Por pbagora.com.br
 
 

De garoto-prodígio do cinema à condição de assaltante preso por supostamente roubar um pedestre no centro de João Pessoa, no dia 3 de abril, Ravi Ramos Lacerda, 18 anos, viu o seu papel mudar drasticamente depois de ser apresentado ao submundo do crack. O envolvimento com uma das drogas mais devastadoras transformou rapidamente o mocinho das telas num vilão do noticiário policial. Aos olhos da sociedade, Ravi agora é mais integrante da legião de viciados que cresce de forma descontrolada em toda a Paraíba. Somente a Polícia Federal registrou um assustador aumento de 9.300% no número de apreensões de pedras da droga nos últimos quatro anos .

Em 2005, apenas 1,6 quilo foi flagrado com traficantes. No primeiro trimestre deste ano já são 153 quilos. Cada pedra de crack pesa em média 1 grama e custa R$ 10 nos pontos de venda espalhados pela região metropolitana de João Pessoa. Fácil de transportar, barato, com poder quase imediato de dependência e fumado através de um cachimbo improvisado ou com uma simples latinha amassada, o crack é capaz de provocar reações explosivas nos usuários, além de uma ação fulminante do sistema nervoso central.

Elogiado por público e crítica pela atuação em filmes e documentários, alguns deles com repercussão internacional como “Abril Despedaçado” e “O Caminho das Nuvens”, Ravi Lacerda teria se envolvido em assaltos para sustentar o vício, e foi parar do Presídio do Roger, em João Pessoa. Temendo retaliações dos outros presos pelo fato de ser conhecido, foi transferido para um pavilhão isolado. Ainda sofre com a abstinência. Seus delitos são de menor gravidade, considerando os casos de extrema brutalidade envolvendo viciados.

Na última segunda-feira, uma adolescente de 17 anos foi espancada pelo enteado de 22 anos, no bairro do Roger. O motivo teria sido o furto de uma capa de sofá, trocada por crack. Dois dias depois, uma camareira de Campina Grande foi presa tentando esconder da Polícia Militar 18 pedras na fralda da neta. Quase todos os dias alguém é preso por tráfico ou algum usuário é assassinadoporque se envolveu em delitos para saldar dívidas com traficantes.

A violência – O motivo de tanta violência agregada aos fumantes da pedra tem origem no grave prejuízo físico e social que ela provoca. Resultado da sobra do refino da cocaína, ou da pasta de coca não refinada misturada a bicarbonato de sódio e água, cada pedra gera uma euforia de cinco minutos, seguida de momentos de abstinência e dependência. Aqueles que não possuem dinheiro acabam furtando objetos em casa ou mergulham na criminalidade para financiar o vício. Quem não consegue geralmente acaba pagando com a própria vida.

Um destino que Cássio (nome fictício) por muito pouco não teve. Filho mais novo de uma família de classe média de Campina Grande, fumou a primeira pedra aos 21 anos. Em pouco menos de um ano de vício desistiu de estudar e vendeu tudo que podia para comprar mais droga: eletrodomésticos, roupas e algumas jóias da mãe, sem que ela soubesse. “Passava dias fora de casa. Estava magro e sujo. Até que um tio me viu andando na rua e me perguntou chorando se eu queria morrer”, revelou o jovem que aceitou ser internado numa clínica.(continua na B4)

O difícil combate ao tráfico
A epidemia silenciosa provocada pela escalada do consumo de crack na Paraíba é resultado direto da fragilidade do poder público no combate à droga nos dois extremos: prevenção e repressão. É o que conclui o delegado de entorpecentes da Polícia Civil Walter Brandão, que foi enfático ao criticar a falta de uma estratégia a longo prazo: “A cada dez apreensões que fazemos, oito são de crack. Falta aparelhamento, pessoal e infraestrutura. O aumento do comércio dessa droga fez com que o nosso trabalho se tornasse um pingo num balde d’água”, denuncia Brandão.

Enquanto o tráfico avança e rompe fronteiras no Estado, aumentando o número de viciados, o trabalho de prevenção em locais estratégicos, como escolas, continua sendo feito de forma tímida, sem resultados concretos.

Responsável pelo combate ao tráfico em todas as cidades do litoral paraibano, incluindo João Pessoa, o titular da 1ª Distrital de Entorpecentes conta com cinco agentes e três viaturas. Segundo o delegado, os traficantes dificilmente são viciados.

“No mundo do crack os usuários não têm credibilidade. Os traficantes acham que eles não são capazes”, relata o delegado. Em 2008, sua equipe apreendeu quase três quilos da droga, contra apenas 152 gramas em 2006. Muito pouco para a demanda real.

Quando já estão no fundo do poço, alguns usuários recorrem a tratamento contra dependência ou são internados por determinação médica. Além de ONGs e de fazendas mantidas pela Igreja no interior, o tratamento contra a dependência química também é oferecido pela Secretaria Estadual de Saúde, que mantém em João Pessoa um Centro de Atenção Psicossocial voltado ao tratamento de drogados (CAPS).

A unidade atende em média 50 pessoas. Segundo o coordenador do centro, o psicólogo Frederico Almeida, cerca de 40% dos pacientes que conseguem se livrar completamente do vício.

“Cheguei aqui em 2001 e o crack era apenas a quinta droga mais popular entre os pacientes. Hoje ela só perde para o álcool. Temos aqui uma proporção de dez alcoólatras para sete viciados em crack”, aponta o coordenador.

Outros filmes, mesmos finais
A história de Ravi Lacerda não é a primeira. E certamente não será a última, envolvendo jovens que consomem drogas pesadas, como crack. Um caminho que muitas vezes é sem volta, como o caso do ex-ator paraibano Sávio Rolim. Ainda criança, ele atingiu precocemente o estrelato na década de 1960, quando foi protagonista do filme “Menino de Engenho”, interpretando o mítico personagem da obra de José Lins do Rego. Não conseguiu emplacar na profissão, mergulhou de forma descontrolada no álcool, em drogas pesadas e enfrentou problemas psicológicos. Um enredo de final previsível para quem não recebe ajuda na hora certa.

Saulo viveu durante décadas de forma precária na periferia de João Pessoa, mas nunca chegou a se envolver em crimes. Conforme sentenciou um crítico de cinema, é a história “de menino de engenho que virou um bagaço humano”.

A vida do ex-ator foi tema do documentário “O Menino e a Bagaceira”, gravado em 2004 e dirigido pelo cineasta professor da UFPB Lúcio Villar. “Nós achávamos que o filme provocaria uma reação da sociedade e do poder público para ajudá-lo, mas não houve sensibilização. O Estado na época ofereceu tratamento, que na minha opinião era inadequado. Por tudo isso que ele passou, merecia ter a história contada”, diz Villar, que não sabe mais do paradeiro de Saulo Rolim. “Fui a uma clínica que ele estava internado, mas ele já tinha saído para um abrigo. Paira uma maldição sobre os atores-mirins. Eles não têm estrutura emocional para superar o ostracismo”.

O Norte

 
 
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