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Especial 40 anos de Aids: medo, preconceitos, tratamento e prevenção continuam no combate ao vírus na Paraíba

Vidas interrompidas. Sonhos sepultados. Medo. Perdas nunca recuperadas. Irreparáveis. Dor, angústia e sofrimento. A epidemia de Aids foi tão grave que deveria ser classificada como catástrofe. Muitas pessoas infectadas pelo vírus HIV perderam a noção do tempo e a esperança de viver. A geração dos anos 80 viu ídolos como Cazuza, Fred Mercury, Lauro Corona e Renato Russo perderem a batalha para o vírus.

Os primeiros casos foram doloridos, cruéis e desumanos, visto que como não havia cura para a doença, o destino de muitos foi mesmo a morte. Muitos jovens não tiveram o amanhã para sonhar.

Após 40 anos do primeiro caso, a realidade é outra, e muitas pessoas convivem com o vírus tranquilamente, levando uma vida normal. Isso graças aos efeitos da ciência na doença e às inúmeras ações preventivas.

No entanto, os números na Paraíba ainda são preocupantes. Como se trata de um “inimigo” invisível, muitos jovens abandonaram o uso dos métodos preventivos como a camisinha, enquanto outra legião de paraibanos que apresenta sintomas da doença, registe a fazer o teste, e pode estar transmitindo o vírus sem saber que está infectado.

Mesmo a AIDS nunca tendo tido uma cura definitiva visto que não existe uma vacina capaz de combater os efeitos do vírus, como aconteceu com a pandemia da Covid-19, a doença caiu no esquecimento. Atuando simultaneamente na linha de frente de combate a Covi e ao vírus HIV, o médico infectologista Fernando Chagas, garante que na Paraíba, especialmente em João Pessoa, tem sido registrado um aumento considerável do número de diagnóstico de HIV principalmente na população jovem.

O médico Fernando Chagas observou que nos dias atuais, devido o uso do medicamento anti retrovirais, há uma sensação de que a doença não existe mais.

“Infelizmente esse é um imenso engano. Muita gente tem sofrido com o vírus, tem desenvolvido a Aids e tem perdido a vida por causa disso” alertou.

O servidor público Mário Fernandes foi um dos primeiros paraibanos a ser infectado com o vírus nos anos 80 e sabe a importância do tratamento.

Ele aceitou conversar com o PB Agora sobre a doença e ressaltou a importância da adesão ao tratamento e do uso dos mecanismos de prevenção. Contrair o HIV não foi empecilho para tirar de Mário a vontade de viver, lutar e acreditar na vida. Garante que é feliz, e busca transmitir alegria e esperança a todos. Já são quase quatro décadas convivendo com o vírus.

Desde que descobriu o vírus, ele assumiu uma causa em favor dos jovens, procurando sempre ajudar os profissionais do sexo a evitar o HIV. E a preocupação dele se base nas estatísticas, que apontam que 45% dos casos de Aids em adultos na Paraíba nos últimos 5 anos, foram originados em relações sexuais heterossexuais, conforme dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES).

Como um dos coordenadores das ações e políticas para a população LGBTQI+  Mario tem dedicado parte de seu tempo a orientar os profissionais do sexo a se protegerem. E insiste para que façam o exame sempre que apresentar algum sintoma. Um apelo nem sempre atendido. Ignorado.

Em meio ao medo, ignorância e descaso com a doença, Mário pessoalmente leva preservativos para os profissionais do sexo e alerta para a importância do uso da camisinha.

Com um olhar humanista, solidário e afetuoso, Mário enfatizou que um dos desafios das autoridades sanitárias é convencer a pessoa infectada com o vírus, a aderir o tratamento. A decisão é pessoal. E pode representar vida longa. Vida normal e feliz.

Ele conta que quando descobriu o vírus em 1987, sofreu bastante devido ao desconhecimento que existia em torno da doença. Na época, “as pessoas infectadas eram estigmatizadas como gay ou promíscua”.

“Como não se conhecia o HIV, se fixou na cabeça das pessoas, que era uma doença gay. Por isso as campanhas eram feitas voltadas para o homem. Quando você pensa no uso do preservativo masculino, está pensando em proteger apenas o homem”, observou.

Ele acrescentou que também existe preservativo feminino, mas para esse público nunca houve campanha.

Mário defende a volta das campanhas educativas, só que agora com um outro formato, e não apenas voltada para o público masculino, mas também incentivando o uso do preservativo feminino.  Ele lamentou a ausência das campanhas nacionais o que favorece o desconhecimento da doença.

O apelo dele tem como fundamento em levantamento divulgado este mês pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que apontou que caiu o uso da camisinha entre adolescentes nas relações sexuais nos últimos dez anos.

“As mulheres ainda tem muita resistência em usar esse preservativo feminino” comentou.

O médico infectologista Fernando Chagas, que há anos trata de pacientes com a doença no Hospital Clementino Flagra em João Pessoa, também defende a volta das campanhas.  Para ele, o desafio em meio a pandemia da covid, é voltar as campanhas educativas e preventivas, mostrando às pessoas a importância dos cuidados para evitar a doença. Além da camisinha, conforme enfatizou o infectologista, existem muitas estratégias que evitam o HIV.

 

Médico infectologista Fernando Chagas

Ouvido pelo PB Agora, Dr Fernando foi além do apelo pela volta das campanhas e reforçou a necessidade urgente da realização do teste por parte das pessoas com sintomas do vírus, principalmente os profissionais do sexo. Essa medida, segundo ele, é fundamental  para evitar que a AIDS volte a assustar os paraibanos.

Fernando Chagas enfatizou que o grande desafio das autoridades sanitárias nos tempos atuais, é buscar as pessoas infectadas com o vírus, mas que desconhecem que são portadoras da doença.

Ele explicou que ao iniciar o tratamento, a medicação consegue zerar o quantitativo do vírus no sangue da pessoa. O medicamento, segundo ele, garante que a pessoa fique sem o vírus no sangue e, consequentemente, não transmita a doença.

“Iniciar o tratamento contra o HIV, significa quebrar a transmissão do vírus e diminuir as chances de passar o vírus para outras pessoas. E infelizmente, muita gente no País e na Paraíba não tem ideia do diagnóstico, e está no ciclo de transmissão” disse.

Fernando Chagas cita como exemplo, um programa em funcionamento no Clementino Fraga, chamado PREV, que significa Profilaxia Pré exposição.

O Complexo Hospitalar Clementino Fraga é a referência estadual de diagnóstico e tratamento do HIV/Aids e oferece ao público Atendimento Domiciliar Terapêutico (ADT), um serviço de assistência diária com uma equipe multidisciplinar, além de testes. Cerca de 5 mil pessoas são assistidas pela unidade hospitalar.

Complexo Hospitalar Clementino Fraga

A ideia é garantir a prevenção antes da pessoa se expor ao vírus, principalmente as populações que correm mais risco de contrair a Aids., a exemplo dos profissionais do sexo que estão sempre em exposição.

Para isso, o hospital disponibiliza um medicamento chamado “Truvada” conhecido como inibidor da transcriptase reversa análogo de nucleosídeo (ITRN) do HIV-1.

“A pessoa toma esse truvada todo o dia, e ao tomar esse medicamento todo o dia, ela evita pegar a doença. Ao tomar o truvada, o risco dele pegar HIV é muito pequeno. A gente orienta é claro, que esse profissional use camisinha mesmo com o uso da trovoada” explicou.

 

Fernando enfatizou que hoje existem muitas estratégias que junto com o uso da camisinha podem evitar que o vírus avance.

Na luta para evitar que mais jovens contraiam o vírus HIV, o Clementino Flagra criou outro programa chamado Profilaxia Antirretroviral Pós Exposição  de Risco para Infecção pelo HIV”(PEP). Nesse programa, a pessoa que teve uma relação sexual sem camisinha com risco de pegar o vírus, tem até 72h para ir até o hospital, onde pega dois tipos de medicamentos para ser tomado durante 28 dias.

A PEP é uma forma de prevenção de urgência à infecção pelo HIV que consiste no uso de medicamentos que precisam ser tomados por 28 dias, que deve ser iniciada o mais rápido possível, preferencialmente, nas primeiras duas horas após a exposição e no máximo, em até 72 horas para reduzir o risco de adquirir a infecção. Deve ser utilizada após qualquer situação em que exista risco de contágio: violência sexual, relação sexual desprotegida e acidente ocupacional.

Já o Profilaxia Pré-Exposição – PrEP, consiste na tomada diária de um comprimido que impede que o vírus causador da Aids infecte o organismo, antes de a pessoa ter contato com o vírus. Ela é indicada para pessoas que têm maior chance de entrar em contato com o HIV.

“Mesmo tendo tido relação com alguém que possa ter passado o vírus, a pessoa não fica com o vírus. O medicamento iniciado até 72h pode garantir que a pessoa não pegue a doença” explicou.

Aumento do diagnóstico

Um vírus silencioso, traiçoeiro e algumas vezes não detectável. Mesmo depois de quatro décadas do surgimento dos primeiros casos, a pandemia da Aids continua a ser um dos grandes desafios para a saúde mundial. Em pleno 2022 com o mundo ainda atravessando a pandemia da Covid-19, a AIDS ainda mata brasileiros e paraibanos.

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam para a existência, atualmente, em todo o mundo, de 38 milhões de pessoas vivendo com HIV/aids. Muitas dessas mortes foram evitadas graças às campanhas educativas e ao trabalho preventivo.

No Brasil existem mais de 900 mil pessoas vivendo com HIV. dentre os quais, pelo menos 100 mil brasileiros não fazem ideia que tem o vírus. Na Paraíba os dados são preocupantes. No Estado, uma média de 900 pessoas por ano são detectadas com o vírus, segundo a Secretaria de Estado da Saúde. A SES estima que aproximadamente 6 mil pessoas tenham sido infectadas e ainda não sabem. A maior parte das pessoas infectadas se encontra em João Pessoa.

Em entrevista ao PB Agora, a gerente operacional de condições crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), Ivoneide Lucena, revelou que os dados estatísticos apontam que para cada caso notificado, outros 10 não são. Ela observou que essas pessoas não fizeram o teste, e como não sabem que são portadores do vírus, fazem relações sexuais sem preservativos, favorecendo assim para o avanço do vírus.

“Existem pessoas que não têm sintomatologia, mas possuem HIV e não sabem. Se elas tiverem relações sexuais sem os cuidados necessários, podem passar para outra pessoa”, explica.

Arte: Júlio César

Os dados são chocantes e cresceram de forma assustadora durante a pandemia. Em 2019, foram registrados 1.170 casos em toda a Paraíba. Em 2020, 318 pessoas tiveram diagnóstico positivo de infecção pelo vírus HIV, e em 2021, com a pandemia em curso, subiu para 975 casos. Este ano, até abril, 190 paraibanos já foram diagnosticados com o HIV.

A preocupação maior das autoridades sanitárias, é justamente com a João Pessoa. Em 2020, ano do começo da pandemia, foram registrados 221 casos na Capital sendo que em 2021, este número saltou para 351, devido a muitas pessoas terem abandonado o tratamento em decorrência da pandemia. Somente este ano, até o mês de abril, 74 pessoas já foram diagnosticadas com HIV na Paraíba.

Em meio as vidas perdidas para a Covid-19, muitos paraibanos também tem morrido em decorrência da AIDS. Somente este ano, 39 pessoas morreram de AIDS na Paraíba, das quais12 em João Pessoa. No ano passado foram 189 óbitos em todo o Estado, dos quais 01 na Capital, e em 2020, 165 mortes, sendo que a maioria delas, 52, ocorridas em João Pessoa. Em 2019, foram registrados 56 óbitos.

Ivoneide Lucena destacou que ser soropositivo não é o mesmo que ter Aids, que é uma doença manifestada devido à falta de tratamento adequado para o vírus da imunodeficiência humana.

Uma das preocupações da equipe coordenada por Ivoneide Lucena, é com as mulheres gestantes. Isso porque aumentou o número desse público com o HIV. Em 2019, foram 103 casos, sendo que em 2020, esse número subiu para 129 e em 2021 ficou nos 115 casos. Este ano, até abril, 32 gestantes já foram diagnosticadas com o vírus, a maioria em João Pessoa.

Ivoneide Lucena disse que os jovens com algum sintoma da doença, precisam fazer o teste e iniciar imediatamente o tratamento. Eficaz no combate a doença, o medicamento é fornecido gratuitamente pela rede pública de saúde.

“Nossa preocupação é atuar na prevenção e evitar que o vírus seja transmitido com maior velocidade” disse.

A coordenadora estadual de DST/Aids e Hepatites Virais,  acrescentou  ainda que ‘pílula do dia seguinte para Aids’, para situações de exposição e risco ao vírus HIV é fornecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Na Paraíba, além do Complexo Hospitalar Clementino Fraga em João Pessoa, os serviços de referência, que a população deve procurar, são o Hospital Regional de Patos, Hospital Regional de Sousa, Hospital Regional de Cajazeiras, Hospital de Emergência e Trauma de João Pessoa e de Campina Grande.

O abandono do tratamento

Medo, insegurança e relaxamento. No auge da pandemia da covid-19, quando os índices de contaminação, internações e óbitos, subiu de forma assustadora e por pouco não estrangulou o sistema público de saúde, um outro problema surgiu silencioso na Paraíba: muitos pacientes abandonaram o tratamento.

Atualmente 8 mil pessoas fazem o tratamento antirretroviral, com medicação distribuída regularmente no Estado, mas muitos deixaram de pegar o remédio.  Somente em 2020, 1.463 pessoas com HIV abandonaram o tratamento e esse número cresceu ao longo da pandemia.

Com medo de pegar a Covid-19, muitos pacientes soro positivos abandonaram o tratamento ou deixaram de ir buscar o medicamento fornecido em João Pessoa pela rede pública pelo Hospital Clementino Fraga. Ele garante a eficácia do tratamento feito de forma adequada.

O médico Fernando Chagas revelou que essa atitude de muitos pacientes de abandonar o tratamento, provocou danos irreparáveis na saúde pública. Isso porque, ao longo da travessia da pandemia, a Aids voltou a matar paraibanos.

“Os maiores índices de óbitos por Aids hoje são de pessoas que abandonaram o tratamento ou retardaram para fazer o diagnóstico e quando descobriram já estão com a doença avançada”, observou.

Mesmo com o hospital criando todas as facilidades para entregar o medicamento e evitar interrupção no tratamento, com todos os protocolos sanitários, muitas pessoas abandonaram o tratamento em João Pessoa, durante a pandemia.

“Em momento nenhum o Hospital deixou de entregar o medicamento. Muito pelo contrário, facilitamos inclusive a dispensação do medicamento, dispensado por mais tempo. O paciente podia pegar o medicamento para o tratamento de dois ou três meses para evitar exposição” observou.

Outras pessoas, segundo ele, colocam obstáculo para pegar o diagnóstico, mesmo com sintomas que apontam para o HIV. Como muita gente não buscou o diagnóstico, o hospital hoje se encontra com uma demanda reprimida.

Mário Fernandes sabe da importância do tratamento e ressalta que uso do medicamento é bem menos complexo do que há 40 anos atrás.

No começo o tratamento era bem complexo, devido a quantidade de comprimidos que a pessoa tomava por dia. Maria conta que ele mesmo tomava por dia 27 comprimidos. Hoje o tratamento se resume a 1 a 3 comprimidos por dia, o que facilita a adesão.

O medo

Historicamente o medo sempre rondou a Aids. Muitos paraibanos tem se recusado a fazer o tratamento com medo do resultado. Convivendo há anos com o vírus, Mário Fernandes garantiu que ainda nos dias de hoje, muitas pessoas tem medo do resultado do exame, e por isso, se recusam a fazê-lo.

“Não saber e ignorar a não ciência de uma doença não é o ideal. Como a AIDS ela não tem normalmente uma manifestação imediata porque ela está muito ligada a baixa da imunidade, as pessoas adiam esse tratamento ou até o conhecimento dele” observou,

 

Quebrando preconceitos

Passado tanto tempo ainda existe o preconceito, medo e receio de muitas pessoas de se aproximarem de quem contraiu o vírus. Dr Fernando explica que esses mitos precisam ser quebrados de vez, visto que Aids não é transmitida por beijo e abraço, mas apenas em relações sexuais em que a pessoa não se protege.

Segundo ele, a pessoa que tem o vírus mas realiza o tratamento de forma correta não transmite doença. O médico alertou que ainda existem muitos preconceitos associados a pessoas portadoras do HIV, sendo o primeiro deles, que a doença pode ser transmitida facilmente, o que não é verdade.

“Não é para ter medo do portador do HIV. Você tem que ter medo do vírus, se protegendo contra ele a todo o custo. E mais. Hoje o portador do HIV vive normalmente, mesmo com o tempo de vida com quem não tem o vírus. É só tomar o remédio todos os dias”, garantiu.

Entre o avanço da ciência e os efeitos da medicação, a Aids continua sendo um desafio para as autoridades sanitárias, mas não obstáculo para a pessoa soro positivo viver bem e com longevidade desde que realize corretamente o tratamento.

Severino Lopes

PB Agora

 

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