Por pbagora.com.br

Na noite de terça-feira, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) encerrava um discurso contra a impunidade quando, no plenário, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), brincou com a companheira Lúcia Vânia (PSDB-GO): “Vai lá na reunião dos honestos?” Guerra falava do primeiro encontro de trabalho do Movimento pela Transparência (MPT), fundado por deputados e senadores de partidos governistas e oposicionistas.

A brincadeira de Guerra, como sintoma de descrença com esses movimentos e de que as denúncias de Jarbas teriam pouco resultado prático, ganhou outros contornos passadas três semanas das primeiras declarações de Jarbas à revista Veja. Pode-se dizer que a reação inicial repetiu dois fenômenos marcantes da política no governo Lula: denúncias de corrupção provocam muito discurso, mas pouca ação, e os ataques muitas vezes vêm de dissidentes dos próprios partidos governistas e não da oposição.

Apesar desse marasmo, os parlamentares que mais atuam no trabalho para mudar os maus hábitos políticos conseguiram ver o “efeito Jarbas” na derrota do PMDB ao tentar tomar o controle do fundo de pensão Real Grandeza (dos trabalhadores de Furnas e da Eletronuclear) e na exoneração de Agaciel Maia da direção-geral do Senado, cargo que ocupava havia 14 anos – ele não declarou ao Fisco uma casa que pode valer até R$ 5 milhões. A outra vitória pode ser medida pela maneira como a população reagiu às palavras de Jarbas: uma avalanche de mensagens de apoio chegou a seu gabinete.

A criação do Movimento pela Transparência foi o primeiro – e único, até agora – resultado concreto das declarações de Jarbas sobre a presença de corrupção no PMDB. Versão ampliada do antigo Terceira Via, o novo movimento pretende percorrer o País com uma agenda de debates e votações voltada para o combate aos crimes cometidos no poder público. Enquanto isso, mais de 2 mil e-mails chegaram nos últimos 20 dias. Um número oito vezes superior à média de 250 mensagens por mês.

Embora o e-mail tenha se revelado o veículo campeão de manifestações, o parlamentar recebeu cartas, fax, telegramas e telefonemas. Foram mais de 400 ligações nesse período, enquanto a média habitual é de três telefonemas diários. Chegaram ainda ao gabinete de Jarbas cartas datilografadas e mesmo redigidas a mão.

“Não poderia deixar de levar ao senador minhas solidariedade pela sua coragem, sinceridade e patriotismo”, escreveu um eleitor, que já não poderá votar em Jarbas, pois se mudou do Recife para Porto Velho (RO). “Parabéns pela coragem e obrigada pelo alento e sussurro de esperança”, escreveu Rosana Matsushita, assessora de carreiras e professora universitária. Rosana encaminhou a seus alunos a íntegra do discurso do senador como material de reflexão.

DESPREZO

“Lamentavelmente, o efeito produzido é a percepção da tolerância com as coisas erradas. Não vejo efeito no sentido de corrigir os erros. O que disse Jarbas tem de ser apurado”, cobrou o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). Jarbas irritou os peemedebistas ao falar em corrupção sem citar nomes. Os companheiros de partido, porém, preferiram guardar os xingamentos para reuniões internas e, em público, desprezaram as acusações.

O senador pernambucano colheu apoio na oposição – acuada pela alta popularidade do presidente Lula e envolvida em graves problemas internos, como é o caso do PSDB -, enquanto o comando do PMDB apostava no esvaziamento do assunto. Sem algum líder importante atacado diretamente e sem que a sociedade entendesse o real objetivo de Jarbas, a agitação refluiu. Sobrou o Movimento pela Transparência, mas também um balanço que, em retrospectiva, deixa ver que a resistência, ainda que quixotesca, gera resultados práticos.

Na tarde de sexta-feira, Guerra explicou a ironia com os “honestos”, mas apoiou a iniciativa. “Um movimento de caráter moralista não tem futuro. Tem de ter capacidade de interferir objetivamente. Me parece que esse movimento quer ultrapassar essa visão exclusivamente moralista anticorrupção e avançar em temas como a reforma política. Se for assim, isso é bom”, elogiou.

Um dos organizadores do MPT – e também da Terceira Via, que atuou entre 2006 e 2008 -, o deputado Fernando Gabeira não reforça o coro dos que não veem efeitos nas denúncias de corrupção que volta e meia agitam o meio político. “Acho que avança, sim, embora continue sendo espasmódico. Veja a CPI dos Sanguessugas: a grande maioria não voltou ao Congresso”, cita, lembrando a investigação de 69 deputados e 3 senadores acusados de envolvimento em esquema de compra de ambulâncias superfaturadas com recursos da União. Apenas cinco suspeitos foram reeleitos em 2006.

estadao.com.br

Deixe seu Comentário
Notícias relacionadas

Proporção de incentivos para negros estabelecida pelo TSE é analisada por técnica do TRE-PB

A implementação dos incentivos para candidatos negros já nas eleições de 2020 não causará nenhum prejuízo aos partidos políticos é o que garante o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro…

“Apostamos no diálogo político” diz Antônio Barbosa ao ser cotado para vice de RC

O advogado Antônio Barbosa, ex-presidente do diretório do PT de João Pessoa admitiu a possibilidade de ser o nome do PT para compor chapa com Ricardo Coutinho (PSB) na disputa…