Transcorria o ano da graça de 1996 da nossa Era Cristã. Passava-se o dia 25 de maio, pelo calendário Gregoriano. Era um feriado, por tratar-se da data comemorativa do aniversário da Revolução de 1810 (equivalente à Proclamação da República, aqui no Brasil, festejada no dia 15 de novembro).

De um lado, estava ele: Salomão Benevides Gadelha. Do outro, havia simplesmente seu rosto refletido num espelho, dentro do banheiro social do restaurante e casa-de-shows Tango Mio, em Buenos Aires. Foi assim, se mirando em seus próprios olhos, que – às lágrimas – ele me disse que havia decidido não ser mais pré-candidato a prefeito do município de Sousa, pelo menos naquele momento, onde a conjuntura política lhe era totalmente desfavorável.

O postulante escolhido pelo então governador do Estado, José Maranhão (PMDB), foi Lúcio Matos (do mesmo partido dele), que acabou sendo derrotado no pleito por João Marques Estrela (PDT), pelo placar de 17.982 votos a 10.858, mesmo tendo como sua candidata a vice-prefeita, Dona Mabel Mariz (viúva do então recém-falecido ex-governador Antônio Mariz, de quem Maranhão era o vice em exercício do mandato pleno, como 1º na linha sucessória, diante da morte do titular do cargo).

Não foi daquela vez que Salomão tornou-se mandatário-chefe da “Cidade Sorriso”, incrustrada no Vale dos Dinossauros, bem acima de uma jazida de petróleo até hoje inexplorada. Anos depois ele seria prefeito por duas vezes seguidas, na “Terra do Côco” e do Canal da Redenção.

Esse foi o clímax de uma odisséia testemunhada por mim, quando Salomão resolveu acompanhar a comitiva governamental em visita oficial de uma semana à terra de “los hermanos”, integrando-se por conta própria – custeando passagem aérea, alimentação e hospedagem com recursos financeiros advindos do seu bolso – à caravana formada pelos secretários Solon Henriques de Sá e Benevides (Casa Civil), Mário Silveira (Planejamento), Sales Gaudêncio (Educação e Cultura) e ainda o presidente da PB-Tur, na época, Geraldo Medeiros.

Fomos tentar sensibilizar as autoridades “gallegas” no sentido de incrementar o intercâmbio turístico entre a Paraíba (com destino principal nas cidades de João Pessoa, Campina Grande e Sousa) e os prováveis visitantes vindos das províncias do Chaco, Pampas, Patagônia, Mar Del Plata, Córdoba, Mendoza, Rosário, Tucuman, etc. Obviamente, como todos devem saber, o resultado foi um retumbante fracasso. Ou seja: não veio ninguém…

– ¿Usted quieres jugar la plata fuera?

Traduzindo do espanhol/castelhano para o nosso idioma:

– Você quer jogar seu dinheiro fora?

Esta foi a repergunta que me fez um proprietário de agência de viagens, quando lhe questionei sobre a viabilidade econômica, técnica e operacional de trazer argentinos até as praias de Jacumã, Coqueirinho, Tambaba, etc.

Ele refutou de imediato a idéia, dizendo-me que era mais fácil fretar um avião Boeing ou Airbus da Aero-México e fazer um vôo charter direto para qualquer uma das famosas ilhas do mar do Caribe, como Aruba, Cozumel, Isla Marguerita, Curaçao ou até mesmo Cancún (onde alguns empresários paraibanos possuem negócios neste mesmo setor, como shopping-centers e resorts/hotéis-fazenda), do que transportar pessoas para o “longínqüo e desconhecido” Nordeste brasileiro, enfrentando 12 horas de peregrinação pelos aeroportos de Curitiba, São Paulo e Recife, até desembarcar à meia-noite no Castro Pinto, em João Pessoa.

O custo do vôo direto, sem escalas, durante sete horas até a América Central era de US$ 700 dólares norte-americanos, que valiam na cotação da época, a mesma coisa que R$ 1,00 (Real) no Brasil e A$ 1,00 (Austral) na Argentina. Para um portenho chegar à capital paraibana, custava cem dólares a mais, via roteiro “expresso – empresarial VIP” no pior estilo pinga-pinga adotado pelas companhias Varig e Vasp linhas aéreas (tsc, tsc, tsc!!!).

Pois bem, Salomão – mesmo chorando – estava feliz, porque tinha retirado de suas costas um peso partidário incrivelmente suportado em solidão por ele, durante meses, até que Maranhão deu o veredicto:

– Você fica para a próxima eleição, em 2000. A bola da vez, este ano, é Lúcio Matos.

Essa conversa já foi no final da viagem, depois de termos percorrido juntos o Palácio da Justiça, a Embaixada Brasileira (quando o nosso representante era o diplomata Marcos Azambuja), além das atrações culturais no cemitério de La Ricolleta (onde está o túmulo de Evita Perón, ex-dançarina de cabaré que chegou a ser a primeira-dama do país), Puerto Madero, Aeroparque, Calle Florida, Plaza de Mayo, Casa Rosada e La Boca (bairro no qual se encontra o estádio de La Bombonera, onde o tradicional time que gerou o craque mundialmente conhecido como Dom Diego Armando Maradona, o Boca Juniors, sedia seus jogos oficiais pelo campeonato local, Taça Sulamericana e Copa Libertadores da América).

Salomão ainda deve estar meio atordoado, certamente, por ter se encontrado tão cedo, de forma prematura, com a luz que brilha por sobre todos os seres que habitam no Oriente Eterno, iluminados pela sabedoria que emana do trono homômino, onde está sentado o Grande Arquiteto do Universo.

Ele – agora – não precisa mais se olhar no espelho e nem chorar. Nós é que – esperando chegar a hora da nossa vez – estamos fazendo isso, em seu lugar. Agora, Benevides, você só necessita se mirar no flash da luz quente que nunca se apaga, no meio do silêncio absoluto que reina na imensa escuridão gelada das trevas infinitas, meu amigo-irmão…

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