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Muito além dos desenhos bíblicos: responsabilidade e verdade em tempos de viralização

Uma nova polêmica tomou conta das redes sociais: segundo diversos criadores de conteúdo, o governo, ou mais precisamente o presidente Lula teria “proibido” ou “censurado” desenhos bíblicos exibidos pela Record.

A grande questão é que isso simplesmente não aconteceu. O que houve foi uma alteração, por parte do Ministério da Justiça, na classificação indicativa e existe uma diferença enorme entre classificar e censurar.

Mas antes de falar sobre isso, vale refletir sobre um aspecto que poucos parecem ter considerado no debate.

Quando uma criança lê um livro qualquer, ou uma história bíblica, ou até quando alguém conta essa história para ela, existe um filtro natural acontecendo. A criança imagina as cenas com a sua própria cabeça, com suas referências, sua maturidade emocional e sua capacidade de compreensão. Já quando uma história é transformada em desenho animado ou filme, o processo é diferente.

As cenas são construídas a partir da visão de adultos. com isso os enquadramentos, os cortes, os efeitos sonoros, a intensidade das emoções, a representação da violência, tudo passa pelo olhar de pessoas que já tiveram contato com uma infinidade de imagens e experiências da vida real.

E cá entre nós, deveríamos reconhecer algo óbvio: a Bíblia em sua integralidade não é um livro infantil. Ela contém histórias extraordinárias de fé, redenção e esperança, mas também contém guerras, assassinatos, perseguições, massacres, traições e sofrimento. Tanto que existem versões infantis próprias para serem lidas por crianças.

Com isso, quando um desenho bíblico retrata a luta entre Davi e Golias, por exemplo, ele está representando um confronto violento. Quando narra a morte de Sansão, está retratando uma cena trágica e brutal e a pergunta que devemos nos fazer é: como estas histórias estão sendo representadas no audiovisual? E em qual idade uma criança está preparada para assistir a essas representações?

É perfeitamente legítimo que pais pensem diferente sobre isso. Alguns permitirão que seus filhos assistam desde cedo, já outros preferirão esperar até eles terem mais idade, mas justamente por existirem visões diferentes é que a classificação indicativa faz sentido.

Ela não tira dos pais o direito de decidir, ela apenas informa, orienta e recomenda.

Classificação indicativa não é proibição, não é censura e neste caso não deve ser vista como perseguição religiosa. O que ocorreu foi apenas uma informação para que as famílias possam decidir com mais consciência o que seus filhos irão assistir.

Aliás, confesso que uma das coisas que mais me surpreendeu em toda essa discussão foi perceber quantos pais parecem dispostos a delegar o discipulado dos filhos à televisão aberta por mais bem-intencionada que seja a produção. Nenhum desenho, nenhuma série e nenhum programa substituem a responsabilidade dos pais na formação espiritual das crianças.

Outra coisa preocupante em toda essa história é perceber como tantas pessoas já não se preocupam em verificar os fatos antes de emitir opinião.

Vivemos uma época em que, para muita gente, a verdade deixou de ser importante e o que importa é a atenção a qualquer custo. O objetivo não é informar, é viralizar.

Não importa se a informação é correta, incompleta ou completamente distorcida, o importante é gerar engajamento e compartilhamentos.

E o resultado é um efeito dominó: alguém publica uma versão exagerada ou falsa dos fatos, outras pessoas reproduzem sem conferir e em pouco tempo a mentira ganha mais alcance do que a verdade. Foi exatamente isso que aconteceu nessa discussão.

Muitos passaram a repetir que desenhos bíblicos haviam sido proibidos ou censurados, mas não foi isso que ocorreu. Podemos discutir se a mudança na classificação indicativa foi adequada, podemos questionar os critérios adotados, podemos até discordar da decisão. Esse é um debate legítimo.

O que não podemos fazer é transformar uma classificação indicativa em censura apenas porque essa narrativa gera mais cliques.

A verdade nunca deveria ser sacrificada em nome da viralização.

Thatiane Sonally


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