Você conhece a história do balão? Certa vez, enquanto se relatava um caso de violência cometido por uma autoridade contra uma mulher, um assessor interrompeu: “Eita, olha o balão!”. Todos desviaram a atenção para o balão e ignoraram a denúncia. A expressão resume bem a estratégia de tirar o foco do que importa para direcioná-lo ao que é banal ou menos relevante.
A expectativa em torno do pronunciamento do influenciador Felca ilustra essa lógica. Não que o que ele tenha dito não seja importante, mas a questão é a dimensão que o assunto ganhou diante do atual momento político. Em um cenário de polarização e disputa eleitoral, criou-se uma expectativa que parecia anunciar algo capaz de impactar a coletividade, mas que acabou concentrando a atenção em uma questão de alcance mais individual.
Não se trata de desumanizar ou diminuir a importância de questões pessoais. O ponto é outro: enquanto uma sociedade inteira está sob tensão, precisamos refletir sobre o que ganha destaque e por quê. O balão, nesse momento, não está em jogo.
Na Paraíba, pouco antes do primeiro turno, dois políticos adotaram estratégias semelhantes. O deputado estadual Sargento Neto (PL), bolsonarista, prometeu uma declaração que, segundo ele, poderia abalar as estruturas da campanha. No fim, anunciou apenas que faria um adesivaço para impulsionar a candidatura que já apoiava.
Não houve novidade. Era o óbvio em sua forma mais descarada.
Uma semana depois, o então candidato ao governo da Paraíba Cícero Lucena (PP) também prometeu um pronunciamento bombástico. Interrompeu a campanha para anunciar que instalaria um gabinete de crise na segurança pública caso fosse eleito. Uma proposta que poderia facilmente ter sido apresentada nos guias eleitorais ou em uma entrevista à imprensa ganhou ares de grande acontecimento. Mais uma vez, a expectativa teve mais relevância do que o conteúdo.
Foi assim com Sargento Neto, com Cícero e, agora, com Felca: o anúncio mobiliza, desperta curiosidade e ocupa o debate, mesmo quando o conteúdo não corresponde à dimensão da expectativa criada.
Por que criar tanta expectativa e entregar tão pouco? Lamento que a comunicação esteja tomando esse rumo. É triste ver a construção do suspense se tornar, muitas vezes, mais importante do que a informação em si.
Em Amusing Ourselves to Death (Divertindo-nos até morrer, em tradução livre), o teórico da comunicação Neil Postman analisa como o entretenimento pode dominar o discurso público, transformando assuntos importantes em espetáculo. A reflexão permanece atual: quando a forma se sobrepõe ao conteúdo, corremos o risco de olhar para o balão enquanto aquilo que realmente importa passa despercebido.
