Reduzir a escolha política de milhões de brasileiros a uma suposta falta de instrução é um dos equívocos mais recorrentes do debate público. Essa narrativa, além de desrespeitosa, ignora a realidade de regiões que se destacam justamente pela produção de conhecimento, pela tradição intelectual e pela contribuição à ciência brasileira. A Paraíba, e em especial Campina Grande, representa um dos exemplos mais eloquentes dessa contradição.
Campina Grande consolidou-se como um dos principais polos científicos e tecnológicos do país. A Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) reúne programas de pós-graduação reconhecidos nacional e internacionalmente, enquanto a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) contribui de forma significativa para a pesquisa, a formação de profissionais e o desenvolvimento regional. A cidade tornou-se referência em áreas como Engenharia Elétrica, Ciência da Computação e Ciência e Engenharia de Materiais, atraindo pesquisadores, estudantes e investimentos em inovação.
Esse cenário desafia a ideia de que determinadas escolhas eleitorais decorrem da desinformação. Uma sociedade que convive diariamente com universidades, centros de pesquisa e produção científica demonstra que o acesso ao conhecimento é parte de sua identidade. É natural que cidadãos inseridos nesse ambiente analisem diferentes projetos políticos a partir de suas experiências, valores e expectativas, chegando a conclusões que podem divergir das preferências de outros grupos.
Também é importante reconhecer que as relações entre educação, renda, cultura e comportamento eleitoral são complexas. Não há evidências de que inteligência, escolaridade ou capacidade crítica determinem, por si sós, uma preferência política específica. Democracias saudáveis pressupõem que pessoas igualmente instruídas possam defender visões diferentes sobre o papel do Estado, da economia e das políticas públicas.
A Paraíba ainda carrega uma herança cultural que reforça sua vocação intelectual. O estado é terra de nomes como Celso Furtado, um dos economistas mais influentes do Brasil; Ariano Suassuna, referência da literatura e da cultura nacional; Augusto dos Anjos, um dos maiores poetas brasileiros; e José Lins do Rego, autor fundamental do regionalismo. Esse patrimônio demonstra que o pensamento crítico e a produção de ideias fazem parte da história paraibana.
Desqualificar o voto de milhões de nordestinos, portanto, não fortalece o debate democrático. Pelo contrário, substitui argumentos por preconceitos e estereótipos. O voto é resultado de múltiplos fatores — experiências de vida, convicções, prioridades e avaliações sobre propostas e governos — e merece ser tratado com respeito, independentemente do candidato ou partido escolhido.
Em uma democracia, a divergência é legítima. O que não se pode aceitar é a tentativa de transformar diferenças políticas em acusações sobre a inteligência ou a dignidade de quem pensa diferente. O Nordeste, e a Paraíba em particular, têm uma história construída pela educação, pela cultura e pela ciência. Reconhecer essa realidade é um passo essencial para elevar a qualidade do debate público e fortalecer o respeito entre brasileiros com diferentes visões de país.
Como ensinou Max Weber, a política exige responsabilidade e racionalidade. O respeito ao voto começa pelo reconhecimento de que, em uma sociedade plural, divergências políticas não medem inteligência; revelam diferentes concepções sobre o futuro coletivo.
