PB Agora – O senhor não tinha receio de sofrer desgaste político com determinadas posturas, para atingir a estes objetivos?

Ricardo Coutinho –Eu não quero ser um pela metade. Eu, acreditando na política pública, eu banco. E eu banquei vários desgastes como este. Na Saúde, na Educação. Como socialista, que me considero, banquei a discussão sobre as OSs. Não era privatização. Era tornando algo mais público aquilo que não era verdadeiramente público porque não funcionava. E eu venci esse debate. Havia acusação de que aquilo era neoliberal. Neoliberal é outra coisa, é restringir o público, privilegiando quem tem mais poder econômico. Aquilo ali, não. Eu estava organizando uma escola para o professor dar aula, para se estudar. Agora, a goteira, a iluminação, o lixo, a contratação de pessoal que era toda ilegal, isso passou a ser problema de uma empresa chamada OS, da qual cobrava: se não fizer, não recebe. Agora, cuide da parte pedagógica, e exija a parte estrutural. Eu banquei porque sabia que funcionaria melhor. Em alguns momentos fui duro porque precisava ser duro naquilo em que eu acredito.

PB Agora – O senhor abriu mão de disputar uma candidatura de senador em que, segundo todos os prognósticos, teria uma cadeira garantida no Congresso, até com uma votação histórica, considerando os seus índices de aprovação popular. Ficou no governo para ajudar a eleger o seu sucessor, uma bancada forte na Assembleia Legislativa, e até mesmo eleger um senador. Qual o seu relacionamento hoje com o governador João Azevedo?

Ricardo Coutinho – A minha relação administrativa com João (governador João Azevedo) é quase nenhuma.

PB Agora – O senhor não interfere em nada?

Ricardo Coutinho – Não e nem sou chamado. Porque é o tipo da coisa: Marcia Lucena (prefeita do Conde) me chama pra conversar. Porque é minha função, eu estava ontem la. Eu não ganho nada com isso, mas é o meu alimento da política. Vou lá conversar, vou dar palpite, foi aprender. As pessoas me chamam. O PCdoB me chamou para um debate em São Paulo. Eu vou lá debater a conjuntura. Não é meio de vida, é meio de vivência. Não há um recebimento de nada. Como Governador de Estado, para a surpresa de muitos, eu não tenho nenhuma interferência administrativa. Nas vezes que fui demandado tentei contribuir, mas demandado sempre em crises, não em projeções, em programas.

PB Agora – Estaria mesmo havendo um afastamento entre o senhor e o seu sucessor, João Azevedo?

Ricardo Coutinho – Não. Há um respeito, porque só posso me incluir num espaço quando sou chamado. Eu respeito isso. Eu não posso estar extrapolando o meu limite.

PB Agora – Mas o senhor tem alguma queixa de João Azevedo? Essa história que circula, de rompimento político entre o senhor e João Azevedo, existe ou é invenção?

Ricardo Coutinho – Eu só discuto política pública. A política eu discuto, porque eu sei o trabalho que deu tirar a Paraíba daquela situação, de poder concentrado, para poder chegar essa outra aqui, de indiscutível reconhecimento nacional. Eu sei o trabalho que deu; sei das disputas que tivemos que fazer; as disputas com deputados. E disputas normais, que eu tinha que fazer, porque senão a coisa não se sustentava. Eu governei quatro anos com minoria (na Assembleia Legislativa), mas nem por isso eu chiei, nem por isso fiz diferente. Eu governei com minoria, mas poderia ter governado com maioria se eu não quisesse fazer o que queria e tinha que fazer. Mas eu tenho um caminho, que foi o caminho em que a população votou. Ela votou em 2014 e em 2018. A população disse “eu estou satisfeita com o que está acontecendo, e quero que o Estado continue aqui; quero que as relações políticas sejam, em linhas gerais, dessa forma”. Então, é claro que se acontecer qualquer forma de retrocesso, eu me sinto no direito e no dever de me pronunciar.

PB Agora – Mas o Sr. acha que está acontecendo um retrocesso?

Ricardo Coutinho – Não. Eu estou dizendo “se” acontecer. Eu tenho que ter muito cuidado com essas respostas. Eu me pronunciei com relação ao G10, expressei a minha opinião. Por que é que tem gente que antes era de uma forma comigo, e agora… Antes não tinha G10 e agora tem G10. Por que isso? Qual a razão?

PB Agora – Para o senhor o G10 é o que?

Ricardo Coutinho – Eu acho que você ou é governo, ou é oposição. Eu não gosto muito desse tipo de postura. E não estou fazendo críticas. Eu tenho grandes amigos lá. Tem gente que é bacana. E não estou personalizando a discussão, não é nada disso. Estou apenas dizendo que antes não havia esse tipo de coluna do meio, ou, entre aspas, independente. Independente de quê? Ou é lá ou é cá. Não havia isso. Ai eu fui dar uma opinião dizendo que não queria essa relação. Isso não é ter menos diálogo, porque o diálogo é um souvenir que alguns usam.

PB Agora – Mas lhe acusam de não ter diálogo.

Ricardo Coutinho –Eu sou, na história da Paraíba, o governador mais democrático que este Estado teve. Não porque eu seja bonzinho, mas porque nenhum outro governador dialogou tanto quanto eu dialoguei. Só não dialoguei nessas esferas. Eu não fui bonzinho para quem tem muito poder, e mau para quem não tinha poder nenhum. Eu botei quem não tinha poder para ter vez, ter voz, ter melhor assistência, para ter mais poder real. O poder real não é você sentar na cúpula e a cúpula achar você bacana. Eu quero é que o cara lá de baixo, mesmo sem achar você bacana, mas que ele se sinta cidadão, se inclua nas coisas. Essa é a questão central, e isso é democracia. Democracia não é alimentar as cúpulas. É olhar para quem não tem poder nenhum, e eu fiz isso. As ações que fiz foi para empoderar quem não tinha poder. Observe, em cada coisa que foi feita.

PB Agora – Que avaliação o senhor faz dos seis primeiros meses de gestão do governador João Azevedo? Está dentro das suas expectativas?

Ricardo Coutinho – Eu acho que, evidentemente, João entra pra governar sucedendo um governo, indiscutivelmente, com uma aprovação muito alta. Dinheiro em cofre. Eu deixe quase R$ 300 milhões, para ter como reserva. Evidentemente não quero que João (Azevêdo) tenha as mesmas posturas minhas; ele mesmo diz que somos completamente diferentes. Mas, politicamente, a população votou claramente na continuidade, no projeto. Votou numa relação do governo com os demais Poderes; votou na relação do poder público com a sociedade, votou nisso. Isso é indiscutível. Nós somos diferentes, mas quero demais que ele acerte. Quero demais que esse projeto se torne mais forte, mas para se tornar mais forte – isso não é subjetividade, tem critérios objetivos – é preciso continuar tendo relações republicanas; continuar construindo com o Poder Legislativo, com o lucro da política algo que esteja à altura da população. Nós temos uma população pobre, que estava começando a ter essa primavera democrática, essa coisa de participação; de conselhos, de participação em orçamento. Eu estou a disposição para contribuir, para falar e defender. Mas com o projeto continuando nessa linha.

PB Agora – O senhor acha que João Azevêdo pode estar sofrendo influências de pessoas interessadas em afastá-lo do projeto?

Ricardo Coutinho – Sem dúvida nenhuma. A tentativa de algumas pessoas fazerem isso é óbvia. Isso já presenciei antes e hoje. Essa é a lógica do poder. E gente que foi apadrinhada por mim.

PB Agora – Mas o senhor percebe João Azevedo se distanciando do senhor?

Ricardo Coutinho – Acho que todo mundo é susceptível, de alguma forma ou de outra a esse tipo de influência: “Olha, rapaz, você pode ser maior do que cicrano, por que é que você tá na sombra?”. Isso mexe com as nossas vaidades. Não sei qual a reação de João Azevêdo em relação a isso. Agora, tem esse processo ao redor dele.

PB Agora – O senhor tem dialogado com ele? Ele lhe consulta? Conversam?

Ricardo Coutinho – Não. Administrativamente eu nunca fui consultado para absolutamente nada.

PB Agora – E politicamente?

Ricardo Coutinho – Em algumas crises, sim. Em alguns momentos, como por exemplo, sobre a intervenção no Hospital de Trauma. A intervenção era para eu ter feito, porque eu queria fazer a intervenção no hospital. Só que, no final do governo, eu particularmente que abri mão de tudo. Eu também não sou bobo e avalio que tinha uma eleição garantida para o Senado.

PB Agora – O senhor decidiu não disputar uma vaga de senador em nome do projeto de  Governo, do PSB?

Ricardo Coutinho – Eu tinha uma dúvida de como seria a eleição para governador. Eu achava que a Paraíba com mais oito anos dessa forma, tratando bem o dinheiro público, melhorando o serviço público, fazendo investimento, seríamos um Estado excepcional. Até o semiárido, que é o grande desafio. E o caminho está ai. E eu preferi isso.

PB Agora – Se hoje o senhor tivesse um conselho político e um conselho administrativo a dar a João Azevêdo, quais seriam?

Ricardo Coutinho – Seria: preserve os companheiros; preserve quem botou a cara de fora; preserve quem militou nessas causas. Essa coisa é muito importante. Se blinde. Eu também me blindei. Eu me blindo. Eu filtro tudo. Se blinde de interferências que não sejam muito coerentes com todo o processo que o levou a estar onde está. Eu não estou fazendo reclamação, estou falando subjetivamente, hipoteticamente.

PB Agora – E se o candidato não tivesse sido João Azevêdo?

Ricardo Coutinho – Eu disse uma coisa para o governador João, depois da eleição e antes da posse: João, se você não tivesse sido o candidato, fosse outro, nós teríamos ganhado a eleição. A gente ganhava a eleição; todos os indicadores apontavam isso, desde o momento em que se dizia que João era conhecido apenas por dois por cento dos eleitores. Eu só fazia rir. Vão votar no projeto e se botar qualquer um ganha.

PB Agora – E por que o senhor escolheu João Azevêdo?

Ricardo Coutinho – Eu disse: João, se não fosse você seria um outro, mas você é considerado um construtor do projeto. Então, você teria o direito natural de permanecer. Como você, outros são construtores. Essa coisa é fundamental. Não é ceder uma parte da imprensa que dizia “que governo é esse que não tem novidade nenhuma”. A população não votou em novidade, votou em continuidade. Eu escolhi João, porque acho ele um gestor competente, e acho que ele tem a condição de conduzir o projeto, como outros companheiros tinham.

 

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Ricardo Coutinho compara Calvário à Lava Jato: “Vejo gente acusada de corrupção que não tem dinheiro nem para fazer a feira” – parte 3

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