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Política, futebol e religião

Diz certa regra do bem viver que três coisas não se discutem: política, futebol e religião. Justamente três assuntos que todo mundo adora discutir. Uma análise inicial, superficial, diria que são temas completamente distintos, já que, em tese, política requer razão, futebol envolve paixão e religião implica em fé. Ocorre, porém, que a tese, na prática, não se sustenta. Aos fatos:

Quão racional é nossa política? Qual racional é o eleitor? A forma como lidamos com nossos candidatos preferidos está mais para uma relação apaixonada, no modelo torcedor – time de futebol, que para um processo sensato, de análise, reflexão e cidadania. Lá está o sujeito, pai de família, em frente à televisão na noite de domingo, ladeado pela mulher e os filhos, empunhando bandeiras, roendo unhas, vez por outra xingando, vez por outra esfregando as mãos, até que, finalmente, o grito, a explosão, a alegria, êxtase! Festa no barraco! O Brasil ganhou a Copa do Mundo? Que nada! O candidato “da casa” foi eleito.

Amanhã tudo volta ao normal. O lixo nas ruas, a escola caindo aos pedaços, o ônibus lata de sardinha, a taxa Selic mais alta do planeta, o SUS rimando com cruz, a bala perdida achando as pessoas, o preço da carne sangrando o consumidor… Mas o pai de família está contente. O candidato “dele” venceu. Vai zombar do colega, que votou no perdedor. “Como a pessoa vota num candidato, sabendo que ele vai perder?”, sorri. É assim, segunda-feira depois de eleição é igual segunda-feira de campeonato que o time do coração vence. Na prática, nada muda, mas a gente sente aquela alegria besta, porque torcemos por quem ganhou.

Não tem nada a ver com o entendimento de que venceu quem tinha a melhor proposta, o melhor programa de governo. Muito pouca gente – mesmo entre os chamados instruídos – reflete assim realmente. Importa que venceu o candidato “da gente”, que a gente torce. E por que torce? “Porque é o melhor”. E por que é o melhor? Aí são outros quinhentos. “É o melhor porque é, pronto!” Não tem uma explicação, é gosto, afinidade, paixão onde deveria haver razão. A confusão é tamanha que, assim como tem torcedor idiota que bate e apanha, mata e morre por causa do clube preferido, toda eleição tem gente se estapeando por causa de político.

E a religião? Muito poderíamos dizer, mas, basta lembrar que, assim como tem fiel que deposita fé cega em determinado credo, quanto eleitor crê no seu candidato do coração mesmo quando tudo recomenda o contrário. Ademais, tanto quanto a imoralidade de muitos homens, em nome da religião, acaba por provocar a incredulidade em alguns, a corrupção da política redunda numa crescente descrença na democracia.

É preciso separar sensações, sentimentos, razão, paixão, credulidade inabalável. Do contrário, em breve, apostataremos todos da fé em uma democracia que funcione. Se, ao invés de nos portarmos como eleitores, cidadãos responsáveis, fizermos da política um jogo e agirmos como torcedores fanáticos, tenhamos uma certeza: o campeonato da vida real será um contínuo rebaixamento.

 


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