O presidente Jair Bolsonaro se encontrou com o bispo Edir Macedo, na semana passada, em compromisso fora da agenda, fortalecendo o vínculo entre o Planalto e evangélicos. Na história recente do país, outros chefes do Executivo também se aproximaram de líderes religiosos. A novidade é que, no caso de Bolsonaro, além do aconselhamento, há a busca pela validação do discurso presidencial nesse grupo.

Após uma varredura nas redes sociais de Bolsonaro, percebe-se que o eleitor pesselista trata o presidente como um enviado de Deus, escolhido de maneira quase santificada para governar o país. Às vésperas da nova cirurgia, realizada neste domingo (8/9), para a correção de uma hérnia, decorrente de outras cirurgias devido à facada durante a campanha, seguidores relembram o ataque ao presidente e se referem ao episódio como uma espécie de redenção. Evangélicos aumentaram a representatividade na gestão Bolsonaro e, nas últimas pesquisas, 46% dos que seguem a religião acha que o governo é bom ou ótimo, segundo o Datafolha.

Na contramão dos evangélicos, estão os ateus: 76% dizem que o governo é ruim ou péssimo. Assim, os números gerais de aprovação (29%) e de rejeição (38%), em um cruzamento de projeções, aumentam o peso dos ateus no debate. Bolsonaro esteve em pelo menos três cerimônias oficiais do grupo religioso, como o Dia Nacional do Evangélico, na Câmara dos Deputados, e, desde janeiro, visitou diversos centros religiosos do país em busca de apoio. O último encontro ocorreu domingo retrasado, com o bispo Edir Macedo, no Templo de Salomão, em São Paulo.

“Tenho conversado com líderes religiosos em todo o Brasil, é algo comum”, declarou o presidente, que sempre fala de Deus em seus discursos e manifestações nas redes sociais. Em casa, Bolsonaro também é tratado como o eleito de Deus, estendendo o discurso nos encontros com os filhos. Mas o tema religião também esteve no Planalto em gestões passadas. “Estado e Igreja sempre foram aliados no império e na República. Vejo Bolsonaro fazer uma concordata para proteger o mundo evangélico e vice-versa. A novidade aqui é essa nova vertente religiosa firmar um acordo para se proteger”, explica Sérgio Coutinho, especialista em história do cristianismo e professor do Departamento de História da Faculdade União Pioneira da Integração Social (Upis) de Brasília.

O especialista enumera exemplos da relação entre o Executivo e a igreja Católica: “Na época de Fernando Henrique Cardoso, o governo federal interveio para apoiar a Pastoral da Criança no combate à desnutrição. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva firmou acordo com o Vaticano, o Brasil Santa Fé, que fez uma série de ajustes jurídicos de proteção ao patrimônio da igreja”. A tendência, segundo ele, é que grupos liberais comecem a romper com a direita olavista e bolsonarista rumo à sociedade religiosamente democrática”.

Integrante da equipe da Igreja Universal, um especialista em história religiosa ouvido pelo Correio disse que, no Brasil, embora a proximidade entre igreja e Estado seja real, tende a ter limites tanto no catolicismo, quanto entre os evangélicos, porque existe a premissa de que o Estado é laico, ou seja, representa todas as religiões e as pessoas sem religião. “Na Argentina, há gabinetes do governo que só cuidam de questões relacionadas à igreja. O Brasil nunca fez nada desse tipo, mas fica o mal-estar porque trata-se, na verdade, do crescimento de uma religião alheia à igreja católica”, conta o estudioso, que prefere não se identificar.

O último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, aponta um encolhimento de 12,2% entre os católicos. Foi a primeira vez que o Censo detectou uma queda em números absolutos. O estudo mostra a diminuição acentuada de poder da Igreja Católica, e uma mudança lenta. Em 1970, havia 91,8% de brasileiros católicos. Em 2010, a fatia passou para 64,6%. Quem mais cresceu, conforme aponta o levantamento, foram os evangélicos: saltaram de 5,2% da população para 22,2% em 40 anos.

 

Redação com Correio Braziliense

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