A oficialização de Diogo Cunha Lima neste 27 de abril como pré-candidato a vice-governador reacende um debate que Campina Grande conhece bem: afinal, o que credencia alguém a representar a cidade — a história ou a presença?
Diogo recorre ao argumento clássico: “cresci aqui, estudei aqui”. É legítimo. Campina não se apaga da biografia de ninguém. Mas, em política, memória afetiva não pode substituir compromisso atual. A cidade que molda também cobra presença, posicionamento e participação nos seus desafios cotidianos.
O ponto mais delicado não está nem em Diogo isoladamente, mas no contexto. Seu nome surge como solução interna de um grupo político após a saída de Pedro Cunha Lima, que, por sua vez, já admitiu estar distante da realidade campinense há 14 anos.
Eis a declaração emitida em outubro do ano passado: “Mas, de fato, trago algo que realmente é a minha realidade de que não estou lá. Sou filho de Campina com muito orgulho, nasci no Hospital da Fap, mas eu moro em João Pessoa desde os meus 14 anos. Então, eu tenho uma outra realidade na minha vida”, declarou à época ao ser questionado sobre a gestão Bruno
Isso enfraquece o discurso de pertencimento que agora se tenta reconstruir.
E aqui está a pergunta que inevitavelmente ecoa: Campina precisa de representantes que foram da cidade ou que são da cidade hoje?
Enquanto isso, outras lideranças locais — goste-se ou não delas — mantêm atuação direta, enfrentam críticas, participam da gestão e estão inseridas no dia a dia da população. Isso pesa. Em política, presença contínua costuma falar mais alto do que lembranças do passado.
Outro ponto que incomoda parte do eleitorado é o silêncio. Se há um grupo político com raízes profundas em Campina, por que a pouca disposição em se envolver diretamente nos problemas da gestão local? A ausência de posicionamento, especialmente em momentos críticos, acaba sendo interpretada como distanciamento — e não como estratégia.
É evidente que o sobrenome Cunha Lima tem força. Carrega legado, história e capital político. Mas também traz um desafio: provar que esse capital não é apenas hereditário, e sim renovado na prática.
Diogo chega com o peso desse nome — e com a responsabilidade de mostrar que não é apenas continuidade automática de uma tradição. Precisa demonstrar que há mais do que herança: há projeto, presença e compromisso real.
Porque, no fim das contas, Campina Grande não é apenas um lugar onde se nasceu ou estudou. É uma cidade viva, exigente, que cobra de quem quer representá-la algo simples — e difícil: estar presente de verdade.
