Se no Brasil a rede pública conseguisse financiar vacinas consideradas prioritárias pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a principal causa de óbito em crianças menores de cinco anos poderia ser evitada ou até mesmo erradicada do país por meio da vacinação. Isso porque até o fim deste mês, a Associação Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deve aprovar para uso pediátrico a vacina conjugada 13-Valente (VPC13), a primeira e única a proteger crianças contra os 13 sorotipos da bactéria streptococcus pneumoniae, responsável pelas doenças pneumocócicas como a meningite e a pneumonia, que matam cerca de 1,6 milhão de pessoas anualmente, entre elas 800 mil crianças – a grande maioria nos países em desenvolvimento.

Atualmente, a única vacina comercializada no Brasil que oferece proteção parcial contra o pneumococo na faixa pediátrica é a conjugada 7-Valente ou Prevenar, disponível para quem pode pagar por ela, uma vez que, na rede pública, é distribuída só para crianças com vulnerabilidade acentuada (bebês prematuros, crianças com síndrome de Down e diabetes, por exemplo) em 39 centros de referência para imunobiológicos especiais espalhados pelo país. Ambas as vacinas são fabricadas pela Wyeth Indústria Farmacêutica.

Segundo Eitan Berezin, presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, as doenças pneumocócicas representam um grave problema de saúde pública e já matam mais que a soma dos óbitos causados pela malária, Aids e tuberculose. Só no Brasil, a bactéria causa anualmente 521 mil novos casos de pneumonia e mais de 3 milhões de casos de otite média aguda. Cerca de mil casos de meningite também são notificados todo ano.

– O pneumococco tem uma grande abrangência de acometimento. A bactéria coloniza a nasofaringe e, a partir daí, grande parte das crianças irá disseminá-la. Se uma parcela maior de crianças for vacinada, haverá menor disseminação na sociedade e mesmo as pessoas não vacinadas acabam sendo protegidas. Isso ocorreu (com a vacina Prevanar) nos EUA – afirma Berezin.

De acordo com o pediatra, as sociedades médicas brasileiras já incluem a vacina pneumocócica comercializada no país, Prevenar, em seus calendários de vacinação e recomendam sua incorporação pelo Ministério da Saúde no calendário oficial de imunização. Caso isso venha a ocorrer, ela poderá ser gradualmente substituída pela VPC13. A criança que já tiver tomado a dose da Prevenar também poderá ser imunizada pela nova vacina.

– A vacina deveria ser incorporada na rede pública – destaca Berezin. – No Brasil, a rede privada só vai atender cerca de 10% da população. Diferentemente, em Portugal a vacina só esta disponível na rede privada, mas atende algo como 50% da população.

Nos EUA, o governo subsidia 60% do custo da vacina e os 40% restantes são bancados pelos seguros de saúde privados. O único país em desenvolvimento que distribui a dose no sistema público de saúde é a Costa Rica. Ana Andrade, professora do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Goiás, explica que o Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde ainda não incorporou a Prevenar em seu calendário de vacinação pediátrico devido ao alto custo do medicamento. No Brasil, a dose é oferecida na rede privada ao custo médio de R$ 200.

– A dose da vacina é muito cara. O grande desafio atualmente é conseguir o barateamento do custo. Recentes estudos brasileiros procuram demonstrar sua importância para a reducão do índice de mortalidade infantil, mostrando que a vacina tem de fato um custo-benefício elevado que justifica sua adoção. O Brasil precisa buscar parcerias com indústrias farmacêuticas para baixar o custo. Creio que estamos caminhando nessa direção.

JB online

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