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O medo de morrer por engano

Duas notícias desta semana mexeram especialmente comigo. Duas histórias diferentes, mas com algo em comum: pessoas que perderam a vida porque foram confundidas com outras ou porque alguém decidiu acreditar em uma suspeita sem esperar pela verdade.

No Rio de Janeiro, Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos, foi espancado até a morte em Copacabana depois de ser confundido com um ladrão. Segundo a investigação, ele estava andando de bicicleta quando foi abordado por seguranças. Um deles teria dado uma paulada em seu braço por suspeitar que a bicicleta fosse roubada.

Depois, Cláudio foi cercado na rua Felipe de Oliveira por um segurança e dois entregadores e sofreu novas agressões, inclusive pauladas na cabeça. Ele morreu vítima de traumatismo craniano e hemorragia interna.

Uma testemunha, o porteiro Jorge Pires, relatou à polícia ter visto a violência e resumiu: “Bateram muito mesmo.”

A irmã de Cláudio, Fabiana Landeiro Hansen, disse que a família está desolada e que ele era um homem calmo, de coração puro, “quieto, na dele”.

E fez uma pergunta que também ficou na minha cabeça: “Não teve nenhum motivo.”

Não houve julgamento. Não houve investigação antes da agressão. Houve uma suspeita e, a partir dela, pessoas decidiram agir.

Em Maceió, a história é ainda mais assustadora. A advogada Ana Walesca do Nascimento Gomes, de 34 anos, filha de um policial civil, foi assassinada enquanto passeava com o cachorro. Segundo a Polícia Civil, ela teria sido confundida com uma traficante que era procurada pelo Comando Vermelho por uma dívida relacionada à perda de uma pistola e de drogas.

Ana Walesca foi atingida por cerca de cinco tiros, na cabeça e no tórax. Segundo a investigação, o executor teria tentado disparar mesmo depois de a arma falhar.

Ela não era o alvo. Mas foi ela quem morreu.

Essas duas histórias me fizeram pensar no quanto pode ser assustador simplesmente estar na rua e ser confundido com alguém.

E isso não é algo novo. Durante anos, circularam boatos de pessoas que sequestravam crianças. Houve casos em que pessoas foram perseguidas e espancadas por causa de acusações falsas. Até novelas já retrataram situações em que um boato se transforma em uma sentença.

A diferença é que hoje temos as redes sociais. Uma foto, um vídeo, uma acusação ou uma mensagem falsa podem chegar a milhares de pessoas em poucos minutos. E quanto mais uma mentira circula, mais ela pode parecer verdadeira.

O perigo é justamente esse: alguém pode acreditar, apontar o dedo e outra pessoa pode decidir fazer justiça com as próprias mãos.

Por isso, essa não é uma preocupação apenas de quem vive em uma cidade violenta ou de quem trabalha em determinada área. É uma preocupação de todos nós.

Porque a vítima pode ser um desconhecido. Pode ser alguém da nossa família. Pode ser um amigo.

Pode ser eu. Pode ser você.

Antes de compartilhar uma acusação, antes de condenar alguém, antes de acreditar cegamente em uma história que circula nas redes, é preciso lembrar que, do outro lado, existe uma vida.

E uma vida perdida por engano não pode ser devolvida depois que a verdade aparece.

Como diz uma antiga reflexão atribuída a Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo.” Talvez, antes de julgar o outro, precisemos olhar para nós mesmos e perguntar: e se estivermos errados?


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