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Jair Bolsonaro: o nome que você conhece

A vida, às vezes, imita a arte. E é justamente por isso que aquela velha frase continua atual: quem não conhece a história corre o risco de repeti-la.

Na política, o nome pode ser uma marca. Pode carregar identidade, memória, paixão e, principalmente, reconhecimento. E parece ser justamente nesse terreno que Jair Renan Bolsonaro decidiu jogar mais uma vez.

O filho 04 do ex-presidente Jair Bolsonaro registrou sua candidatura a deputado federal em Santa Catarina usando nas urnas um nome que dispensa apresentações: Jair Bolsonaro.

Não é a primeira vez. Em 2024, quando disputou uma vaga de vereador em Balneário Camboriú, Jair Renan já havia utilizado o nome do pai como identificação eleitoral e acabou eleito com 3.033 votos.

Agora, a estratégia volta à cena em uma eleição maior. A pergunta é inevitável: até que ponto o eleitor vota no candidato e até que ponto vota na força de um nome que já conhece?

E aqui entra a arte.

Em 1992, o filme “Um Distinto Cavalheiro” apresentou uma história que parece ganhar um curioso eco décadas depois. Na comédia estrelada por Eddie Murphy, um vigarista chamado Thomas Jefferson Johnson percebe o poder de um nome conhecido – Thomas Jefferson – e se aproveita de uma coincidência para chegar ao Congresso americano com o slogan, vote em Thomas Jefferson – o nome que você conhece.

A trama gira justamente em torno da força que um nome pode exercer sobre o eleitor.

Na ficção, a estratégia era explorar a confusão e o reconhecimento do nome. Na realidade brasileira, Jair Renan não precisa de coincidência: ele é, de fato, filho de Jair Bolsonaro. A identificação entre os dois é explícita e conhecida.

É aí que a comparação fica interessante — e provocativa.

Não se trata de dizer que Jair Renan está reproduzindo o personagem do filme ou que sua candidatura tenha qualquer ilegalidade. A legislação permite que o candidato utilize nome de urna diferente do nome civil, desde que aprovado pela Justiça Eleitoral.

Mas política também é comunicação. E escolher “Jair Bolsonaro” em vez de simplesmente “Jair Renan” não parece ser uma decisão neutra do ponto de vista eleitoral. É uma escolha que coloca o nome e o sobrenome Jair Bolsonaro em letras garrafais na frente do eleitor.

O candidato sabe que há um patrimônio político associado ao nome. Sabe que há milhões de brasileiros que reconhecem a marca Bolsonaro instantaneamente. E sabe também que, em uma eleição, poucos segundos podem separar um nome desconhecido de um nome que já chega carregado de significado.

É o poder da marca política.

Jair Renan tenta, portanto, transformar o sobrenome do pai em identificação eleitoral. Não precisa explicar quem é, o que fez nem o que pretende fazer. O nome explica por ele.

E talvez seja justamente por isso que a escolha desperte a lembrança de “Um Distinto Cavalheiro”. No filme, um nome conhecido abre as portas do poder. Na vida real, o sobrenome conhecido pode abrir caminho para uma urna.

Coincidência?

Talvez.

Mas, quando a arte parece conversar tanto com a realidade, a pergunta fica no ar: qualquer semelhança será mera coincidência?

E por que eu, uma jornalista da Paraíba, estou comentando uma eleição de outro Estado?

É simples: porque isso pode acontecer em qualquer lugar.

A gente não se informa apenas pelas “tias do zap”. Informação também está nos meios de comunicação, nos filmes, nos livros, nos documentários e, principalmente, na história que já aconteceu — e que continua nos ensinando quando nos damos ao trabalho de conhecê-la.

É preciso se informar mais para recuperar o senso de realidade. Para entender o que está acontecendo ao nosso redor e, principalmente, para não cair naquilo que os antigos chamavam de sofomania.

Sofomania é a pretensão de saber tudo, de falar sobre tudo e de se considerar especialista sem ter conhecimento suficiente sobre o assunto. É quando a pessoa troca a curiosidade pelo achismo e a informação pela certeza sem fundamento.

E isso pode ser perigoso — e também vergonhoso para a nossa própria história.

Porque uma sociedade que deixa de conhecer o passado fica mais vulnerável a repetir seus erros, suas farsas e até os velhos truques apresentados como novidades.

Enfim,

“O verdadeiro conhecimento consiste em saber que nada sabemos.”


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