Nesta última parte da entrevista que concedeu aos jornalistas Wellington Farias e Eloise Elane, para o PB Agora, o ex-governador da Paraíba e atual presidente da Fundação João Mangabeira, Ricardo Coutinho (PSB) disse que, com Jair Bolsonaro, o futuro do Brasil é incerto. “Nós vamos ter uma entrega de poder muito forte, particularmente para os Estados Unidos”.

Em mais de duas horas de entrevista, no seu escritório do Bairro dos Estados, em João Pessoa, Ricardo Coutinho observou que Bolsonaro em tempo recorde perdeu grandes apoios na sociedade “e se volta cada vez mais para o núcleo fundamentalista, o que é perigoso”. Mas haverá resistência, na avaliação do ex-governador da Paraíba, cujas opiniões e atitudes políticas o tem levado a ser frequentemente convidado a debater a conjuntura nacional nos mais avançados centros de política do País.

A propósito disse Ricardo: “Vamos ter uma ressignificação da resistência, ou seja: o retorno de movimentos sociais híbridos. A resistência do movimento sindical tem um, limite por causa do alto desemprego, com suas lideranças muito antiga. Então você vai ter outro tipo, e acho que essa resistência passa pela Educação. Então é preciso dar vasão à Educação. É preciso que as nossas instituições tenham coragem de enfrentar isso que está aí. Eu me refiro aos reitores, aos professores. Acho que nós vamos ter turbulências que são benéficas, porque advirão de choques, onde haverá reação a esse tipo de destruição do patrimônio”.

Na entrevista a seguir, o ex-governador também falou dos seguintes tema:

Lula: “Será o grande fator da paz social no Brasil”.

Os erros cometidos pelo PT, não fazendo reformas e entregando fácil o poder.
Sobre voltar a disputar a Prefeitura de João Pessoa: “Depende de uma análise que farei sobre o meu papel na política nacional”.

E mais: “Gervásio Maia é a melhor novidade que a política da Paraíba tem”.

Em Campina Grande: “O PSB tem que apresentar uma alternativa que expresse esse novo pensamento”

***
Eis a última parte da entrevista:

PB Agora – Qual é a leitura que o Sr faz dessa surpreendente ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República, e o que poderá estar por trás desse projeto de governo?

Ricardo Coutinho – O mundo, em particular o Brasil, está vivendo uma era. A era da ignorância, da estupidez, da destruição da solidariedade. O principal fator que se consolidou foi a questão da violência, da pouca resposta da Segurança Pública e das demais políticas em relação à segurança das pessoas. Isso criou um sentimento de que quem falava em Direitos Humanos, em solidariedade, em desenvolvimento com inclusão social não tinha resolutividade, o que é falso. Porém, isso foi absorvido pelas grandes massas, e que permitiu o surgimento desse tipo de gente que trabalha com base na mentira, que pode ser via fake news, a grande novidade, mas que por trás está uma visão de mundo profundamente excludente. Atravessamos um momento em que há uma vitória parcial e progressiva do rentismo onde os Estados nacionais não conseguem resolver muita coisa, particularmente, a economia, e se tem um grande poder que não tem um rosto, que não tem um nome específico, mas que paira sobre todas as nações, fazendo com que enquanto estas nações caminhem na contramão do rentismo, do sistema financeiro, haja intervenções ou turbulências. Para o Brasil, sobrou o que de pior existia: alguém profundamente despreparado, que não prepara o que diz; diz o que pensa: aquele tipo de coisa segregacionista, homofóbica, racista, violenta, socialmente falando, excludente. O Brasil, por ser uma nação extremamente importante, do ponto de vista de riquezas ambientais, é uma nação sempre olhada para o bem e para o mal. E essa turma, que tem desprezo por tudo isso que eu falei, tem avançado na destruição do País.

PB Agora – E qual é o resultado disso?

Ricardo Coutinho – Eu não tenho a menor dúvida de que, se o governo Bolsonaro terminasse hoje, os efeitos dessa destruição no interior de cada pessoa seria ainda bastante longeva; uma longevidade expressiva que vai causar muito mal à nação.

PB Agora – E para onde estamos caminhando?

Ricardo Coutinho – Penso eu que nós estamos caminhando, para duas situações: uma que é a tentativa de destruição determinada do patrimônio público; da Educação, das políticas do SUAS (Política Nacional de Assistência Social), destruição do Sus – ainda com pouca visibilidade, porque de fato é a política mais antiga que temos. O Sus é a principal política que nós temos. Porque ela foi construída de muito tempo. Não foi uma construção do PT ou da esquerda; ela vem desde antes da Constituição, com as ações integradas de saúde, por isso. é mais difícil de ser desmontada. Mas na Educação, ensino superior, nas políticas de assistência social, de equidade de gênero, e na economia. Nós vamos ter uma entrega do poder nacional muito forte para o estrangeiro, particularmente para os Estados Unidos; nós vamos ter turbulências enormes com parceiros. Agora mesmo temos ai um navio do Irã que não consegue ser abastecido, para levar 100 mil toneladas de milho que comprou aqui, porque o governo atual do Brasil tem medo dos Estados Unidos. Ou tem medo ou concorda com aquele tipo de procedimento de fazer bloqueio comercial. O Irã é o segundo maior consumidor de milho do Brasil. Imagina a importância de um País como esse, e não poder tirar a carga por total submissão do governo. Isso é algo de terrível, que estamos vivendo. E acho que vamos ter também uma ressignificação à resistência.

PB Agora – Isso significa o quê?

Ricardo Coutinho – Significa o retorno de movimentos sociais híbridos, de formas que a gente talvez ainda não tenha presenciado, porque a resistência do movimento sindical tem um determinado limite por causa do alto desemprego, com suas lideranças muito antigas. Então você vai ter outro tipo, e acho que essa resistência passa pela educação. Então é preciso dar vasão à Educação. É preciso que as nossas instituições tenham coragem de enfrentar isso que está aí. Eu me refiro aos reitores, aos professores. Acho que nós vamos ter turbulências que são benéficas, porque advirão de choques, onde haverá reação a esse tipo de destruição do patrimônio.

PB Agora – Qual será o futuro do Brasil?

Ricardo Coutinho – Não sei, porque o futuro com Bolsonaro é incerto. Bolsonaro desperta nas pessoas os piores sentimentos.

PB Agora – Mas, será que ele terá apoio suficiente da sociedade?

Ricardo Coutinho – É assustador a diminuição o apoio dele, em tão pouco tempo. E a perspectiva e construção dele é de se voltar cada vez mais para o núcleo fundamentalista dele: militar, o evangélico mais fundamentalista. Ele cada vez fica menor, pelo que pensa e pelo que expressa. E isso é perigoso, porque alguém que não entregará o poder tão facilmente, como o PT entregou.

PB Agora – Qual foi o maior erro do PT? Por que o PT entregou tão facilmente?

Ricardo Coutinho – Eu participei desses últimos momentos aí, de forma muito presencial. Eu disse a presidenta Dilma que achava que ela deveria ter resistido combatendo, no caso o Congresso e o empresariado; o partido, como partido maior, tinha que ter resistido fazendo o combate; ou no mínimo ela tinha que ter resistido dentro do próprio governo, nem isso fez. O governo cheio de traidores e ela não fez uma mudança. Eu propus inclusive negociar com parlamentares. Fiz ponte com parlamentares para apoiar o governo em troca de participação, para não entregar o poder. A entrega do poder era algo que traria tudo isso que trouxe. Estava claro que nós cairíamos nesse abismo social, político, a criminalização da política etc. E o maior erro foi não ter tido coragem para resistir. Claro que a resistência não podia ser de uma pessoa, no caso a presidenta. Mas, eu vi no Palácio da Alvorada, pessoalmente, diversas cenas em que não existia governo, não exista um assessor jurídico para orientar; não tinha participação de ministro, tudo correndo com medo, traindo, e a presidente não trocava. Ora, quer derrubar derrube, eu dizendo que você não fica aqui dentro.

 

Ricardo Coutinho: “Vivemos a era da estupidez; o futuro do Brasil é incerto e Lula será o fator de paz social” – PARTE 2 

 

 

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