Documentos obtidos pela CNN de ação movida por Willer Tomaz contra a Blaze mostram depósitos de R$ 325 milhões e perda líquida de R$ 145 milhões; defesa diz que valor total não foi desembolsado
O advogado Willer Tomaz, investigado pela PF (Polícia Federal) em inquérito que apura suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas e que também envolve o senador e candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, depositou R$ 325 milhões na casa de apostas Blaze entre 2025 e 2026. Ao fim do período, ele teve uma perda líquida de cerca de R$ 145 milhões.
Os dados constam do processo que Tomaz move contra a Blaze no Tribunal de Justiça de São Paulo, que corre sob sigilo e foi obtido pela CNN Brasil. Os registros mostram ainda que, no período, o advogado fez 53.310 apostas, que somaram R$ 6,6 bilhões.
O valor se refere ao volume total apostado. Em jogos online, o mesmo dinheiro é reapostado sucessivas vezes, e cada rodada entra na soma. Do total, R$ 6,41 bilhões, ou 97%, voltaram ao apostador como prêmios, em 33.255 lançamentos.Play Video
A nota técnica do Ministério da Fazenda divulgada na terça-feira (20) apontou R$ 5 bilhões em apostas em 2025, em várias plataformas. O processo obtido pela CNN, que abrange também 2026, registra R$ 6,6 bilhões apenas na Blaze.
O dinheiro que entrou e saiu
Segundo os registros apresentados no processo, Tomaz fez 2.145 depósitos, que somaram R$ 325,3 milhões. Ele pediu 4.068 saques, no total de R$ 266,5 milhões, mas 1.335 deles foram estornados, no valor de R$ 86,2 milhões.
Na prática, o advogado recebeu R$ 180,3 milhões em saques, segundo o documento. A diferença entre o que entrou e o que saiu da conta é de R$ 144,98 milhões.
Na ação, Tomaz argumenta que a plataforma não cumpriu suas responsabilidades e pede indenização de R$ 163,2 milhões. “O processo não detalha a diferença entre o valor pedido e a perda líquida registrada na conta.”
O que diz a Blaze
Na contestação, a Foggo Entertainment, responsável pela Blaze, afirma que o serviço foi integralmente prestado ao apostador e que as apostas foram aceitas e processadas normalmente.
A empresa também contesta os números apresentados pelo advogado. Segundo a Blaze, a tabela mensal anexada por Tomaz termina em março de 2026 e omite abril, junho e julho. Nesses três meses, a plataforma diz ter identificado 35 depósitos, que somam R$ 10,1 milhões. Esse valor corresponde à diferença entre as contas das duas partes.
A Blaze argumenta ainda que Tomaz conhece o setor de apostas e sabia dos riscos ao apostar cifras milionárias. Segundo a empresa, a atuação do advogado na área é também profissional e econômica.
Em julho de 2026, ele confirmou à imprensa ser acionista do fundo que controla a holding dona da empresa que intermedeia pagamentos de casas de apostas autorizadas pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro, e disse prestar serviços jurídicos a ela, mas negou exercer função de gestão.
Investigação da PF
Willer Tomaz, Flávio Bolsonaro e um ex-servidor do STJ (Superior Tribunal de Justiça) são investigados pela Polícia Federal em um inquérito que suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Segundo trechos da investigação, obtida pela CNN, de março a maio do ano passado, uma conta bancária do advogado e empresário movimentou o valor de R$ 130 milhões, “apesar da aparente incompatibilidade com as atividades econômicas conhecidas”, de acordo com os investigadores.
O relatório da PF afirma que a expressividade do montante, somada à curta janela de tempo, reforça a necessidade de aprofundar a apuração sobre a origem dos recursos.
Em relação a Flávio, a investigação aponta que o senador teria dividido uma conta bancária com o advogado. O indício foi encontrado em troca de e-mails entre uma instituição bancária e o escritório de Tomaz. A assessoria de Flávio nega a existência da conta conjunta.
Não há, nos documentos do processo contra a Blaze, menção a Flávio Bolsonaro. A CNN procurou a assessoria do senador, que não se manifestou até a publicação desta reportagem.
O que diz a defesa
À CNN, a defesa de Willer Tomaz afirmou que o valor de R$ 6,6 bilhões não corresponde ao dinheiro desembolsado. Segundo os advogados, os próprios números da Blaze mostram que mais de 97% do volume apostado retornou em prêmios, e a soma de rodadas sucessivas “infla artificialmente o total”.
A defesa diz que o dinheiro usado por Tomaz tem origem lícita, é compatível com seus rendimentos e consta de sua declaração à Receita Federal, e que a ação questiona a responsabilidade da plataforma.
Os advogados afirmam ainda que se trata de assunto estritamente pessoal, já submetido ao Judiciário, e que explorar uma disputa privada às vésperas do segundo turno tem o propósito de interferir no resultado da eleição.
A CNN procurou a Foggo Entertainment, responsável pela Blaze, e aguarda o retorno.
Fonte: CNN
