escolha de apresentar os instrumentos como personagens, portanto, não pretende reduzir a música a uma explicação didática. O caminho é outro: despertar perguntas, alimentar a curiosidade e convidar o leitor a descobrir o que existe além das páginas. A poesia funciona como uma primeira aproximação, capaz de transformar um instrumento desconhecido em objeto de afeto e interesse.

Jairo Cézar durante formação para professores, Supervisores e Gestores – Foto: Reprodução

A arte que atravessa fronteiras

É também nessa possibilidade de encontro que a Orquestra Ouro Preto reconhece a força do projeto. Para Rodrigo Toffolo, diretor artístico e regente titular do grupo, a interação entre diferentes linguagens é parte importante do trabalho de formação de público desenvolvido pela instituição.

“A música e a literatura sempre andaram de mãos dadas”, afirma.

Na avaliação do maestro, levar a experiência da orquestra para além das notas musicais e das salas de concerto amplia as possibilidades de aproximação com novas gerações.

“Trazer as novas gerações para dentro de uma orquestra, conhecendo os instrumento de forma lúdica e poética, é mais que sensibilizar, é criar o interesse e plantar a sementinha da descoberta de algo novo, de um mundo novo” pontuou.

Ainda segundo Rodrigo a relação entre música e outras artes já aparece em diferentes iniciativas da Orquestra Ouro Preto, que desenvolveu projetos inspirados em obras como O Pequeno Príncipe e Fernão Capelo Gaivota, além de trabalhos ligados à literatura brasileira, como Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna e Hilda Furacão, de Roberto Drummond. O regente ainda mencionou o projeto dos livros: “Amiga Música”, com ilustrações de Ziraldo e Mig Mendes e “Bia e a Máquina do Tempo”, este ilustrado por Gabi Milanelli.

Para ele, Poesia Orquestrada se insere nesse caminho de aproximação entre expressões artísticas, agora com a palavra poética voltada especialmente à imaginação infantil.

O projeto também revela como encontros entre artistas de diferentes trajetórias podem ampliar os espaços de circulação da produção cultural brasileira. Para Jairo, chegar ao público do Sudeste com uma obra dessa dimensão representa mais uma oportunidade de ultrapassar limites geográficos e profissionais.

“Não é fácil para um escritor do Nordeste chegar ao Sudeste”, observa. O poeta lembra que já havia experimentado esse movimento com Augusto dos Anjos em Quadrinhos, mas considera que a projeção de Poesia Orquestrada acrescentará uma nova dimensão à sua trajetória.

A parceria, nesse sentido, não apaga as origens de seus autores nem exige que eles abandonem suas experiências particulares. Ao contrário, nasce justamente do encontro entre aquilo que cada um conhece e aquilo que pode descobrir com o outro. A música oferece à poesia novas formas de escuta, já a poesia devolve à música a possibilidade de ser vista por outros olhos.

Para Jairo, a expectativa é que a leitura deixe nos pequenos e grandes leitores algo que ultrapasse o reconhecimento dos instrumentos. Inspirado pelo pensamento de Paulo Freire sobre a necessidade de educar para a boniteza e a decência, o escritor acredita que a literatura não precisa cumprir uma função estritamente educativa para contribuir com a formação humana.

“Livros literários não têm função estritamente educativa, mas alimentam a boniteza e a decência que há dentro de nós”, diz.

Depois da estreia mineira, o livro terá um encontro especial com o público paraibano. Em João Pessoa, o lançamento está marcado para 12 de novembro e contará com um concerto da Orquestra Infantil da Paraíba, aproximando a obra de uma formação musical que também tem as crianças como protagonistas. Posteriormente haverá também programação no Rio Grande do Norte.

Entre Minas Gerais e Paraíba, uma violinista e um poeta encontraram na criação compartilhada um território sem fronteiras rígidas onde a música não precisa escolher entre ser ouvida ou ser lida, pode ser as duas coisas e a poesia, quando encontra os instrumentos, descobre que também sabe tocar.

Foto: Divulgação

Thatiane Sonally
PB Agora

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