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A régua de Efraim: quando a crítica só vale para os outros

A política eleitoral é frequentemente marcada por um fenômeno comum, porém revelador: a assimetria na avaliação de gestos e atitudes a depender de quem os protagoniza. O episódio recente envolvendo o senador Efraim Filho e o debate sobre o uso de “dancinhas” e estratégias de apelo popular em atos de pré-campanha ilustra com clareza como a régua crítica tende a encolher ou esticar conforme o alinhamento partidário.

De um lado, quando a cena é protagonizada por adversários locais — no caso, o governador Lucas Ribeiro e o pré-candidato ao Senado João Azevêdo —, o gesto festivo é imediatamente enquadrado como “gracinha”, “alienação” ou “desrespeito” com as demandas essenciais da população, como a falta de professores ou problemas de infraestrutura escolar.

A narrativa construída busca associar a descontração a quem ele faz oposição a uma suposta falta de compromisso com os problemas reais do estado.

Por outro lado, quando a mesma tática de comunicação visual e apelo pop é adotada por aliados nacionais — a exemplo da repercutida dancinha do senador Flávio Bolsonaro no Nordeste —, o tom da crítica muda drasticamente ou simplesmente desaparece. O ato, que antes era visto como superficialidade, passa a ser tolerado como uma “interação natural com o público”, um mero detalhe secundário que “não faz mal a ninguém” ou uma tentativa válida de aproximação com a militância.

A contradição fica evidente quando se analisa o conteúdo por trás das imagens:

Para o adversário, a exigência de seriedade extrema: O gesto descontraído do oponente é usado como prova de que a gestão prioriza a propaganda em detrimento dos serviços públicos básicos (como edital de concursos e carga horária escolar). O foco do ataque é o contraste entre a festa do político e a dor do cidadão

Para o aliado, a indulgência com a ausência de propostas: Quando o pré-candidato aliado percorre a região apostando no carisma, no populismo e em gestos simbólicos, sem apresentar um plano de desenvolvimento ou propostas concretas para gargalos regionais (como a economia ou a transição energética), o tom do discurso perdoa a falta de conteúdo programático em nome do alinhamento ideológico

Essa disparidade de critérios reflete o clássico dilema da militância e das lideranças políticas: para os oponentes, exige-se a perfeição técnica, a apresentação detalhada de soluções e o decoro absoluto; para os correligionários, tolera-se o vazio de propostas, a retórica simplista e o uso do espetáculo como substituto do debate de ideias.

O eleitor mais atento percebe que o problema de fundo não é a “dancinha” em si — um recurso de marketing político há muito utilizado por diferentes matizes ideológicos para humanizar candidatos —, mas sim a inconsistência do discurso. O populismo só incomoda quando vem do palanque vizinho.

Ao fim, a crítica se desidrata não por falta de problemas reais para serem debatidos na gestão pública, mas porque a régua moral e técnica usada para medir o adversário nunca é aplicada com a mesma rigidez sobre a própria bancada.

E fica a sabedoria popular – “Pau que bate em Chico, bate em Francisco”

Em tempo

Quem também é adepto às dancinhas é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, cujos vídeos têm viralizado nas redes sociais.


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