Foi do Nordeste que saíram 46,52% dos votos de Fernando Haddad. Embora a região tenha sido fundamental para levar o candidato petista ao segundo turno, especialistas afirmam que o peso dos nove estados, que concentram 26,6% do eleitorado do país, é insuficiente para virar o jogo no pleito de 28 de outubro. A avaliação de cientistas políticos é de que o ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, uma figura pouco conhecida entre os nordestinos, já herdou a parte que lhe cabia dos eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva.

 

“Para a Dilma Rousseff ser projetada em 2010, o Lula criou um programa para ela, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), a chamou de ‘mãe do PAC’ e viajou com ela pelo país inteiro. Mesmo assim, com a economia ultraimpulsionada na época e sem o desgaste político de hoje, ela não conseguiu vencer no primeiro turno”, compara o cientista político Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice. “Fernando Haddad não é popular e, como o PT não está no segundo turno na maioria dos estados do Nordeste, a campanha naturalmente se desmobiliza, já que manter a estrutura de campanha é algo muito custoso”, diz. Na região, o partido disputa o segundo turno apenas no Rio Grande do Norte, onde Fátima Bezerra obteve 46,17% dos votos, contra 32,45% de Carlos Eduardo,  do PDT.

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Na avaliação do cientista político César Alexandre Carvalho, da CAC Consultoria Política, caso o ex-governador da Bahia Jaques Wagner tivesse sido indicado pelo partido para disputar as eleições presidenciais, o cenário poderia ser outro na região. “Ele tem um histórico no Nordeste, tem carisma. Haddad não tem luz própria e a capacidade de transferência de voto para ele na região se esgotou”, observa. O especialista acredita que, nas três semanas que restam antes da eleição do segundo turno, uma estratégia que favoreceria o petista seria afastar da campanha figuras associadas à ala mais radical do partido, como o senador Lindberg Farias (PT-RJ), não reeleito, e a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffman, eleita para a Câmara Federal pelo Paraná, e se aproximar de petistas mais carismáticos, como Jaques Wagner.

 

Sem concentração

 

Leonardo Paz Neves, cientista político e especialista do Instituto Millenium, ressalta que a votação de Jair Bolsonaro (PSL) no Nordeste foi expressiva, mesmo perdendo de Haddad nos nove estados. Para ele, nenhum dos dois candidatos deve se concentrar em regiões, mas buscar, em todo o país, os eleitores que nem gostam do PT nem simpatizam com o discurso radical do capitão da reserva, e que optaram por candidatos mais ao centro no primeiro turno. “O eleitor do Ciro Gomes (PDT) deve migrar para Haddad. A briga com Bolsonaro é por quem votou em Alvaro Dias (Podemos), Amoêdo (Novo), Alckmin (PSDB), Meirelles (MDB) e até Marina (Rede)”, acredita.

 

Na avaliação de Neves, para abocanhar esses eleitores, os dois terão de ceder. Bolsonaro precisará abrandar o discurso polêmico dirigido especialmente a grupos identitários — mulheres, negros, comunidade LGBT. “Ele tem de dar alguma garantia de que não haverá perseguição e que a agenda progressista não será colocada de lado”, diz. Já Haddad, segundo o cientista político, deve tentar se aproximar do centro. “Para isso, vai precisar estender a mão para o Alckmin, trazer o Meirelles, se desvincular da agenda radical do PT”, diz, admitindo que, nesse caso, a briga interna no partido será “duríssima”.

 

Embora também considere que nenhuma região tem peso para decidir as eleições, Cristiano Noronha, da Arko Advice, acredita que, para ganhar mais votos no Nordeste, Fernando Haddad precisa impulsionar a presença na região. Bolsonaro, que não visitou nenhum estado nordestino durante a campanha, tem de baixar o tom contra as minorias, avalia Noronha. “Acredito que algumas declarações imprudentes do candidato e do aliado dele podem ter tirado do Bolsonaro a vitória no primeiro turno”, diz.

 

 

Redação

 


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