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Aliados sem prestígio ou governador insensível?

Campina Grande tem uma tradição destacada no Turismo de Eventos. Se o turismo é considerado em todo o mundo a “indústria sem chaminés”, em face dos tributos que gera para determinadas cidades, estados e/ou regiões, em Campina Grande esse fenômeno é mais acentuado.

Com O Maior São João do Mundo – carro chefe dos eventos de Campina – e com os outros que ocorrem num calendário de eventos pré-estabelecido pela Prefeitura local, a geração de receitas acaba se transformando num dos efeitos positivos dessa característica – se não o principal.

Na época do Carnaval, Campina Grande lota seus hotéis, bares, restaurantes, lanchonetes, sorveterias, lojas, etc, não pela festa carnavalesca em si, mas pela união do Carnaval Tradição com os encontros religiosos ocorridos no chamado ‘período momesco’. Desta forma, antes de comentar o que o título acima sugere, é bom que diferenciemos ‘turismo de eventos’ de ‘festas’.

Quando o governador Ricardo Coutinho tomou a decisão, como ele próprio frisa, de ‘não dar dinheiro às festas, este ano’, este conceito não pode ser aplicado aos eventos turísticos de Campina Grande. Primeiro porque, longe do conceito de ‘festas’, os eventos geram empregos, aquecem a economia e, por tabela, engrandecem cultura e turisticamente as cidades, estados ou regiões que os realizam.

A frase que deu título a este comentário foi proferida pelo Secretário de Desenvolvimento Econômico de Campina Grande, Gilson Lira, ao comentar a ausência do Governo do Estado no rol de apoios aos eventos do período de Carnaval em Campina Grande, este ano. Então, partindo do princípio de que o governador se elegeu sob o discurso da geração de emprego e renda e do aquecimento da economia da Paraíba como forma de equiparação econômica com outros estados, há uma incongruência entre fala e prática, não?

Consideremos, também, que Campina Grande votou em peso em Ricardo Coutinho e Rômulo Gouveia para governador e vice, respectivamente, porque vislumbrou, neles, uma proposta vantajosa para a cidade. Primeiro pelo discurso de que “um vice de Campina vai atuar para beneficiar Campina” e, segundo, porque a cidade acreditou que ter a participação de campinenses no governo – pois com o vice sendo de Campina Grande seus aliados teriam vez na administração – a cidade teria o prestígio que tanto merece.

Porém, mesmo com um vice de Campina como Rômulo Gouveia, notadamente ligado a movimentos sociais e, consequentemente, ao Carnaval de Rua da cidade; e com um Secretário de Turismo também de Campina, como Renato Feliciano, o homem que, há não muito tempo fazia questão de dizer que ficava em Campina Grande no período carnavalesco, junto com o pai, deputado federal Damião Feliciano, promovendo o tal do ‘Carnaval dos que Ficam’ porque defendia esta bandeira, coisa e tal, não houve a atenção devida ao Turismo de Eventos da Rainha da Borborema.

E, na pior das hipóteses, se não houve o prestígio suficiente dos aliados para mostrar ao governador a necessidade de apoio a estes eventos, que se apelasse, pelo menos, para a sensibilidade do governante. Mas isso também não foi suficiente.

O governador pode até dizer que não houve falta de prestígio dos aliados nem sensibilidade, mas falta de dinheiro. Porém, esse argumento cai por terra por dois motivos: primeiro porque, de acordo com o Sistema Sagres do Tribunal de Contas do estado, Ricardo Coutinho recebeu o Estado com um salto positivo de R$ 662.813.175,38. É só analisar o valor das receitas totais de 2010 (R$ 5.168.892.480,78) menos o valor total das despesas pagas em 2010 (R$ 4.506.079.519,65). A diferença é o saldo positivo que ficou para o novo governo.

Mas se, ainda assim, o governador dissesse que havia dificuldades e que não poderia, mesmo assim, apoiar os eventos, apelemos para os repasses federais feitos no mês de janeiro para a Paraíba. Façamos as contas e vejamos que o governo Ricardo Coutinho foi extremamente bem aquinhoado quando se trata de repasse de recursos federais.

Segundo dados disponíveis no site do Banco do Brasil, o repasse do FPE para a Paraíba, em janeiro de 2010 (governo José Maranhão) foi de R$ R$ 173.272.104,34. Em janeiro de 2011 (governo Ricardo Coutinho) subiu para R$ 261.257.712,96. Ou seja, R$ 87.985.608,62 a mais. Já o repasse para a Paraíba, em fevereiro de 2010 (governo José Maranhão) foi de R$ 211.556.756,30. Em fevereiro de 2011 (governo Ricardo Coutinho) foi de R$ 281.466.887,83. Ou seja, R$ 69.910.131,53 a mais.

E isso é apenas o Fundo de Participação dos Estados. O aumento, considerável, ocorreu em todos os outros repasses. Só para se ter uma idéia, o repasse do Fundeb de fevereiro do ano passado (governo José Maranhão) para a Paraíba foi de R$ 40.720.876,35. Em fevereiro deste ano (governo Ricardo Coutinho) foi de R$ 70.223.181,67 – ou seja, uma diferença de R$ 29.502.305,32.

Mas, mesmo assim, se o governador, diante da sorte que teve com os repasses federais de janeiro e de fevereiro, alegasse que não tinha condições financeiras para o apoio ao Turismo de Eventos de Campina, poderia, pelo menos empatar. Como assim?

A sugestão de Gilson Lira foi a de que o governador fizesse um cálculo médio de quanto o Estado vai receber de incremento no repasse do ICMS ao Estado pelo aumento da movimentação financeira de Campina Grande no período de Carnaval. Ou seja: os turistas que, no período de Carnaval, em Campina, gastassem em hotéis, bares, restaurantes, lanchonetes, no comércio, etc, etc, etc, estariam, indiretamente, contribuindo, via pagamento de ICMS, para os eventos.

Bastaria ao governador promover, única e exclusivamente, o repasse desse incremento promovido pela movimentação turística em Campina. “Garanto que seria um bom apoio do governo aos eventos e, ao mesmo tempo, ele não estaria retirando nada de lugar nenhum. Apenas devolvendo a Campina Grande o ICMS do que foi gasto aqui pelos turistas”, disse o Secretário Gilson Lira. Ótima idéia, não? Mas, mesmo assim, o governador não quis. Resultado: o ICMS do Estado referente ao que será gasto pelos turistas em Campina irá, mesmo, para o Estado investir da forma que lhe convier, não na forma de retorno em incentivo ao Turismo de Eventos da cidade, como sugeriu Gilson Lira.

Diante dessa realidade demonstrada, pode-se concluir, realmente, que faltou interesse do governo para com Campina Grande. E que pena que o prestígio do vice-governador e do Secretário de Turismo, ambos de Campina Grande, não foram suficientes para tal. E que, ao mesmo tempo, não houve sensibilidade do governador. Porque dinheiro, como vimos, tinha sim. Mesmo que fosse a compensação pura e simples do ICMS.

Aliás, ainda sobre a questão da falta de prestígio dos campinenses no novo governo, tal fator pôde ser visto, também, pelos últimos acontecimentos: o ex-governador Cássio adoeceu e já declarou, via assessoria de imprensa, que não sairá de casa no Carnaval. Sobre a falta de apoio do governador – seu aliado (até quando ninguém sabe) – aos eventos de Campina Grande, ele preferiu não comentar.

O presidente da Câmara Municipal de Campina Grande, Nelson Gomes Filho, não adoeceu. Pelo contrário, soltou as baterias contra o governador que, mesmo seu aliado, há dois meses não atende suas ligações e não o recebe. Um desprestígio ao segundo maior poder de Campina Grande e a um aliado de peso como foi o presidente, na campanha, por exemplo.

E, também, nas declarações dos demais vereadores que, durante a campanha, foram o sustentáculo de Ricardo Coutinho em Campina Grande e que também não conseguem mais falar com Rômulo (quando são feitas as ligações, eles reclamam que ouvem o toque de chamada, mas ninguém atende, até cair). Um desprestígio à turma que, em primeira hora, declarou apoio ao ‘mago’.

Aliás, quem não lembra que Ricardo, quando era um mero desconhecido em Campina e vinha à cidade, vinha sob o pretexto de se encontrar com os vereadores de oposição a Veneziano? Ou, até mesmo, quando os próprios vereadores eram recebidos em João Pessoa, pelo prefeito, na sede do Governo Municipal? Lembram que a imprensa questionava o que poderia querer o prefeito de João Pessoa com os vereadores de Campina?

É por essas e outras que já dizem em Campina Grande que tem algo mais nessa relação esdrúxula entre governador e aliados campinenses do que a falta de prestígio e/ou a falta de sensibilidade. Ou dos dois juntos, quem sabe…


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